paulo-santos

 

Paulo Santos é desenhador de luz e o responsável por várias peças que foram um sucesso no teatro em Portugal. Actualmente é o responsável pelo desenho de luz de “Quase Normal”, do qual já fizemos aqui a critica, e em entrevista ao Infocul abordou os seus 24 anos de actividade, num registo informal.

 

 

Damos assim a conhecer o trabalho de um profissional que tem recolhido de diversos actores e agentes ligados à cultura os maiores elogios.

 

 

Paulo Santos nasceu a 26 de Junho de 1974 no Seixal, iniciou a sua carreira como Técnico de Luz em 1994 desde então tem desempenhado as mais variadas funções, sempre na área técnica do espectáculo, quer na operação de luz e som, quer na realização de desenhos de luz, quer ainda como director técnico de variados projectos artísticos, acessória técnica e elaboração de projectos de som, luz, vídeo e espaços cénicos.

 

 

 

Paulo, és um artista que o público quase não vê mas que ilumina os outros. Quando começou este bichinho da iluminação e do espectáculo?

 

Neste momento, fez em Dezembro 24 anos. Tinha acabado de sair da escola. Fiz uma experiência no estrangeiro como electricista. Entretanto, o meu pai desafiou-me para ir ao Parque Mayer fazer a iluminação de uns cenários, de umas coisas que precisavam de luz. .. Entretanto, quando lá estava, precisavam de alguém para operar luz. Não havia ninguém é desafiaram-me. Desde ai começou… como eu costumo dizer, acho que algum bichinho mordeu-me lá dentro do teatro e a partir dai nunca mais consegui largar essa coisa. Comecei como operador, passei por operador de som, depois passei para iluminador e tem sido desde ai…

 

 

Em 24 anos, quantos espectáculos já foram? Tens conta?

 

Isso já não sei quantos são. Já são muitos. Em páginas no currículo já vai em 16, por isso não faço a menor ideia…

 

 paulo-santos-quase-normal-alfredo-matos

(“Quase Normal”- Auditório do Casino Estoril- Fotografia de Alfredo Matos) 

Qual foi, ao longo destes 24 anos, aquele espectáculo que mais te desafiou, que mais te levou ao limite tanto pelas condições, como pelo desafio?

 

Epá tenho três espectáculos muito desafiantes, o último é o “Quase normal”. Foram 10 dias de ensaios quase a chorar todos os dias para conseguir perceber, levar… Neste momento, o que o público diz é que é mais uma personagem que está em cena. É como se fosse mais um elemento que conta a história, leva as pessoas mais ao drama ou não, conforme a minha luz, e foi muito desafiante fazer esse projecto. Acho que é o mais difícil de todos, até hoje. Tirando esse, o Nuno Feist também me fez uma proposta de outro mundo, que foi fazer luz e som ao mesmo tempo para o concerto da Simone, dos 58 anos de carreira que também foi muito desafiante fazer as duas coisas ao mesmo tempo num dia de trabalho, e depois houve um que foi com a companhia “Kind of Black Box” em que fui estrear um espectáculo ao Brasil sem nunca ter feito em Lisboa. E é o desenho de luz na cabeça num dia de montagem num festival de teatro, também foi muito desafiante. Mas o pior de todos até hoje foi o “Quase normal”.

 

 

“Quase normal”, que ainda está em cena no Casino Estoril. Tive uma oportunidade de ver. Basicamente aquilo são dois palcos, um sobreposto ao outro. Como se consegue, porque as luzes e as cores têm um efeito nas pessoas, determinadas sensações? Como foi esse trabalho? Foi feito com o Henrique? Foi feito com os actores? Foram propostas tuas? Como foi a construção de toda aquela iluminação?

 

 

Aquilo …há três palcos. Uma zona avançada onde se passa as coisas como se fosse na rua ou num consultório. É um espaço que vai variando, e depois temos o interior das duas casas: rés-do-chão e primeiro andar. O Henrique quando me desafiou para isto propôs que eu visse a peça da Broadway. Eu não quis ver porque eu não gosto de seguir nada. Vimos algumas coisas ‘isto foi feito assim em Londres, na Alemanha, no Brasil, na Broadway. Tira as tuas ilações’. Mas pronto, o auditório é um espaço muito peculiar. Não tem pé direito, é complicadíssimo lá fazer iluminação. O Henrique pôs-me completamente à vontade. Eu fiz a criação por mim. Decidi tudo e só lhe mostrei o produto final, mesmo sem ele saber quais eram as minhas ideias. A única coisa que lhe tinha dito antes de mostrar o produto final foi ‘isto vai ter uma janela que a Broadway não tem’. Foi a única coisa que lhe disse. E os actores também dispensei porque não gosto de massacrar os actores de passarem lá a noite ou o final do dia. O que faço é: programo durante a noite e depois de estar tudo programado faço ligeiros acertos durante os ensaios, de luz e intensidade. Não gosto. Eles já têm um trabalho tão difícil que eu não gosto de estar a martiriza-los durante 2 ou 3 horas a fazer os testes.

 

 

Qual é que foi a reacção mais peculiar que tiveste por parte do público ao teu trabalho?

 

Já me tinha acontecido uma vez numa peça que foi o “Aniñando” no Teatro da Trindade, em que chegou uma senhora ao pé de mim e veio perguntar-me porque tinha colocado a saudade a cor-de-rosa?. Era uma ideia de ser feminista?…E eu disse não, é o que eu penso. Eu sinto que esta devia ter sido a cor. Eu não faço predefinições. O céu não tem que ser azul e pronto. Entretanto em Cabo-Verde, uma pessoa que ficou a assistir ao espectáculo, quis ficar a falar comigo sobre a geometria do meu trabalho e agora no “Quase normal” recebi críticas inesperadas de pessoas que não conheço ou mandam mensagens pelo Facebook, ou no final da peça vão ter comigo. Houve uma pessoa que foi ter comigo e marcou-me imenso. Era uma pessoa bastante conhecida no meio que viu o espectáculo na Broadway e que diz-me que está ao nível do espetáculo da Broadway. Isso deixou-me bastante satisfeito. Acho que foi ,neste momento, um dos maiores elogios que tive ao meu trabalho até hoje.

 paulo-santos-um-ano-sem-ti-artepertinace

 (Um Ano Sem Ti- Espaço Escola de Mulheres- Fotografia de Artepertinace-Nuno Silva)

 

 

Podemos revelar o nome da pessoa?

 

Vitor Pavão dos Santos.

 

 

Qual foi a critica que mais te fez crescer ao longo destes 24 anos?

 

A que mais me fez crescer?…[pensa] Acho que a seguir a um espectáculo do Broadway Baby em Faro, eu sou bastante inseguro em relação ao meu trabalho, nunca tive muita confiança por ai além. Faço um espectáculo em Faro onde o tempo de montagem foi curto e o Broadway Baby tem entre 160 a 170 efeitos de luz e tive de fazê-los todos manualmente, não tive tempo de programar. No final, o Duarte Nuno Vasconcellos agarra-se a mim a dizer que ‘eu passei o espectáculo todo a não ver o espectáculo para ver-te a operar com os dedos, operando 48 canais de luz e fiquei estupefacto com o teu trabalho”, e desde ai comecei a acreditar mais em mim, no meu trabalho e a evoluir como desenhador de luz.

 

 

 

Sentes que passas as tuas emoções sobre um determinado espectáculo através das luzes?

 

Completamente. Eu não sou capaz de fazer um espectáculo sem passar a minha emoção. Eu não faço o cliché do céu azul, a morte é vermelha. Não. O que eu estou a sentir é aquilo que eu faço e tenho uma faculdade, espero não a perder tão cedo, que é…eu vejo um ensaio e praticamente fico com a luz metida na cabeça. Pequenos acertos depois mas o desenho fica praticamente feito. E transmite toda a emoção que eu sinto. Se me dá para chorar, se me dá para sorrir. Transmite toda a emoção. Se eu vou ver um ensaio e não sinto emoção nenhuma no espectáculo, recuso fazer o trabalho. Não vale a pena porque não vou conseguir fazer um bom trabalho.

 paulo-santos-esta-vida-e-uma-cantiga-miguel-carrico

(Esta Vida é Uma Cantiga- Coliseu dos Recreios- Fotografia de Miguel Carriço) 

 

 

Qual é a sala mais desafiante para si? De todas as salas que já fez…e acredito que tenham sido muitas…

 

Todas elas são peculiares. Todas elas têm dificuldades. A mais difícil de todas foi a do Auditório do Casino Estoril. O material já está bastante usado, a mesa de luz dá problemas na programação. A sala não tem um pé direito, a sala tem poucas entradas laterais para pôr torres laterais ou seja, é um desafio constante fazer iluminação no Auditório do Casino Estoril.

 

 

 

Qual é a sala que ainda não pisou e é a sala dos seus sonhos? Pode ser nacional ou internacional.

 

 

Em termos de nunca ter pisado, uma Broadway, claro, é o sonho. Eu adoro musicais. Em Portugal a única sala em que eu ainda não fiz e um dia gostava de poder fazer é a sala principal, a sala Garret no Teatro Nacional D. Maria II. É a única sala em Lisboa que não fiz,  e no Porto não fiz o S. João mas são as únicas duas salas em que um dia gostava de poder trabalhar mas ainda não trabalhei. No resto já consegui trabalhar em todas elas. Falta-me também fazer um espectáculo no São Carlos.

 

 

O Theatro Circo já fizeste?

 

Já fiz.

 

 

É um desafio muito diferente dado a imponência da sala?

 

É. Adorei. Fiz lá 3 ou 4 trabalhos. Um antes das obras, um depois das obras… Já fiz a Sala Estúdio que agora está no piso -4. É uma sala lindíssima. Eu não criei lá. Fui lá repor coisas mas fazer uma criação lá deve ser simplesmente imponente. É um Teatro da Trindade em ponto grande e é uma imponência magistral trabalhar naquela sala.

 

 

O teatro é o teu porto de abrigo em termos de trabalho?

 

Completamente. Sinto-me realizado. É uma paixão. Amo o que faço e o teatro dá-me essa segurança, dá-me essa paixão. Sinto-me completamente realizado.

 

 

 

E a música? Um concerto?

 

 

Também gosto. Já fiz o Saffra, já fiz concertos com o Nuno Feist, O Melhor dos Musicais, e agora o da Simone, mas o teatro é outro tipo de criação. Tudo bem que eu não faço o cliché ‘toma luz a acender e a apagar’.  Também tento passar o meu cunho pessoal, fiz o “74.14” que  são 400 efeitos de luz, são muitas musicas, mas… A emoção e o amor pelo teatro é mais desafiante, mais verdadeira.

 

 

paulo-santos-saffra-artepertinace

 (Saffra- Concerto de FF- Auditório do Casino Estoril- Fotografia de Artepertinace- Nuno Silva)

 

 

No Saffra do FF. Eu vi esse espectáculo. Foi no Trindade se não me engano.

 

No Trindade não fiz. Fiz no Casino Estoril, fiz em Setúbal e mais um outro sítio que não me estou a lembrar.

 

 

O Saffra vai muito à música tradicional, existe um videoclipe do FF na planície. Como se consegue dar o efeito que é tradicional, das paisagens que ele coloca no videoclipe depois em termos de espectáculo? Como se estuda isto, como se sente isto?

 

 

O cenário do FF foi uma vantagem muito grande, que é a seara que está lá atrás. É lindíssimo. Eu nos espectáculos que fiz idealizei umas luzes laterais com várias tonalidades para ir mudando a cor da seara e conforme a música que ele estava a cantar, a interpretar, a gente tentamos transmitir o sentimento da música. Se for uma música alegre sobre o Alentejo, a gente dá-lhe um sol, um dourado em cima da seara. Se for uma música mais lenta, mais intimista, damos o azul para criar… O cenário por vezes facilita o trabalho do iluminador!

 

 

 

Qual é o artista me que ainda não “iluminou” e que gostava de o fazer, por ser um desafio ou até devido a gosto pessoal?

 

 

[Pensa] Em termos de música, acho que que adorava fazer Dulce Pontes. Em termos de teatro acho que já me passou quase todos eles pela mão mas gostava de iluminar uma peça onde conseguisse juntar o Ruy de Carvalho e o José Raposo. São os meus dois actores de eleição e, por outro lado, a Maria João Abreu e Lúcia Moniz como actrizes. Em termos de musicais estou garantido, tenho o Henrique Feist. Em termos de musical não há ninguém neste momento que o consiga ultrapassar em Portugal.

 

 

 

Ao longo destes 24 anos, em termos de condições de trabalho sentes que houve uma evolução ou uma regressão?

 

Há uma evolução.

 

 

Em termos de meios técnicos ou em termos de condições?

 

Nas duas. Em meios técnicos tem subido. Comecei a trabalhar com mesas completamente manuais. Cheguei a trabalhar em órgãos de facas, que era através do ligar ou desligar, um interruptor normal e neste momento temos tudo computadorizado mas eu prefiro, mesmo assim, fazer certas passagens à mão porque gosto muito de pôr o meu cunho pessoal nas coisas. Em termos do público, tem subido imenso porque nestes últimos anos tem havido crítica. As pessoas vão ver e não vêem só os actores. Já vêem a parte de cenários, já vêem o som, já vêem a luz. Já se queixam se não gostam. ‘Não gostei do som porque não ouvi isto ou não ouvi aquilo’. Essas pessoas antes iam ver e ouvir os actores e não viam mais nada. Neste momento eles sabem que existem uma data de pessoas que também merecem ser relembradas e merecem que se fale sobre elas.

 

 

 

Os recibos verdes continuam a ser um problema na vossa vida?

 

 

Completamente. Continua a ser a coisa mais ridícula e acho que o governo tem que pôr a mão rapidamente nisto. Não há ninguém que faça contratos com ninguém. As entidades patronais não conseguem porque não têm apoios para pagar um ordenado fixo e depois quando a gente vai a recibos verdes metade do ordenado vai-se embora e a gente não sabe como. A cultura devia ser apoiada. Um país sem cultura é um pais medíocre, é das piores coisas. O estado não apoia a cultura e acho que devia pensar nisso.

 paulo-santos-74-14-miguel-carrico

 (74.14- Coliseu dos Recreios- Fotografia de Miguel Carriço)

 

Entre as condições financeiras, que são más e o estado de alma que acaba por concretizá-lo ao fazer aquilo que gosta. Alguma vez pensou em desistir?

 

Já pensei uma vez em desistir. Tive muito perto de abandonar tudo. Entretanto apareceu uma pessoa na minha vida que me fez voltar a acreditar naquilo que faço, na minha paixão e desde ai com o apoio de várias pessoas, o Duarte apostou em mim, o Henrique apostou em mim, o Nuno apostou em mim e mais uma data de pessoas de outras companhias, voltei a ter o amor pela arte e deixei-me ficar mais um tempo a tentar sobreviver.

 

 

 

Já houve meses com mais prejuízo que lucro?

 

 

Sim.

 

 

Como é que se consegue aguentar essas fases?

 

 

Eu felizmente tenho o apoio da minha família. Principalmente do meu irmão com quem faço pequenos trabalhos juntos, especialmente de electricidade, quando não tenho trabalho dedico-me a isso e consigo sobreviver às fases más, às crises no teatro.

 

 

 

Se a sua vida fosse uma peça de teatro, que nome é que lhe daria?

 

[Pensa] A cor do sentimento.

 

 

Poderá acompanhar os trabalhos de Paulo Santos e verificar o seu percurso profissional através da sua página oficial de Facebook, tal como todas as fotografias que aqui reproduzimos na entrevista.

 

 

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

Rui Lavrador has 6769 posts and counting. See all posts by Rui Lavrador

Rui Lavrador

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.