Opinião. ‘Casa Vazia’, de Carlos Leitão, surpreende e abraça novos horizontes

 

 

‘Casa Vazia’ é o novo disco de Carlos Leitão e é provavelmente o disco mais surpreendente do fadista lisboeta e de alma alentejana.

Este terceiro disco encerra o ciclo “Casa”, depois dos discos ‘Do Quarto’ e ‘Sala de Estar’ e tem como um dos maiores destaques o facto de Carlos Leitão ter convidado várias personalidades a compor e escrever para si, algumas delas surpreendentes.

O single de avanço, “Dona Maria Dilema”, do disco foi escrito por Salvador Sobral, com música de João Só, e tem na ironia (disruptiva e inteligente) a sua maior arma. Não é um tema para agradar a todos, mas é um tema que surpreende o público do fadista e que lhe permitirá, quase de certeza, alcançar um público que ainda não é o seu.

A dar nome ao disco surge um tema com letra de Júlio Machado Vaz, e música de Armando Machado, na qual o autor surge também no tema ao lado do fadista. Não é um tema para os millenials, mas antes para melómanos e amantes da escrita emocional.

‘Assim Assim’ é o nome de um dos temas mais certeiros deste disco e conta com a assinatura de Marco Horário, com música de Carlos Leitão, e dá-nos uma versão mais amorosa e sensível de um homem que nos habituou…a rir. Numa época em que tudo fala de preconceito, Marco Horário, com quem Carlos Leitão trabalhou onze anos no projecto Rouxinol Faduncho, mostra-nos que é mais do que um humorista. Tem um pulsante coração, que neste caso deslizou na ‘pena’ (caneta) com que escreveu uma das letras mais bonitas do disco.

O disco de Carlos Leitão é todo ele uma viagem emocional que demora-se em todas as vertentes do Amor. Contrastando com o seu aparente ar sério e sisudo, este acaba por ser um disco leve na abordagem musical e intenso na mensagem que passa para o público.

O melhor tema, na minha opinião, deste disco conta com a assinatura de Jorge Benvinda (Virgem Suta), intitulado ‘Um quarto para as duas’. Leve, com malandrice da boa, mensagem definida e que cai muito bem no poder interpretativo de Carlos Leitão.

Carlos Leitão, além de interpretar e compor, assina também alguns temas neste disco como “’O Camarim’, ‘As voltas do Sim e do Não’, ‘O menino dança’, ‘Os fados que não quero cantar’ e Quando voltei à cidade’.

Destes, destacam-se, positivamente, ‘Quando voltei à cidade’ pela mensagem assertiva sobre a Lisboa e o fado na actualidade e ‘O menino Dança’ com música de José Elmiro Nunes.

De Tozé Brito chega-nos ‘Bem ou Mal’ que nos fala sobre a importância de termos alguém na vida, quando tudo possa correr mal.

Ressalvar ainda Júlio Resende, Tiago Salazar, Vitorino, Ricardo Cruz, Manuel Maria Marques e Marco Rodrigues que assinam letras/composições neste trabalho.

Neste disco, e numa opção puramente de gosto e não qualitativa, ‘Soledad’ (Cecília Meireles e Alain Oulman) é o único tema que penso que não adiciona nada. Do repertório Amaliano, acaba por não trazer nada de novo ao repertório de Carlos Leitão.

Em resumo, este disco traz-nos um Carlos Leitão pujante na interpretação (algo que o caracteriza nos três discos e concertos ao vivo), com arrojo na escolha das letras e dos autores, que aposta em duas guitarras portuguesas para o acompanhar (Bruno Chaveiro e Henrique Leitão), além de Luís Pontes na viola e Carlos Menezes no baixo e contrabaixo, ao contrário dos discos anteriores em que apenas contou com uma guitarra portuguesa e que, por último mas não menos importante, poderá vir a alcançar novos públicos.

A produção esteve a cargo de Carlos Leitão, com Fernando Nunes a assinar a captação, mistura e masterização, contando ainda com as participações especiais de Júlio Resende e Júlio Machado Vaz.

Depois um quarto escuro e de uma sala de estar repleta de afectos, Carlos Leitão dá-nos uma Casa Vazia que está cheia de surpresas, de arrojo e de Amor. Surpreendente, pela positiva, até para mim (que conheço relativamente bem o percurso artístico de Carlos Leitão), assumo! É um Fadista, por inteiro, até mesmo mesmo nas canções.

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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