Depois de recentemente ter sido inaugurada, após restauro, a Sala D. João IV, o Infocul entrevistou o director do Palácio Nacional da Ajuda, José Alberto Ribeiro, para um balanço deste ano e também podermos perspectivar 2020, relativamente a este monumento nacional.

 

Balanço 2019

José Alberto Ribeiro começou por nos revelar que “foi um ano com muitas actividades, aqui no Palácio, não só a nível de mostras de artistas contemporâneos, como é o caso do Damià Diaz, que teve aqui uma exposição (inserida na Mostra Espanha 2019), e uma residência artística do Valentim Quaresma. Tivemos também uma mostra de arte chinesa, num protocolo com a Embaixada da China, e tivemos também vários momentos como conferências, alguns delas relacionadas com D. Maria II no ano em que se assinalam 200 anos do seu nascimento, no Rio de Janeiro. E também tivemos dois momentos importantes, com o apoio do mecenato, e que foram a remodelação da antecâmara do quarto do rei, em que fizemos a remodelação dessa antecâmara que era só uma vitrina com objectos que íamos alterando regularmente sobre os mais variados temas e agora está uma antecâmara dedicada a pessoas que viveram curtos períodos de tempo no Palácio Nacional da Ajuda, desde o seu fundador, D. João VI, até D. Luís e Maria Pia que viveram aqui de forma permanente a partir de 1862. É dedicado, sobretudo, a D. João VI e D. Maria II e percebe-se sobretudo para o público brasileiro que tem uma leitura muito gratificante, ver aquelas figuras que para eles lhes são particularmente caras”.

Realçou ainda queacabámos, também, este ano o restauro, um restauro muito grande, com o apoio da Fundação Millenium BCP, que foi o restauro da Sala D. João IV. Um restauro que levou mais tempo do que aquele que esperávamos, porque as patologias das abóbadas estavam em pior estado do que imaginávamos. Quando se chegou ao eixo central da abóbada para se fazer a conservação, percebeu-se que a abóbada estava em estado de ruína. E portanto na última campanha de obras que decorreu aqui no palácio, na década de 70, foram deixadas 3 toneladas de lixo que foi preciso remover lá de cima, portanto fizemos esse restauro e estou muito satisfeito”.

Mas se 2019 foi ano de muitas actividades, 2020 tem já vários projectos em andamento, como por exemplo, “em Janeiro de 2020 vamos começar um outro grande restauro que é a Sala do Trono, não só a cobertura mas também o imobiliário da Sala do Trono”, disse-nos o director do Palácio Nacional da Ajuda.

Sobre a sala D. João IV revelou que o restauro demorou 16 meses, foi muito mais do que aquilo que esperávamos. Encontrámos patologias que não estávamos à espera”.

Para 2020, José Alberto Ribeiro, explica que “queremos concluir o restauro da Sala Azul. Tivemos um problema com o fornecedor dos tecidos e portanto isso atrasou-nos completamente essa sala, essa em parceria com a Fundação Bont e que vai ser uma grande mais-valia para o piso rés-do-chão”.

Durante 2019 houve também um aumento do espólio do palácio, pois “compraram-se, também, várias peças aqui para o Palácio, desde fotografias a cerâmicas, sendo a peça mais emblemática ou de maior expressão a espada de D. Miguel, e que fazia parte das peças e jóias privadas do Rei que ficaram no lote de jóias da coroa que foram expropriadas à família real”.

Recordou que “essa espada foi vendida com uma série de outras peças que eram bens de D. Miguel, em 1943, num leilão privado em que estavam apenas os descendentes de D. Miguel e o estado português. Numa fase inicial essa espada estava num lote que o Rosa Júnior ficou de comprar para o estado português, depois a determinada altura acabou por não comprar, comprou outras peças e a espada não ficou. Muitos anos depois, a espada veio parar novamente, ela nem passou pelo circuito comercial, foi o próprio proprietário que nos veio propor a espada e até demorou alguns meses a negociação, porque eu achava que a espada era muito cara, no valor proposto, e depois chegámos a um acordo, o proprietário não baixou o valor mas incluiu mais peças no lote, nomeadamente um retrato de uma irmã de D. Miguel, um crachá em ouro da ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa e uns talheres em prata”, destacando que “acabou por se fazer essa grande aquisição”.

A música teve também forte destaque no Palácio Nacional da Ajuda, pois “realizaram-se inúmeros concertos no Palácio, alguns colóquios, com foi o caso do colóquio sobre Dona Maria II em colaboração com a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa” ou ainda o “colóquio sobre música e dança nas cortes ibéricas no século XVIII e XIX”, “além das nossas conferencias mensais relacionadas com as temáticas do Palácio da Ajuda”. Realça ainda que “continuamos a trabalhar no projecto museológico para o tesouro real”.

Sala Azul

Sobre o restauro da Sala Azul, disse que “é uma sala que deverá ficar perto dos 100 mil euros, é uma sala em que é restaurado o lustre, que vai ser demonstrado e restaurado na Marinha grande, portanto serão portugueses a restaurar e a colocar iluminação museológica no lustre, a seda será no sentido de colocarmos o mais próximo possível de como era” e “para tal conseguimos que algum mobiliário voltasse para ser forrado de novo e volte à sala, nomeadamente do Palácio de Queluz e Palácio de Belém”. “Eu espero que no primeiro trimestre esteja aberto”, acrescentou.

Atracção de Novos Públicos

Ter algumas exposições de artistas contemporâneos tem levado outro tipo de público ao palácio, e José Alberto Ribeiro dá como exemplo a “Lisbon Week que escolheu o Palácio para fazer um conjunto de actividades e foi muito interessante, porque por exemplo muitas pessoas da Ajuda que nunca tinham vindo ao Palácio da Ajuda vieram, muitas pessoas de fora que não tinham conhecimento do património que vinham aqui visitar…” e ainda “exposições como o Valentim Quaresma trazem-nos pessoas da moda, do design de moda”.

Sem esquecer que “tivemos ainda uma exposição de cerâmica da Rita Filipe, em colaboração com a Faculdade de Belas Artes de Lisboa, e isso traz-nos um público que, sendo um público que faz sentido num museu histórico, tem mais apetência para visitar um museu de design ou um museu de arte contemporânea, e acaba por vir e inspirar-se e achar interessante esta combinação entre estes dois espaços e isto tudo aconteceu juntamente com uma outra componente que o palácio teve muito este ano, devemos ter tido este ano o maior ano de cedências de espaço que o palácio fez, e para além das cedências de espaço, temos a particularidade de sermos utilizados pela Presidência da República para os jantares oficiais do Senhor Presidente da República, que não é uma organização nossa, não é uma produção do palácio da ajuda, mas que interfere muito na dinâmica do museu”.

Até porque “nessa tarde temos de fechar ao público, implica grandes alterações na sala de banquetes, a baixela que se põe na mesa, há um lado de apoio ao serviço do protocolo de espaço feito por nós, os vigilantes que ficam a assistir ao evento são vigilantes do Palácio da Ajuda, portanto é um trabalho em que nós estamos cá para facilitar o trabalho do protocolo e da casa da Presidência, é um trabalho invisível, mas implica uma grande logística da nossa parte”.

Preservar a história e projectar o futuro

Questionei o director do Palácio Nacional da Ajuda sobre o trabalho que é preservar a história, a função de um museu, e projectar o futuro, para que assim ele cumpra a sua função de museu.

José Alberto Ribeiro refere que “tenho sempre a ideia de que nós temos de fazer coisas novas e coisas que deixem uma marca ou sensibilizem os que nos visitem, nomeadamente os mais novos”.

Entre os desafios futuros, diz que “temos um roteiro em braille praticamente acabado e começamos a ter de uma forma mais permanente visitas para pessoas invisuais e também trabalhamos com alguns segmentos da população mais esquecidos, como é o caso de pessoas com dificuldades mentais ou grupos marginalizados que de uma outra forma não terão oportunidade de vir a um sítio destes”.

Acrescentou ainda de que “relativamente ao museu propriamente dito, o que tenho procurado é também que as salas tenham uma maior reconstituição possível e nesse sentido tenho procurado trazer algumas peças que eram do Palácio Nacional da Ajuda e que estão fora por vicissitudes históricas da primeira República, ou do estado novo ou que saíram para ir para um Governo Civil ou para a Presidência da República ou para a Assembleia. Não é meu objectivo, nem de perto nem de longe e não fazia sentido, que as peças voltassem todas, mas que voltassem peças que estariam em lugares chaves no que é hoje o percurso de visita e o meu objectivo passa por aí”.

O objectivo das aquisições que têm sido efectuadas é “melhorar o percurso de visita numa casa que é uma residência histórica, que não é uma residência histórica qualquer, uma residência de poder, portanto viveram aqui pessoas que tiveram vidas familiares igual às do seu tempo, mas ao mesmo tempo foi uma casa de representação de poder, de receber banquetes, chefes de estado, presidentes, Reis, monarcas, coisa que a presidência da república continua a fazer, portanto o Palácio da Ajuda foi sempre uma casa de representação de poder”.

E nesse seguimento, “é meu objectivo que, cada vez mais, quem visite o Palácio da Ajuda saia com essa experiência de entrar num espaço onde recuou no tempo e conseguiu perceber a vivência das pessoas que passaram por cá e a funcionalidade de cada um desses espaços”.

José Alberto Ribeiro almeja ainda “em 2020, para além dos restauros das duas salas que falei, reabrir pelo menos no piso térreo as salas que estão fechadas. A poente, por causa das obras que estão a decorrer, nomeadamente a Sala Verde que era o escritório da D. Maria Pia com algumas alterações museológicas que irão enriquecer o percurso de visita”.

Adiantou ainda que “em termos de exposições temporárias para já tenho 3 exposições, sendo uma de maior envergadura, que pela sua complexidade e feita em colaboração com o Museu da Presidência da República não se conseguiu fazer este ano, que é sobre a rainha Dona Maria II, Princesa brasileira Rainha de Portugal. Depois teremos também uma exposição com a fundação D. Manuel II com relíquias da casa real e, ainda antes disso, uma exposição mais simples, em termos de apresentação, que é uma colecção de gravuras de um coleccionador privado, sobre a dança no século XIX, que toca muito com este palácio que tinha a sua sala de bailes”.

Obras na Fachada Poente

As conhecidas, e visíveis, obras na Fachada Poente têm estado a “a correr muito bem, sobretudo este verão houve aqui um avançoquer dizer o trabalho tem estado sempre a decorrer, mas só agora quando se começaram a erguer paredes como se vê e se percebe a quantidade de construção que aquele espaço tem e estamos a apontar para 2021 a inauguração daquela ala”.

Desafios financeiros e mecenato

Sobre os maiores desafios, enquanto director, disse que “são os desafios para todos em geral, é a questão da falta de recurso financeiros, a sub-orçamentação crónica que a cultura tem, o que nos leva a procurar mecenato, numa altura em que não é fácil obter mecenato. Desde que estou cá, já fiz várias obras de recuperação de salas com mecenato e eu privilegio o mecenato para coisas que durem, coisas que fiquem, nunca pedi mecenato apenas para uma exposição, excepto uma que foi uma exposição sobre a história de Portugal no Japão e tivemos o apoio da Fujistu e que permitiu, também, restaurar as armaduras japonesas que nós temos na colecção e que estão agora lá em cima em exposição na antecâmara da sala chinesa. Todo esse trabalho é um trabalho difícil na obtenção de mecenato e requer um esforço constante, numa casa que não tem muitos funcionários”.

Turismo

Sobre o trabalho desenvolvido com os operadores turísticos, para que mais pessoas visitem o palácio, José Alberto Ribeiro disse que “é muito difícil mudar os programas que já têm feitos, por exemplo nós temos mais operadores turísticos que vêm à segunda -feira porque é o dia em que os outros museus de Belém estão fechados, mas temos tido mais de pequenas agências ou operadores de menores dimensões, que fazem um percurso de visita de maior qualidade e com grupos mais pequenos e somos também procurados por pessoas que procuram outro tipo de visitas, ou seja, visitas encenadas, etc, e tem corrido bastante bem”.

Leis, Orçamento e Despesa

José Alberto Ribeiro e traços gerais revelou a despesa e orçamento que tem de gerir anualmente, “em termos de despesa ultrapassa 1 milhão de euros contando com tudo, os orçamentos que eu tenho para gerir, são geralmente muito reduzidos, portanto posso ter 60 mil, 80 mil o que é insuficiente para fazer uma exposição, e depois conto obviamente com o apoio da tutela, sempre que apresento uma exposição são sempre exposições tidas como boas oportunidades para mostrar segmentos da exposição”.

Sobre o que pode ser feito para alterar este constante sufoco que passa em termos financeiros, diz que “espero que com esta nova lei que está posta em cima da mesa, e com a possibilidade que temos em poder gerir algum dinheiro que recebemos, a ideia é que haja um fundo de solidariedade, imagina que temos que atingir 100 e a partir dos 100 é solidariedade para todos os outros que fazem menos receita… mas por exemplo se eu passar a gerir na íntegra as receitas que faço com as cedências de espaço ou bilheteira, isso será uma ajuda muito grande para a conservação de salas ou projectos de outro tipo, ou publicitar o palácio a nível internacional”.

A terminar a entrevista e quando desafiado, se o seu trabalho fosse uma obra de arte que nome lhe daria, disse “resiliência”.

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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