Noa: “Vocês portugueses são um povo bom, simples, sem manias. Duros às vezes, mas sempre bonitos. Reais, honestos, quentes. Exactamente como eu gosto”

 

 

A conceituada artista Noa, de seu nome Achinoam Nini, concedeu uma entrevista ao Infocul, na qual falou um pouco sobre o seu percurso, a sua carreira e sobre Portugal.

 

Nasceu em Israel mas rapidamente se mudou para Nova Iorque, aos dois anos, regressando à sua pátria aos 16. Antes de estudar numa escoa de música, esteve ao serviço do exército. Um percurso de vida incrivel e no qual conquistou público em todo o mundo, tornando-se num das mais aclamadas artistas internacionais.

 

Em digressão, Noa falou ao Infocul, numa entrevista a Jonas Santos, na qual expressa o desejo de vir a Portugal.

 

Olá Noa, antes de falarmos sobre o novo trabalho gostaria de voltar atrás no tempo e perguntar-lhe como é que foi regressar sozinha a Israel com 16 anos depois de uma infância em Nova Iorque?

Olá Jonas, posso dizer que foi um desafio muito grande. Um choque cultural enorme porque saí de Israel com menos de dois anos de idade. Tive foi o amor como incentivo já que regressei porque me apaixonei, foi esse amor que me deu a força para ultrapassar todos os obstáculos e encontrar o meu lugar e voz em Israel.

 

Chega a Israel e cumpre serviço militar. Durante essa altura a música já estava nos seus planos? Como convivia com a música nessa altura?

A minha relação com a música começa em pequenina, os meus pais dizem que já era muito musical com dois anos, portanto a música sempre fez parte da minha vida. Felizmente fui aceite numa unidade especial no exército e passei os meus dois anos de serviço obrigatório, depois da recruta, a cantar para os soldados. Foi uma escola impressionante, uma escola de vida. De outra maneira nunca teria tido a educação que tive.

 

Termina a carreira militar com uma actuação com a banda do exército e inicia estudo musical na Rimon School of Jazz and Contemporary Music. Desse percurso até ter uma carreira internacional e actuar em grandes palcos como o Carnegie Hall ou o Olympia quais as recordações que guarda com mais carinho?

Rimon foi o local perfeito para aprender, crescer e conhecer novas pessoas. Gostei muito do ambiente aparentemente relaxado, longe de impor convidava os alunos a explorar e experimentar. Os professores encorajavam a colaboração entre os alunos e foi lá que conheci Gil Dor (com o qual gravaria o seu primeiro disco e colabora até hoje), o maior “presente” que a escola me deu.

 

Em 1994 canta “Avé Maria” no Vaticano em frente a João Paulo II e 100.000 pessoas. O evento foi visto por milhões de pessoas via televisão. Como surgiu o convite? Quais as sensações que guarda desse momento?

O convite surgiu por um dos organizadores do evento que era um grande fã de Pat Metheny. Ouviu o meu primeiro disco que foi produzido pelo Pat Metheny, adorou o “Avé Maria” e decidiu convidar-me. Um feliz acontecimento. O evento mudou toda a minha vida. Cantar para tantas pessoas, a poucos metros do maior líder da Igreja Católica, como mulher, judia e israelita, foi inacreditável. Ainda mais cantei um tema clássico, católico, com letra minha que nada tem de religiosa e foi aceite como tal! Foi mesmo um derrubar de vários “muros”.

Em 2009 participa no Festival da Eurovisão com Mira Awad e o tema “There must be another way”. Continuou a acompanhar o concurso? Como o vê actualmente?

Confesso que não sou uma grande fã da Eurovisão, mas continuo extremamente orgulhosa da minha participação com a Mira porque considero a nossa canção forte, original e com um significado muito importante, e a mensagem passou para os milhões de espectadores que assistiram ao evento. Ainda hoje a canção é ensinada nas escolas de Israel e é ouvida por todo o mundo por pessoas que consideram que sim, tem de haver outra maneira (“There must be another way”).

Do primeiro disco em 1993 até “Love Medicine” em 2015, lançou 10 discos de estúdio, 4 álbuns ao vivo, duas coletâneas e diversas colaborações como nas bandas sonoras de “Notre Dame de Paris”, “GoldenEye”, “The Messenger” ou “La vita é bella”. Chega agora a Bach com o belíssimo “Letters to Bach”. Como surgiu a ideia deste disco? Porquê “escrever” a Bach?

Bach é o mestre dos mestres, o mágico da polifonia. E a polifonia para mim é o que falta no mundo actual: duas vozes, diferentes, muitas vezes em desacordo, mas que arranjam maneira de viver em harmonia. Neste mundo onde a meritocracia é tão atacada, é um grande privilegio para mim homenagear um mestre como Bach. É o meu protesto pessoal contra tudo o que representa Trump. Tudo parece estar a cair, eu quero levantar-me. O máximo que conseguir.

 

Qual foi o maior desafio deste disco? Os arranjos? As letras?

Tudo foi um desafio mas um desafio agradável. Foi como fazer ski por uma encosta ou atravessar duas escarpas com apenas uma corda, desafiador ao máximo. Amei cada minuto da produção e de gravação do disco.

 

Começou este projecto com o músico e compositor Gil Dor e no processo Quincy Jones assume a produção executiva do disco. Como surgiu esta parceria? Como foi trabalhar com ele?

Foi uma honra enorme ter o Quincy Jones como produtor executivo do disco. Ele é uma lenda viva. Gil Dor é o produtor, responsável pelos arranjos e músico mas o Quincy foi o nosso crítico, editor e “padrinho”. Deu-nos todos os conselhos, encorajou-nos e finalmente deu a sua aprovação ao projecto. Estamos realmente agradecidos.

 

“No baby” foi a escolha para primeiro single e vídeo. Foi fácil essa escolha? O videoclip é divertidíssimo. Como surgiu a ideia do mesmo?

Obrigado pelo elogio. Como o álbum é muito diferente nós quisemos que o videoclip tivesse um visual diferente também. O Guy Hirsch que é um talentoso animador israelita é o responsável pelo conceito do vídeo.

 

Está de momento em digressão europeia com datas marcadas para França, Itália, Espanha e Alemanha. O que o público pode esperar destes espectáculos? Vai incidir sobretudo no novo disco ou teremos outras surpresas?

O novo espectáculo tem uma selecção de canções mais antigas com novos arranjos e quase todo o novo disco. Temos em palco grandes músicos, muita energia, paixão, emoção e alegria.

 

Já actuou em Portugal inúmeras vezes. Esteve cá em 2018 com o disco “Love Medicine” e espectáculos em Tavira, Aveiro, Braga e Lisboa. Como é actuar em Portugal? Nestas viagens deu para conhecer o país? O que mais gosta em Portugal?

O meu engenheiro de som, o Paulo Vilares, é português e admito que a nossa longa amizade e respeito é uma parte enorme do amor que tenho por Portugal. Amo o vosso país e linguagem. Na minha última digressão fiz um esforço enorme para aprender uma canção portuguesa “No teu poema” e que canção!! Adorei canta-la e adorei a reacção do público quando a interpretei. Vocês portugueses são um povo bom, simples, sem manias. Duros às vezes, mas sempre bonitos. Reais, honestos, quentes. Exactamente como eu gosto.

 

 

A digressão “Letters to Bach” passará por cá ou tem alguma visita agendada para Portugal?

Infelizmente para já não há planos, mas estou receptiva a convites.

 

 

Para terminar a entrevista gostaria que a Noa deixasse uma frase, uma citação ou uma mensagem aos seus fans portugueses.

Meus queridos amigos, o meu desejo é que mantenham a beleza e simplicidade do vosso país e cultura, a humanidade e o calor da vossa maneira de ser e viver, os valores honestos que são um dos vossos pilares. É com grande orgulho que me sinto fazer parte da vossa vida e espero por mais oportunidades de regressar ao vosso lindo país.

 

Muito obrigado Noa e desejos de muito sucesso pessoal e profissional.

Obrigada Jonas, gostei muito desta entrevista.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.