D.R.

 

O Grande Auditório do Centro Cultural de Belém recebeu esta sexta-feira, 25 de Outubro, o primeiro concerto do ciclo Há Fado no Cais, 2019/20, por Paulo Bragança.

A 25 de Outubro de 1997, Paulo Bragança pisou pela primeira vez o palco deste auditório. 22 anos depois voltou a fazê-lo. Os tempos mudaram, Paulo mudou, o mundo mudou. Melhor ou pior, caberá a cada um dizer.

Ontem, 25 de Outubro de 2019, Paulo Bragança teve daquelas noites inolvidáveis, pelas quais queremos sempre lembrar tal o receio de alguma vez as esquecer. Quem lá esteve, dificilmente esquecerá.

Outrora conhecido com ‘O Fadista Folk’, gótico foi também termo utilizado, iniciou o espectáculo perante ambiente escuro, no qual surgiu uma lua reflectida no fundo do palco.

Após breve declamação, ainda sem qualquer luz, seguiu-se interpretação de ‘Entrega’, de Pedro Homem de Melo e com música de Carlos Gonçalves, numa arrebatadora performance.

Por entre suspiros e/ou público que ia acomodando-se nas cadeiras, Paulo Bragança continuou o espectáculo, vestindo calças e jaqueta negra, camisa branca e lenço encarnado. A meio trocou a jaqueta e o lenço por um paramanto, com alguns momentos ainda apenas vestindo camisa e calças.

Esteve todo o espectáculo descalço, como que sentido a energia que o chão, representando o universo, lhe pudessem transmitir. E se as energias que recebeu não são conhecidas, poderemos falar das que foi transmitindo a quem ali, diante de si, estava.

Num meio fadista que se quer todo igual, tal as imitações que se assistem, Paulo Bragança continua, e bem, a não cumprir esse requisito. Veste o quer, diz o que lhe apetece e canta o que sente. E até faz uma criteriosa escolha de repertório!

E se o Fado é Vida e se Vida é Verdade, então está tudo certo.

Perante um CCB que longe esteve de esgotar, mas bem composto na plateia, Paulo Bragança mostrou de forma nua e crua a diferença entre quantidade e qualidade.

Quantidade é ter milhares de seguidores e não precisar de cantar nada e a qualidade ser inexistente. Qualidade é, independente do número de seguidores/público a assistir/marcas a patrocinar, subir a um palco e estar quase duas horas num patamar de qualidade indiscutível, com voz, musicalidade e alma!

O Fado não tem, nem deve, de ser um concurso de graves ou ver quem faz o melhor falsete. Fado é cantar a Vida e dar Vida aos, tão bons, poetas que temos.

Paulo Bragança contou com um suporte instrumental magnífico, composto por Luís Coelho na guitarra portuguesa, Tiago Silva na viola de fado, André M. Santos na guitarra clássica, Alexandre Tavares na guitarra eléctrica e Jorge Carreiro no contrabaixo.

O desenho de luz, a cargo de Jorge Pato, foi também ele de enorme simplicidade que o tornou grandioso e deu maior pujança ao que o fadista cantou.

E por entre Mistérios do Fado, uma Maldição em forma de Fado Cravo, descobrindo a Enciclopédia do Fado, houve ainda tempo para recordar João Villaret, homenagear a música romena e ouvir o grupo de adufeiras, Adufe e Alguidar, num extraordinário momento com Paulo Bragança.

Destaque ainda par mais dois momentos de particular interesse, pela alma empregue e pelas homenagens feitas: ‘Soldado’ dos Sitiados e ‘Remar Remar’ dos Xutos & Pontapés, temas que também integraram o alinhamento para esta noite.

‘Cansaço’ e ‘Lisboa à noite’, foram os dois últimos grandes momentos de uma noite em que o Fado foi elevado aos céus. Em que o preconceito teve um destino fatal! Paulo Bragança, outrora nome maior da sua geração fadista, não desapareceu! Está cá, para todos os que o queiram ouvir! Mas acima de tudo, para quem o mereça ouvir.

Espectáculo de qualidade muito elevada, porque a Arte quando Existe, raramente pode ser descrita! Apenas sentida, vivida e apreciada!

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

Rui Lavrador has 6411 posts and counting. See all posts by Rui Lavrador

Rui Lavrador

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.