Fotografia: Rita Carmo

 

 

‘Alentejo Vol.1: Évora’ é o mais recente trabalho de Omiri, num livro/cd, e que dá a conhecer um dos mais criativos e interessantes artistas da actual cena musical nacional.

Vasco Ribeiro Casais, artisticamente conhecido como Omiri, apresenta um trabalho sólido, coerente, perspicaz, desafiador e com elegante bom gosto. De algumas das mais enraizadas tradições eborenses fez música, contou estórias e dá-nos a conhecer a história de uma forma actual, vibrante e intensa.

Omiri abriu a edição deste ano do Artes à Rua, em Évora, e posteriormente falou com o Infocul sobre o seu mais recente trabalho, que resulta de um desafio feito pela Câmara Municipal de Évora, através de Luís Garcia.

Na entrevistam que concedeu ao Infocul, revela quem integra este trabalho, o processo criativo, as novidades que ainda terá este ano e a ligação que tem a Évora.

 

Vasco, o que significa Omiri e porquê a escolha deste nome artístico?

Omiri é nome de uma árvore que produz estoraque, uma essência balsámica. Vem do Português do Brasil e escolhi esse nome porque na altura (2003) gostei muito da imagem gráfica que via associada ao nome. Passados alguns anos, o nome e o projecto ganharam vida própria e cá estamos.

‘Alentejo Vol.1 Évora’ é o início de um ciclo?

Cada trabalho é sempre o início de um ciclo em que se muda o alinhamento dos concertos, se renova o palco e a maneira com estamos habituados a fazer as coisas. Este trabalho também marca uma posição artística uma vez que é dedicado a uma região especifica, Évora, e porque fui eu que fiz todo o trabalho de recolha. No meu anterior trabalho “Baile Electrónico” as recolhas foram feitas pelo Tiago Pereira da “Música Portuguesas a Gostar Dela Própria”.

Como foi a escolha de repertório para este trabalho?

Fui gravando o máximo que conseguia das tradições e ofícios do concelho de Évora e depois comecei a juntar ideias e experimentar até começarem a aparecer os temas. Neste disco houve um desafio que me impus: eu quis ter no disco pelo menos uma amostra de cada pessoa ou grupo que gravei, de modo a retribuir a generosidade com que fui recebido.

Neste trabalho, recupera várias tradições do Alentejo, que não apenas a música. Como surgiu a ideia e de que forma apresenta essas tradições aqui?

Esta ideia já estava a germinar há algum tempo mas foi em Outubro do ano passado, ao receber o convite do Luís Garcia da Câmara de Évora para apresentar alguma coisa para o Artes à Rua, que se manifestou. A ideia era fazer algo de Évora para Évora, o disco/ livro é apenas uma pequena parte disso. No dia 13 de Julho passado fiz um concerto com a participação de cerca de 60 pessoas em palco (Cantadores, tocadores, tecedeira, etc.) com video mapping nas fachadas da praça do Sertório em Évora em que tentei mostrar o concelho de Évora de outra maneira, das pessoas para as pessoas.
Eu tento usar para Omiri tudo o que produza som e que tenha alguma relação com a nossa cultura e tradição, pode ser o barbeiro Neto a tocar castanholas, o Pedro Fazenda (escultor) a trabalhar a pedra, o sapateiro a martelar, o carpiteiro, os Cantares de Évora com o cante alentejano, o que pretendo é que as pessoas se relacionem com as imagens e com a música.

 

 

Quanto tempo demorou este trabalho a ser feito?

A primeira recolha foi feita no fim de Fevereiro, foram cerca de 6 meses para fazer recolhas, compor, gravar, misturar, fazer o trabalho gráfico e montar o espectáculo do Artes à Rua. Foi muito pouco tempo e por isso houve muita coisa que ficou de fora (vindimas, apanha da azeitona, cortiça, etc.). Há material mais que suficiente para fazer mais um volume sobre Évora.

O que tem Évora de especial para prender o coração de um lisboeta?

Évora tem tudo de especial. Aconteceu aqui por acaso, por o Luís Garcia ter acreditado no meu trabalho e por me ter permitido expressar a minha criatividade livremente e poder dar este trabalho a Évora. Por outro lado, foi em Évora que fiz grande parte dos meu primeiros concertos entre 2000 e 2002 com os grupos Uxu Kalhos e Dazkarieh. Por isso já tinha uma grande ligação a Évora.

Conta com extensa lista de participantes. Quem são e porque motivo estão neste trabalho?

Os participantes deste trabalho são as pessoas que me receberam e que aceitaram participar nesta aventura. Vão deste as máquinas da tipografia Nova e o Armando Carrão que imita os pássaros, à Teresa Branquinho que é tecedeira e que faz o tear cantar aos Gigabombos e aos Cantares de Évora, são os Chocalhos das Alcáçovas e as gentes de S.Miguel de Machede, são os Robertos (fantoches), o carpinteiro, o barbeiro, o Afonso Branco (rapaz de 13 anos que será o grande representante do Cante no futuro) e claro muito mais…
São pessoas maravilhosas que me receberam de braços abertos e que representam este concelho.

 

 

Quais as tradições e artes que lamenta não estarem neste Vol.1?

As vindimas, a apanha da azeitona, a apanha da cortiça…

Este trabalho abriu o Artes à Rua deste ano. Como correu e qual a receptividade do público?

Correu muito bem, foi um concerto de Évora para Évora e o público sentiu isso. Foi uma noite mágica. Nunca tinha feito nada com esta dimensão (pelo menos comigo ao leme) e foi uma experiência extraordinária.
Ter tantas pessoas a dar tanto, desde a produção, à equipa técnica a todos os convidados, foi uma noite muito emocionante para todos.

Quais os grandes desafios ao juntar a vivência rural e a música de cariz urbano?

Para mim essa fusão é natural, já a oiço na minha cabeça quando estou a gravar os vídeos. Mas claro que há muito trabalho a fazer para conseguir casar bem os dois mundos, um muito rude e espontâneo e o outro muito polido.

Quando surge o gosto pela música tradicional?

Em 1998 descobri todo o mundo das músicas do mundo e de instrumentos pouco convencionais. Queria aprender a tocar tudo e adorava música escandinava, irlandesa, africana, etc… Depois descobri que o que eu gostava nessas músicas era o facto de eles já a terem fundido com novas linguagens e percebi que o meu caminho era fazer o mesmo com as nossas músicas.

Como renovar a tradição sem a adulterar?

A tradição está sempre a ser renovada de uma maneira ou outra, não há tradição pura por isso também não há o risco de a adulterar. A tradição é viva e vive nas pessoas.

Como encara o interesse, que por exemplo, o cante tem despertado após conquistar selo Unesco?

É como tudo na vida, temos grande tesouros mas só quando são validados por outros é que lhes começamos a dar valor.

Já tem em mente um Vol2? Qual a temática?

Tenho vontade de mais uns 20 ou 30 volumes, Portugal é riquíssimo em tradições. Vamos ver qual será o próximo…

Quais as novidades que Omiri tem, ainda, para 2019?

2019 ainda nos reserva concertos em alguns festivais importantes dentro e fora de Portugal e, em Outubro, a participação no maior evento de “Músicas do Mundo” da Europa, a Womex que este ano é na Finlândia. Omiri é o único projecto português a integrar a selecção oficial.

Qual a importância da CME neste trabalho e de que forma foi fulcral o apoio dado?

A Câmara de Évora foi quem desencadeou este trabalho com o convite do Luís Garcia. A política cultural que a Câmara de Évora tem desenvolvido é na minha opinião um exemplo a ser seguido pelos outros municípios, uma política cultural das pessoas para as pessoas com objectivos de educar públicos e de não simplesmente de os entreter.
No caso deste trabalho, deram-me carta branca para criar o que eu quisesse e nunca houve problemas mas sim soluções. O apoio deles foi tudo para que se fizesse este espectáculo e este disco, sem eles era muito mais difícil e nem fazia sentido.

 

Quem é Omiri fora dos palcos e o que gosta de fazer?

É o Vasco e gosta de tocar e pensar nos concertos!!! Na verdade o trabalho de um artista nunca acaba e estou sempre a pensar em melhorar o que faço. Gosto um pouco de tudo e principalmente de aprender e de estar rodeado de pessoas interessantes.
Também sou pai de duas meninas lindas e tenho sempre o desafio de tentar ter uma vida familiar equilibrada (o que nem sempre é fácil nesta vida).

 

 

Onde pode o público interagir consigo nas redes sociais?

No youtube, facebook, instagram e por e-mail.

Dedica muito tempo às redes sociais?

Tento responder a todos mas tenho como objectivo estar um pouco fora desse universo, tento estar presente apenas o suficiente para promover e informar as pessoas do que estou a fazer.

O que é imperdível para quem for a Évora?

Um passeio no centro histórico é sempre uma experiência muito agradável mas melhor ainda é usufruir da agenda cultural da cidade dentro e fora de muralhas.

Qual a mensagem que deixa aos nossos leitores?

Não existe o impossível, é preciso acreditar e lutar pelo que acreditamos. Sejam felizes.

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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