Monja Coen é líder espiritual budista e esteve recentemente em Portugal para apresentar o seu novo livro “A Sabedoria da Transformação”.

Em entrevista ao Infocul, Monja Coen falou sobre o livro, o budismo, as ligações familiares a Portugal, a política brasileira, o actual estado da Amazónia e ainda deixa conselhos aos nossos leitores.

É, actualmente, a líder espiritual budista mais seguida e mediática da América Latina.

O livro foi editado pela Editora Planeta e apresentamos de seguida a entrevista, na íntegra:

 

O que pode o público esperar deste livro?

Que possa inspirar as pessoas a procurar uma vida sábia, plena, reconhecendo que nada é fixo ou permanente e que somos a transformação. Como dizia Mahatma Gandhi, podemos ser a transformação que queremos no mundo. Para tanto é preciso nos conhecer em profundidade para escolher o caminho das virtudes.

O que a inspirou a escrevê-lo?

A Editora Planeta me chamou e pediu que escrevesse um livro. Deram-me plena liberdade. Sentei-me no computador e as histórias foram surgindo. O título foi consequência do conteúdo. De onde vem a inspiração? Da vida, da prática, da leitura, dos encontros, do Zazen.

Para quem não saiba verdadeiramente o que é o budismo, como o descreve?

Budismo é uma tradição espiritual, religião de milhões de adeptos na Ásia e que vem se espalhando pelo Ocidente. Alguns consideram que seja uma Filosofia. Também o é. Assim como Cristianismo e Islamismo, judaísmo e hinduísmo. Em todas as tradições espirituais há conceitos filosóficos muito interessantes. O Budismo surgiu na Índia há cerca de 2.600 anos. O que temos de dados históricos se refere ao Principe Sidarta Gautama, que abandona seu palácio à procura do sentido da existência, da vida e da morte. Depois de múltiplas experiências senta-se em Zazen e tem a experiência mística da unidade que o torna um ser iluminado, um Buda. Transmitiu seus ensinamentos até morrer, aos 80 anos de idade, de problemas digestivos. Não era uma deidade. Era um ser humano que despertou para a Verdade. Ensinou e deixou mais de 84 mil ensinamentos e discípulos que se espalharam por toda Ásia. Há várias escolas budistas, com características diferentes, mas todas pertencem à mesma raiz que remonta ao Buda Histórico, chamado Xacamuni Buda. A ordem a que pertenço é do Zen Budismo. Zen é meditar. Escola da meditação como prática principal, sem esquecer o trabalho, os estudos, as orações e o servir a todos os seres.

O que representa Portugal para si?

Portugal é para mim a doçura da Santa Terrinha. Meus avós paternos foram ao Brasil antes da Primeira Guerra Mundial. Sempre que se referiam a Portugal chamavam de “A Santa Terrinha”. Meu avô era de Guimarães e minha avó de Gaia. Pessoas muito boas, honestas, inteligentes, falavam com sotaque português. Assim quando vou a Portugal vou à terra da minha ancestralidade.

Por parte de mãe também eram portugueses. Só que foram ao Brasil nas primeiras décadas depois do descobrimento, lá pelos anos de 1500. Alguém fez uma árvore genealógica e houve até uma ancestral indígena casada com um ancestral português.

Que análise faz ao povo português em termos de comportamento para com os outros?

Fui muito bem recebida e senti amor, ternura, cuidado, gratidão e respeito. Olhava para um e para outra e podia ver os traços de meus familiares, minhas origens. Senti-me em casa e feliz. Numa casa portuguesa, com certeza, pão e vinho sobre a mesa. Lembrei-me das tradições, dos castelos, das grandes navegações. Que povo destemido.

Honrou-me saber que esta é a terra de meus ancestrais e este o povo que deixa marcas por sua honestidade e trabalho, respeito e carinho pela vida. País muito bem cuidado, florido, limpo – pelo menos por onde passei.

Nasceu no Brasil. Como olha para o actual espectro político?

Tudo se transforma. O aspecto político também. Depois de vários anos com o partido dos Trabalhadores à frente do governo, me surpreende o pensamento do governo atual que parece retroceder no processo dos Direitos dos Trabalhadores, Direitos Humanos e Ambientais. Por alguns momentos tenho a impressão que é a forma atual de chamar a atenção sobre o Brasil e atrair investimentos do exterior.

O que está a acontecer na Amazónia que comentário lhe merece?

A Amazónia é vasta e há vários países envolvidos. Há muita gan6ancia humana. Uma ganância pequena, individual, de alguns grupos que pensam pequeno. Querem enriquecer rapidamente, querem retirar produtos do solo, desrespeitando as leis da vida e do convívio harmonioso. Incêndios na mata também acontecem em Portugal. Não conseguimos ainda controlar a natureza e suas forças. Apenas lamentamos quando são incêndios provocados pelo desmatamento ilegal. Quando que as pessoas irão despertar? Quando irão compreender que o bem de todos está acima dos bens pessoais passageiros? Tenho certeza que isso acontecerá. Talvez eu não venha a ver, mas acredito que o despertar da consciência humana estará se difundindo por toda a Terra e sermos capazes de cuidar melhor da vida, com mais sabedoria e compaixão.

De que forma o budismo ajuda as pessoas?

O Budismo é um dos portais da expansão da consciência humana, do autoconhecimento que transcende o eu para ser o conhecimento da mente humana, de suas possibilidades, da percepção de que somos a vida da Terra e que dependemos de todas as outras formas de vida para sobreviver. O Budismo não é antropocentrista. O ser humano não é o centro da criação – é uma das formas de vida. Ao cuidar será cuidado.

O que tem sido mais importante neste seu percurso e na passagem da mensagem budista?

Tenho tido muitas respostas positivas, recebido abraços de amor e gratidão pelos ensinamentos que vem transformando muitas pessoas. Algumas saíram da depressão, outras desistiram do suicídio. Houve alguém que me agradeceu pois minhas palavras o impediram de matar alguém. Assim, considero que a mensagem de Buda, que transmito de forma leve e simples, pode ser de grande ajuda numa era onde é fácil ficar fragilizado. Espero que possa nos fortificar para superarmos as turbulências da História da Humanidade e desabrocharmos em Sabedoria e Ternura.

Qual a mensagem que deixa aos nossos leitores?

Repito, como falou Mahatma Gandhi:

Seja a transformação que quer no mundo.

Reclame menos, resmungue menos. Faça mais. Esteja mais presente, ofereça sua presença pura onde quer que vá. Use redes sociais, inteligência artificial para beneficiar a todos o seres. Saia um pouco do seu eu pequeno e observe o céu e os mares. A imensidão. Somos essa imensidão também.

Sorria mais. Agradeça mais. Cumprimente pessoas na rua, no trânsito, nos elevadores.

Converse com eus vizinhos.

Dialogue com pessoas de pontos de vista diferentes.

Insulte menos.

Compreenda mais.

Desenvolva a Sabedoria Perfeita e a Compaixão ilimitada.

Respeite e seja respeitada.

Viva sem medo e não aceite abusos de forma alguma.

Seja você – ser humano – pleno de seus sentidos, consciente de sua consciência.

Respire conscientemente e ande em plena atenção.

Podemos fazer de onde estamos o local sagrado da vida plena.

Mãos em prece.

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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