Monda: “Um Mundo infinito de paixão e sentimentos” no Teatro Tivoli

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Os Monda trouxeram o mundo com sotaque alentejano ao Teatro Tivoli e deixaram nas entrelinhas das modas ali apresentadas uma mensagem para a vida: nem sempre valorizamos as pequenas coisas que a vida nos oferece por acharmos que estão sempre lá e são um dado adquirido, contudo são as que mais prazer nos dão.

 

 

 

Num Outono que se tem apresentado intermitente, os Monda trouxeram a quem ontem, 15 de Novembro, foi ao Tivoli, um verão bem quente de emoções.

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Apostando bem e de forma simplificada em toda a cenografia apresentada, conseguiram com as sonoridades da world music e com a voz cadenciada (tipicamente alentejana) de Jorge Roque proporcionar um espectáculo em que provavelmente só terão a verdadeira noção da beleza, daqui a alguns anos.

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Abriram o espectáculo “muito carregado” como disse Jorge Roque mas com a promessa que iria haver “muita alegria”, com “O Triste”, moda do cancioneiro popular alentejano. Seguiu-se “O Mocho”, moda que marcou o início de todo este processo criativo e musical chamado Monda, que conta com aproximadamente um ano de existência. Aqui contaram com o primeiro convidado em palco, Tiago Oliveira, fundador e guitarrista dos Polo Norte.

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Além de Jorge Roque, na voz, o projecto Monda conta com Der Medinas no contrabaixo e Pedro Zagalo nas teclas. Mas foi Jorge Roque que mais usou da palavra, até por ter esse dom, para comunicar com um público que dividiu a sua origem entre o Alentejo e Lisboa. Mas e apesar dos muitos amigos presentes na sala, a grupo teve que contar com a exigência que o público impôs, exemplo disso foi quando alguém na plateia corrigiu Jorge Roque se referiu a um “tema” e não uma “moda”, como deveria. Mas tudo com bastante sentido de humor.

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E por entre as muitas modas que o Alentejo nos oferece, seguiu-se “uma das mais bonitas”, na opinião do vocalista, “Lindo Ramo Verde Escuro”, que contou com Mário Caeiro no acordeão. Neste tema há ainda a destacar o excelente jogo de luzes, da autoria de António Martins. Jogo de luzes que ao longo de todo o espectáculo foi criando emoções no publico em conjunto com as imagens que no palco eram apresentadas e que se referiam a um Alentejo de outrora. António Martins que, coincidência ou não, nos tem premiado este ano com brilhantes iluminações que engrandecem os espectáculos. Importa referir que num jogo de luzes, as cores utilizadas podem, e devem, transmitir emoções diferentes. Neste concerto e tendo muitas das modas como base as tradições e em muitos casos contando estórias que a muitos trouxe recordações da sua vida, o trabalho de António Martins foi excelente.

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“Menina que andas no campo” trouxe mais um convidado para o palco, Ruben Alves. Reconhecido pianista, Ruben foi também o produtor deste primeiro disco dos Monda. Neste tema foi também o início da alegria que Jorge Roque falava anteriormente, com o público a cantarolar parte da moda.

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João Ferreira, na percussão, foi o convidado seguinte a subir a palco para “Fui-te ver estavas lavando” antecedendo uma moda característica da zona de Reguengos de Monsaraz, “Diz a Laranja ao Limão”.

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Katia Guerreiro subiu a palco para com os Monda interpretar “Adeus Maria até quando”, uma moda escrita na altura da Guerra do Ultramar e que conta na sua letra com um diálogo entre o homem que vai para a guerra e a sua companheira que fica cá. As vozes da fadista e do cantador alentejano resultaram num dueto emotivo e harmonioso.

 

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Este espectáculo dos Monda teve na sua base e no que foi apresentado ao público como maior característica a simplicidade. E de simplicidade em simplicidade proporcionaram das mais belas noites com musica portuguesa que o ano de 2016 nos ofereceu.

 

 

“Erva Cidreira” e “Vai de Centro ao Centro” que são das modas mais conhecidas do cancioneiro alentejano, antecederam uma das mais emblemáticas para os alentejanos, “Verão Alentejo e os Homens” que conta com musica e letra de Manuel Conde Fialho e arranjos dos Monda, tendo no disco sido gravada com Bernardo Charrua, que não pôde marcar presença no Tivoli. Os Cantadores de Portel subiram a palco e ai podemos ir um pouco mais além na essência do cante. Convém referir, tal como Jorge Roque o fez, que o cante não é igual em todo o Alentejo, e que é essa variedade que traz consigo toda a riqueza deste género musical.

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“Mais Brando, João Brandão” é dos temas mais bonitos na escrita e que nos remete para o tempo da PIDE (pode parecer contraditório), em que o efeito e luzes nos transporta para uma cela. Todo o dramatismo que a letra e as luzes criaram, permite apreciarmos a beleza da intensidade desta estória.

 

 

O pai do rock, Rui Veloso, recebeu das maiores ovações da noite e subiu a palco para com os Monda e os cantadores de Portel anteceder o encore com “Só uma pena me existe”, numa interpretação onde e genialidade e o sentimento caminharam juntos.

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O público queria mais e Jorge Roque regressa ao palco para sozinho e à capella nos brindar com “Solidão”. Dono de um aparelho vocal de grande qualidade, é um intérprete tremendo e com emoção servida em doses por vezes impróprias para cardíacos. Brilhante.

 

 

A festa de sotaque alentejano e com sonoridades do mundo fechou com todos o convidados em palco interpretando “Fui-te ver estavas lavando”.

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Os Monda mais do que transformarem o cante, conseguem renová-lo e ontem no Tivoli mostraram que são um projecto com uma longa estrada por percorrer mas que permitirá a quem os ouve, uma viagem por “um mundo infinito de paixão e sentimentos”, como se referiu Jorge Roque ao cancioneiro alentejano.

 

Toda a galeria fotográfica do concerto pode ser consultada no nosso Facebook.

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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