O direito à tristeza: Triste in English from Spanish to English de Sónia Baptista, na Culturgest

 

 

 

Encarar a tristeza para viver melhor, a tristeza como alavanca para a saúde, o uso da tristeza para um mundo melhor, a tristeza como ferramenta de intervenção e como algo transformador, o direito à tristeza como algo positivo e necessário.

 

 

Estas são algumas ideias que estão na base do ciclo que acontece de 16 a 19 de Janeiro na Culturgest, que parte do espectáculo Triste in English from Spanish, de Sónia Baptista (16 – 19 Janeiro). Dele farão parte quatro apresentações do espectáculo no Grande Auditório e, no Pequeno Auditório, e as conferências A vida tal como ela é: o direito à tristeza (16 Janeiro), com Ana Cardoso Oliveira (psicóloga clínica/Psicólogos Associados), Ana Empis (psicóloga e psicoterapeuta) Miguel Silveira (biólogo) e Sónia Baptista (coreógrafa, performer, escritora) e Ecofeminismo, com a antropóloga, educadora social e engenheira técnica agrícola Yayo Herrero (18 Janeiro).

 

 

O ESPECTÁCULO

Triste in English from Spanish

16 Janeiro – 10:30 (escolas)

17 e 18 Janeiro – às 21:00

19 Janeiro – 19:00

 

 

 

Sónia Baptista começou a criar Triste in English from Spanish a partir da sua própria tristeza para enfrentar a tristeza das profundas relações entre a opressão das mulheres, a exploração do planeta e a manutenção de clivagens raciais e sociais. Um exercício que parte da tristeza pessoal, para tocar a tristeza do mundo em geral, para dar a volta perfeita e tentar enfrentar o particular de novo.

 

Em palco, sete mulheres (as cocriadoras Ana Libório, Carolina Campos, Cleo Tavares, Joana Levi, Márcia Lança e Paula Sá Nogueira) a tentar deslindar e interpretar os aspectos da tristeza, da melancolia e da depressão através de explorações plásticas, físicas, metafóricas, filosóficas e pop. Em suma, a dar o peito à tristeza como ferramenta de intervenção entendida por Sónia Baptista.

 

Novamente em cena na Culturgest, depois da estreia em Novembro de 2017, nesta revisitação ao espectáculo que é teatro e dança em diálogo com várias outras artes – e que não é, de todo triste, pelo contrário – voltam a convocar-se as raízes ecofeministas, eco-queer e holístico-filosóficas de Sónia Baptista.

 

Há preciosidades, muito sérias, pouco sérias, absurdas, vulneráveis, das tragédias globais às tristezas pessoais, do global para o individual, do natural para o metafísico, da vida real para a presença online, numa espécie de anatomia da tristeza, como espaço gerador, como espaço de partilha, como espaço que gera a dor e a esperança. “Esperança em quê? Não sei bem, não tenho respostas, mas, se comigo insistissem, eu diria: no amor. Acho que nos juntámos todas para falar de amor e comer snacks. Uma coisa leva à outra. Debaixo do pastel ronda o lamento“, como refere Sónia Baptista, que acrescenta: “Olhar a tristeza e a morte nos olhos não é fácil mas é necessário. Para melhor viver, senão tranquilamente, pelo menos de uma maneira interessante e desafiante. ´Queres ser uma pessoa feliz ou interessante?’ Entre o choque e o assombro diários. Usar a tristeza para activar a zanga e conseguir assim lutar por um mundo melhor e mais justo.”

 

 

 

AS CONFERÊNCIAS

“A vida tal como ela é: o direito à tristeza”

16 Janeiro, 18:30

 

 

Entrada gratuita (sujeita à lotação) mediante levantamento de bilhete no próprio dia a partir das 18:00.

Tomando como mote a peça de Sónia Baptista, juntam-se duas psicólogas (Ana Cardoso Oliveira, Ana Empis), um biólogo (Miguel Silveira) e uma escritora e coreógrafa (Sónia Baptista) para uma conversa sobre a tristeza.

Constantemente, dizem-nos que temos de ser mais tudo: mais felizes, mais alegres, mais espertos, mais eternos. Este paradoxo existe e não é por acaso que se diz: muito riso, pouco siso. Alerta-nos que o crescimento e a mudança passam por uma seriedade e um abandono das nossas emoções tidas como negativas. O crescimento faz-se de transformação e a mudança reflecte o desconforto e este a vontade de mudar.

No entanto, todos os palcos incentivam à alegria e à felicidade, desde as redes sociais (por exemplo, onde todas as fotografias estão cheias de sorrisos e provam que não temos tristeza nenhuma) até às nossas relações. Se estamos tristes, de imediato “temos de reagir”, “não estarás a ficar deprimido?”, “anima-te!”. O tempo é de negação.

Esta conferência é realizada em parceria com a Psicólogos Associados.

 

 

“Ecofeminismo”

18 janeiro, 18:30

 

 

Entrada gratuita (sujeita à lotação) mediante levantamento de bilhete no próprio dia a partir das 18:00.

Yayo Herrero, investigadora na área da ecologia social, aborda nesta connferência o ecofeminismo e as questões como o cuidado da terra e da vida humana, consumo ambientalmente consciente, inclusão social e modelos económicos e sociais compatíveis com o movimento regenerativo da natureza.

O ecofeminismo é uma corrente de pensamento e um movimento social que denuncia que a economia, cultura e política hegemónicas se desenvolveram em oposição às bases materiais que sustêm a vida. Propõe formas alternativas de reorganização económica e política, de modo a que se possam recompor os laços que se romperam entre as pessoas e com a natureza. O ponto de partida é a consciência de que a espécie humana vive encarnada em corpos que são vulneráveis e finitos.

Só alguns indivíduos – maioritariamente homens – é que podem viver como se flutuassem acima dos corpos e da natureza – e fazem-no graças ao facto de, em espaços escondidos da economia e da política, outras pessoas, terras e espécies se ocuparem de os manter com vida. Constituem uma minoria, mas a política e a economia organizaram-se como fosse esse o sujeito universal.

O olhar ecofeminista permite tomar consciência da oposição e conflito que existem entre o capital e a vida, e proporciona chaves para reconfigurar a lógica política e económica.

Quem protagoniza as lutas em defesa do território e das comunidades são as mulheres. O empenho do ecofeminismo é colocar a vida no centro, não só a vida das mulheres e o humano, mas do mundo vivo no seu conjunto.

Usando a multiplicidade de linguagens à disposição de uma peça coreográfica, Triste in English from Spanish liga a experiência feminina, o modo como gerámos sistemas sociais e o ambiente. Uma perspetiva ecológica que permite aprofundar esta reflexão e abrir novas hipóteses de relação – uns com os outros e com o ambiente.

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.