Opinião: “Aqui na Alma” de Miguel Ramos

Miguel ramos

 

Miguel Ramos tem novo disco, “Aqui na Alma”, e consegue um trabalho de excelência, homogéneo na escolha de alinhamento que revela também a certeza de para onde quer caminhar e como o quer fazer.

 

 

Num trabalho que conta com a produção de Diogo Clemente (reconhecido pelo bom gosto e pela qualidade enquanto produtor, instrumentista e também compositor), conta na parte instrumental com Angelo Freire na guitarra portuguesa, Diogo Clemente na viola de fado e Marino de Freitas no Baixo (Diogo Clemente também toca baixo em três faixas). Destaque ainda para a participação de Ashla Kinja no udu e ambientes (especial destaque em “É como o amor”).

 

 

Miguel Ramos tem já um longo percurso no fado, é das vozes mais apaixonantes de se ouvir e que permite saborear o fado na sua mais pura essência, sem malabarismos ou inovações. Na voz de Miguel, o fado renova-se, não perdendo a sua pura essência mas adequado e perfeitamente enquadrado nos tempos actuais.

 

 

O disco abre com o tema que dá nome ao disco, “Aqui na Alma”, com letra de Diogo Clemente e música de Alfredo Marceneiro, seguindo-se depois um passeio “Por Lisboa” pela caneta de Rui Rocha e música de Miguel Rebelo. A voz do fadista é como que brisa que nos refresca a alma numa tarde de verão, “Gosto do Vento” é dos temas mais sublimemente interpretados neste disco, chegando a ser arrepiante o diálogo entre a voz e a guitarra.

 

 

Este disco mostra “A verdade” (Rafael Carvalho e Bernardo Lino Teixeira) de quem sente o que canta, de quem consegue encarnar o poema e a sua mensagem. “Ser Antigo” conta com a letra de Diogo Clemente (aconselho a apreciarem com atenção as letras que escreve, é de uma sensibilidade impar, num mundo cada vez mais austero).

 

 

Miguel Ramos tem uma voz bem timbrada que sabe como moldar aos temas com que nos vai presenteando neste trabalho, conseguindo efectuar excelentemente as passagens nos vários registos com que nos vai brindando, como é o caso de “A lama que nos separa” que conta com letra de José Gonçalez e Frederico de Brito.

 

 

Quase a chegarmos ao verão e já Miguel Ramos nos antecipa o “Fim do Outono” em que num poema maravilhoso de Diogo Clemente (pode parecer repetitivo mas é extraordinário o talento para a escrita de canções) e música de Raúl Pereira. E por falar em excelentes letristas, Mário Raínho presenteia-nos com um emotivo “Sabe Deus”, com música de Pedro Rodrigues.

 

 

Fábia Rebordão, que lançou também um excelente disco no ano transacto, mostra a sua veia de letrista e compositora em “É como o Amor”, uma canção com toque de sensibilidade feminina e potenciada pela astucia interpretativa de Miguel Ramos. Mário Rainho bisa nas letras deste disco com “Meu amor é nuvem branca”, com música de José Marques do Amaral, sendo que o disco fecha com “Leio em Teus Olhos” de Mário Moniz Pereira, letra e música.

 

 

Um disco de pormenores fabulosos num resultado final excelente. Numa altura em que tanto se discute o fado, deveremos todos ouvir este disco e sentir o fado ao invés de o discutirmos com coisas que muitas vezes são irrelevantes. Miguel Ramos tem, sente e canta o fado como poucos, o resultado está todo neste disco!

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