Monda têm novo disco e o objectivo de “levar a nossa música até aos quatro cantos do mundo”

 

 

Cal’ é o segundo disco do colectivo Monda e sucede ao álbum homónimo de um projecto que pretende dar novos caminhos à tradição do cancioneiro tradicional alentejano.

Um disco que conta com 9 faixas, do cancioneiro tradicional, às quais o colectivo dá uma nova roupagem e sonoridade. Contam com as participações de Maro e Maria Emília, entre outros convidados, numa produção de Rúben Alves e do próprio colectivo.

Jorge Roque, Pedro Zagalo e Herlander Medinas (Der) conversaram com o Infocul sobre este novo disco, o percurso do grupo, os objectivo e ainda sobre o concerto que darão a 31 de Maio no Capitólio, em Lisboa.

 

Quando é que este disco começou a ser pensado?

Jorge Roque- Não há um momento certo para pensar um disco. Podemos dizer que ele foi acontecendo. Foi tendo lugar naturalmente dentro das nossas cabeças, nas várias recolhas, nas escutas de outros discos e de outros lugares sonoros. Foi construído ao longo de dois anos e pouco. É um trabalho que nos dá um gozo imenso. Provavelmente até mais do que a gravação das próprias canções. Como na arquitectura, o desenho de um edifício é mais prazeroso que a sua construção. Com um disco acontece exactamente o mesmo. Assim surgiu este, CAL. 

Quais as grandes diferenças relativamente ao primeiro disco?

Pedro Zagalo- A principal diferença, diríamos, é a existência de um primeiro, que nos permite ter o início de um caminho construído. A procura de uma sonoridade e identidade próprias é o mais difícil quando se inicia um projecto de raiz. Este disco veio acrescentar essa identidade existente, com uma afirmação própria, de um colectivo que procura sempre ir ao encontro de novos percursos sonoros, sem nunca desviar do essencial que temos em ambos os discos. O cariz tradicional e a essência melódica e dos textos do Cancioneiro Popular Alentejano. Este disco é também o reflexo da estrada que temos feito até aqui e do entrosamento musical que temos juntos.

 

Sentem que o efeito novidade com que surgiram foi perdendo-se?

Der Medinas- É uma pergunta difícil, pois não estamos no lugar do público. Contudo, acho que ainda estamos no início da nossa aparição. Há muito para apresentar e portanto haverão sempre novidades e conquistas a fazer. É certo que gostamos muito do efeito surpresa nos nossos arranjos e da procura de novos públicos.

Neste disco contam com as participações da Maro e da Maria Emília. Aquando da escolha de repertório foi logo decidido que estes temas teriam convidadas?

Pedro Zagalo- Sabíamos que haveriam convidados para este disco, mas o nome da Maro e da Maria Emília só surgiram depois de termos os temas gravados. Depois de ouvirmos as canções gravadas, pelas características vocais de cada uma e pelos seus timbres, achámos que a fusão dos arranjos e das vozes iria resultar muito bem. Ficámos muito felizes com o resultado e agradecidos com a estética musical que as nossas convidadas imprimiram nas canções.

 

 

Porquê ‘Cal’? Qual a mensagem que pretendem transmitir neste disco?

Jorge Roque- Porque este disco é sem dúvida a contemplação de uma casa renovada, caiada de branco, fino de pureza. São novas linguagens e discursos que se misturam com as nossas emoções num novo tempo, num espaço que se descobre à nossa frente, passo a passo, sem muros ou barreiras. Há no elemento CAL, um sentido de pureza e de renovação que está presente em cada uma das casas que compõem essa imagem de estereotipo que temos do Alentejo. Mas, cada uma dessas casas do Alentejo é como se nos pertencesse, mesmo quando não as habitamos. Então é nesse sentido que designámos este disco, como se convidássemos todos a entrar nessa nova casa, que é de todos nós.

A nova roupagem que vão dando ao cante tem-vos permitido ir descobrindo modas que estariam perdidas no tempo?

Der Medinas- Sem dúvida, o repertório do cancioneiro alentejano é riquíssimo e um dos fios condutores dos Monda tem sido sempre a recolha e a pesquisa de modas menos conhecidas. O difícil acaba sempre por ser a escolha das modas que mais gostamos.

 

 

Em termos de espectáculo está anunciado concerto a 31 de Maio no Capitólio. O que já podem revelar sobre esse espectáculo?

Der Medinas- Vai ser um espectáculo que cuidadosamente temos preparado ao longo deste último tempo. Estarão presentes alguns convidados e surpresas que apenas surgirão neste concerto único. Vai ser uma viagem para a qual estão todos convidados.

Terão as duas convidadas do disco nesse concerto?

Jorge Roque- A Maria Emília sim, vai estar connosco. A Maro já não conseguimos ter com muita pena nossa e dela, pois encontra-se fora do país.

 

 

Quais os músicos que estiveram convosco neste disco?

Pedro Zagalo- Para além da participação do João Gil e do Paulo Abreu Lima no tema “Passo a Passo, Pedra a Pedra, connosco estiveram os nossos cúmplices do primeiro disco e de estrada, o Tiago Oliveira na Guitarra Clássica e o João Ferreira nas Percussões. Sentimos contudo a necessidade de acrescentar neste disco, uma sonoridade de guitarra acústica mais presente e para esse trabalho chamámos um amigo de longa data e um excelente músico, o David Piçarra que cedo percebeu a estética que as canções necessitavam. Tivemos também a participação de um enorme guitarrista de fado, o José Manuel Neto que elevou a música “A minha saia faz roda” com o seu enorme talento e linguagem muito própria de quem somos fãs e amigos. A última participação é uma participação internacional, um virtuoso violinista chamado Layth Sidiq de origem iraquiana e radicado há muitos anos nos Estados Unidos. Tive o privilégio de tocar com o Layth em 2016 no Chipre e desde então temos mantido o contacto. Foi com muito agrado que o Layth também participou no nosso disco e trouxe uma sonoridade árabe à música “Eu Hei-de Amar uma Pedra”.

A formação em palco manter-se-á os três mais o Tiago Oliveira ou aumentará o número de músicos?

Jorge Roque- A formação do projecto em estrada tem sido feita com o Tiago Oliveira e o João Ferreira e vai manter-se assim salvo excepções de concertos especiais onde virá também o David Piçarra ou o acordeonista Mário Caeiro quer esteve connosco no primeiro disco.

 

 

Qual a importância de terem tido o Rúben Alves como produtor deste disco?

Pedro Zagalo- O Rúben Alves foi o produtor do primeiro disco e acompanhou o nascer do colectivo Monda. A nossa relação de trabalho é consolidada numa visão muito idêntica da sonoridade que são os Monda e que se complementa na construção de arranjos, criação de novas harmonias, escolhas de sons, e num olhar crítico sobre o que deixar ou o que retirar. É essa a essência de uma verdadeira monda. Este olhar externo é muito importante, pois como estamos tão embrenhados nas canções, é necessário alguém com distanciamento para que, em conjunto, possamos analisar e reflectir os passos e o caminho de um disco desde a pré- produção à sua conclusão.

 

 

Na primeira recolha de repertório para este disco quantos temas tinham e como foi sendo feita a triagem?

Jorge Roque- Começamos a recolha para este disco ainda com o primeiro álbum no processo de gravação, uma vez que ficaram modas por gravar. Foi um processo natural, em muitos encontros e jantares que fazemos juntos, com as nossas famílias, onde no final existe sempre um piano ou uma guitarra. Há um enorme espólio e património por recriar e mostrar ao mundo. Uma dessas modas é “A Minha Saia Faz Roda”, a qual nasceu num desses encontros e para a qual construímos este arranjo já a pensar numa guitarra portuguesa. Gostamos muito de fazer esse trabalho de procura de novas coisas, desvendar pequenas riquezas que muitas das vezes estão debaixo das pedras. Obviamente existem também modas mais conhecidas que acabam por fazer sentido incluir neste alinhamento. 

Como analisam as diferentes roupagens que têm sido dadas ao cante?

Jorge Roque- Com expectativa. É bom que hajam hoje, diferentes olhares para um património comum como o do Cante. Mas há um caminho longo a percorrer no sentido de o Cante ser um património de todos e não apenas de alguns como se quer fazer querer. A música não é uma arte estanque. É feita de dinâmicas sociais e culturais que mudam ao longo dos tempos. Como tal é natural que a tradição de outrora se vá moldando aos novos conteúdos e registos. Hoje há diferentes meios para conseguir passar a mesma mensagem e cada um deve fazê-la da forma como melhor entender desde que haja um fundamento e uma verdade. E essa verdade está na essência a e na alma e não no modo como se embrulha uma moda ou uma canção. Lembro-me que, quando aparecemos em 2015, não havia ninguém no Cante a utilizar contrabaixo ou teclados. Hoje isso é mais comum. É bom sinal, é sinal que agitámos as consciências e criámos a nossa própria viagem, mantendo a tradição daqueles que compuseram e escreveram as modas. 

 

 

Há o risco de se perder a essência?

Der Medinas- Em tudo na vida há esse risco. Veja-se o fado. Havia esse medo inicial. Porém, hoje continuam a coexistir o fado tradicional com outras sonoridades ligadas a um novo modo de interpretação da canção nacional. Mas o fado ganhou e as casas de fado provavelmente triplicaram. Não devemos ter medo desse futuro nem de perder a nossa essência, pois ela está nas nossas raízes. E depois, no final, só restam duas coisas. As boas e as más canções. 

O Cante é neste momento já devidamente valorizado e respeitado, ao invés do que acontecia anteriormente?

Der Medinas- Na nossa óptica achamos que ainda há uma reflexão grande a fazer sobre o que queremos para o Cante. Há uma partidarização aliada a este tema que acaba por influenciar negativamente uma trajectória que tem que ser pensada em conjunto, por um leque alargado de pessoas com sentido crítico, de avaliação daquilo que queremos enquanto músicos que coabitam num património que o mundo ainda desconhece. E não pode apenas conhecer uma parte. Olhemos para aquilo que se fez no fado, o qual é hoje um produto de excelência em qualquer parte do mundo, representado nas maiores salas mundiais.

Como analisam o vosso percurso até ao momento?

Sólido, com passos medidos e com um pensamento forte naquilo que queremos ser e onde queremos chegar. Os Monda vieram para ficar. Não para fazer música avulso. Talvez por isso nem sempre tenhamos tido o apoio necessário.  Para este último disco e à semelhança do primeiro, não contámos com uma única ajuda externa. Nem governamental, nem privada. Felizmente tivemos sempre grandes músicos e amigos a apoiar e a intervir positivamente no nosso trabalho. No final o que interessa é o público gostar.

 

 

O que tem sido mais complicado neste percurso?

Pedro Zagalo- Chegar a todos os ouvidos. Cada vez mais há demasiada informação, todos os dias, em todos os locais e há uma procura incessante em consumir e descartar. Acontece que a nossa música não se insere nesse mercado e como tal é mais difícil passarmos nos canais mainstream. É difícil chegar aos grandes formatos de conteúdos, como as grandes rádios ou canais de televisão. Quem decide não está, na maior parte das vezes, interessado em passar boa música, mas sim em criar audiências. São coisas distintas. Mas felizmente há cada vez mais canais e plataformas para chegar ao público e ao mundo. É esse também o nosso objectivo desde a primeira hora. Levar a nossa música até aos quatro cantos do mundo. 

 

 

Quais os objectivos delineados para este disco e para a digressão que previsivelmente se seguirá?

Der Medinas- A nossa intenção é chegar a todos aqueles que possam estar interessados escutar-nos. Queremos fazer alguns auditórios e festivais neste e no próximo ano. Queremos sobretudo mostrar o nosso trabalho e isso passa também, evidentemente, por atravessar fronteiras.

Qual a mensagem que deixam aos leitores do Infocul?

Pedro Zagalo- Que ouçam este novo disco com atenção, que procurem, aqueles que não conhecem, o nosso primeiro trabalho e que esgotem já no próximo dia 31 de Maio o Teatro Capitólio para juntos, fazermos uma festa bem luminosa.

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