Pedro Calado, em entrevista sobre o novo disco, revela presença na Feira de São João, em Évora

Crédito: Joaquim Carrapato

“O Cante do Fado” é o mais recente disco do cantador e fadista Pedro Calado, sendo o Cante e o Fado a linha condutora de um dos trabalhos mais verdadeiros que o mercado nacional teve nos últimos tempos. Em entrevista ao Infocul, Pedro Calado aborda este disco, o Fado, o Cante, o seu percurso, a gastronomia alentejana, os próximos espectáculos, o nascimento da filha e ainda os conselhos que deixa aos mais novos.

Pedro Calado é, sem favor nenhum, dos mais genuínos cantador e fadista da actualidade e essa capacidade emocional interpretativa que vai conquistando quem o ouve. Um caso em que a qualidade ultrapassa, infelizmente, em larga escala o mediatismo.

“O Cante do Fado” conta com 11 faixas, numa produção de Carlos Leitão. Entre os autores conta com José Gonçalez, Carlos Leitão, Abilio Morais, Rosa Lobato de Faria, Carlos Conde, Vasco Lima Couto, José Lopes Gato e ainda cancioneiro tradicional alentejano. Nos compositores destacam-se Custódio Castelo, Amadeu Rami, Pedro Rodrigues entre outros.

Neste disco contou com Carlos Leitão (guitarra clássica), Carlos Menezes (baixo e contrabaixo), Henrique Leitão (guitarra portuguesa). Conta ainda com a participação do Grupo Coral e Etnográfico ‘Cantares de Évora’.

Uma entrevista, integralmente reproduzida, na qual poderá ficar a conhecer melhor o cantador, fadista e cidadão Pedro Calado.

Quando é que começaste a pensar neste disco?

Este disco nasceu na sequência de ter vencido o Grande prémio Nacional de Fado RTP/Rádio Amália em 2012, depois seguiu-se um caminho difícil com vários contratempos mas com a boa vontade dos músicos e de alguns amigos conseguimos finalmente fazer sair este “Cante do Fado”.

A escolha de Carlos Leitão para produtor foi uma ideia desde inicio?

O nome do Carlos Leitão para produtor do disco foi sempre a minha primeira opção pois ele já tinha produzido o meu primeiro disco, a sua sensibilidade enquanto músico, fadista e letrista é notável e como me conhece bem, consegue tirar tudo o que tenho cá dentro, ao mesmo tempo me dá a liberdade de ser eu.

Qual a grande marca dele enquanto produtor neste disco?

A sua grande marca enquanto produtor deste disco é mesmo a genialidade e seriedade com que encarou este desafio, conseguiu puxar o meu lado fadista sem nunca me deixar perder a essência que advém do Cante Alentejano e que tão presente está no meu dia a dia, daí também o nome do disco ser “O Cante do Fado”.

Como foi a escolha de repertório? Fácil ou difícil?

A escolha do repertório nasceu num jantar em Alfama com o Carlos Leitão e o José Gonçalez, que me tinham pedido para fazer uma listagem de temas que gostasse de gravar, depois de analisarem só 3 temas dos que tinha escolhido é que seguiram para a lista final, pois tive o privilégio de entre os dois me oferecerem temas seus originais o que muito me honrou e enriqueceu este disco.

‘Fado do Sobreiro’ abre o disco. É uma homenagem ao João Braza ou ao Alentejo?

O ‘Fado do Sobreiro’ abre o disco, porque foi o primeiro tema que cantei à capela para os meus amigos, por isso o começo e termino dessa forma. Ouvi este tema a muitos Fadistas Alentejanos mas foi sem dúvida o João Braza que o popularizou e que fez com que ainda nos dias de hoje seja cantado por muita gente desta nova geração, quando o canto sinto que de algum modo homenageio todos os Fadistas Alentejanos.

Contas com 4 poemas escritos por Carlos Leitão neste disco. O que mais distingue a escrita dele?

A escrita do Carlos distingue-se por ser verdadeira, ele tem a capacidade de nos levar para vivências que mesmo não tendo passado por elas, parecem-nos muito familiares e por vezes reais, isso torna mais fácil o meu papel de intérprete.

‘Não dá o que nunca deu’ de José Gonçalez é dos temas mais bonitos. Era importante teres uma letra dele neste disco? Como surgiu esta possibilidade?

O José Gonçalez quando nos juntámos para ver o repertório, disse-me que tinha uns temas para me oferecer, caso quisesse, quando analisei percebi que este tema tinha de fazer parte do CD, além do poema ser lindíssimo encaixa na perfeição na música do Fado Santa Luzia, é essa a magia dos fados tradicionais.

O ‘teu’ Grupo Cantares de Évora participa no tema ‘Alentejo Alentejo’. Era quase obrigatório tendo em conta a importância que tem no teu percurso?

A participação do Grupo Cantares de Évora era quase obrigatória, pois é com eles que partilho os palcos há vinte anos, e quando pensei no disco tinha de ter uma Moda Alentejana e a presença deles era indispensável.

Custódio Castelo participa neste disco. Qual a história mais curiosa que tens com aquele que muitos consideram como um dos génios da guitarra portuguesa?

O Custódio Castelo há uns anos atrás fez um tema lindíssimo “Sol do Monte” , no qual tive o prazer de participar com outras grandes vozes do Cante, como o Buba Espinho, David Pereira, Hugo Baletas, Manuel Caldeira, etc… Quando ele soube que eu estava a gravar veio ter comigo e disse-me que queria participar no disco, e assim foi. Gravou três temas, um dos quais o Santa Luzia e o Fado Bailado onde interveio directamente na forma como interpretei o poema. É sem duvida um ser humano extraordinário e com um coração do tamanho do Enorme talento que têm.

O teu percurso tem o Cante e o Fado como guias. Qual o amor que nasceu primeiro?

O Cante e o Fado caminham em paralelo na minha vida, sendo dois géneros musicais muito diferentes mas muito idênticos, pois vivem de palavra e de verdade, sendo que o Cante ganha mais expressão na agrura do trabalho do campo e daí surgiram muitas “Modas” que ainda hoje fazem parte integrante do Cancioneiro. O Cante surgiu mais cedo na minha vida, pois comecei a ouvi-lo ainda muito novo, quando ia de férias para casa dos meus avós paternos na Vila de Alcáçovas, e aí ouvia as senhoras ainda de noite a cantarem enquanto se deslocavam para o trabalho e foi esse colorido sonoro que me ficou no ouvido e me fez apaixonar pelo Cante, daí ter sido o meu primeiro Amor.

Como foste vendo a evolução e aceitação por parte do público relativamente a estes dois géneros que em tempos eram ‘mal vistos’?

Tem sido interessante ver como estes dois géneros musicais vêm ganhando espaço e se afirmam cada vez mais. O Fado teve sempre mais valorizado pois é a canção de Lisboa e assim sendo teve sempre mais oportunidade de se mostrar ao Mundo, teve intérpretes geniais que souberam elevá-lo ao mais alto nível cantando-o nos grandes palcos do Mundo e daí a evolução ter sido mais rápida, o Cante sendo do interior do país, como tudo infelizmente, nunca teve essa montra, hoje em dia é diferente, o Cante é ouvido em muitos lados do mundo, mas por aqueles que se têm primado pelo rigor e pela qualidade, nem todos os grupos corais têm qualidade para se apresentar em palco. A elevação a Património Imaterial da Humanidade trouxe para a rua gente nova e isso dá garantias de continuidade quer no Cante quer no Fado que tão bem representam o nosso País.

Encheste o Garcia de Resende na apresentação deste disco. O que significou teres tido casa cheia na tua cidade?

Para mim como Eborense foi sem dúvida um dia muito importante, encher o Teatro Garcia de Resende com a minha gente, com pessoas que gostam de mim, é algo que me enche de orgulho, e depois ter percebido que gostaram muito do espectáculo e do meu “ Cante do Fado” dá-me alento para continuar este meu caminho sempre com o Fado e o Cante como o meu porto de abrigo.

Anunciaste nesse espectáculo a ida do Grupo Cantares de Évora a Macau. Será quando e em que celebração?

É verdade, de 1 a 5 de Julho o Grupo irá participar, a convite do Senhor Embaixador da China em Portugal, num Festival Internacional de Coros, não em Macau mas sim em Huhehaote na zona da Mongólia Interior, é sem dúvida um orgulho muito grande ir representar a nossa cidade e acima de tudo o nosso país.

Este disco, onde podem as pessoas encontrá-lo e adquirir?

O disco ainda não está disponível nas lojas, nem sei se irá estar pois como é uma edição de autor não é fácil arranjar quem queira fazer a distribuição, mas estou a tentar e espero que consiga arranjar apoio para divulgar ao máximo este meu trabalho, mas quem quiser adquirir pode sempre contactar comigo através das redes sociais que eu com muito prazer o farei chegar.

Em termos de espectáculos tens já algo que possas ou queiras anunciar?

Sim posso anunciar que vou estar na Festa da primavera no Montijo a convite da Rádio Amália e vou estar pela primeira vez no palco principal da Feira de São João em Évora no dia 28 de Junho para um Grande Espectáculo onde irei trazer os temas que me têm acompanhado nestes 20 anos e obviamente mostrar a quem não teve oportunidade o meu “Cante do Fado”.

Onde poderão as pessoas interagir contigo?

O mais fácil é através das redes sociais, nomeadamente o Facebook onde falo com muita gente e divulgo aquilo que vou fazendo.

Teres sido pai moldou algo em ti enquanto artista?

Ser Pai é o Dom da vida, o nascimento da minha filha veio preencher um espaço que há muito estava vazio, deu-me o alento que precisava para continuar este caminho em que acredito. A maneira como hoje abordo os Poemas é completamente diferente, as palavras fazem-me mais sentido e levam-me a interpretar os temas com uma força interior muito maior.

Sendo tu alentejano, o que não pode faltar numa mesa do Alentejo tendo em conta a sua vasta e qualitativa gastronomia?

(risos) Sou suspeito até porque o meu corpo me denuncia rapidamente, eu sou um fã da cozinha tradicional Alentejana, adoro as açordas, as migas, a carne de porco preto grelhada, os queijos e enchidos, os doces, e claro todas estas iguarias acompanhadas por um bom vinho tinto. Mas numa mesa do Alentejo nunca pode faltar o Pão, azeitonas e vinho, é fundamental para qualquer Alentejano receber os amigos.

Qual a mensagem que deixas aos miúdos que agora se iniciam no Fado e no Cante?

A mensagem que deixo a quem se inicia quer no Cante quer no Fado é que sejam genuínos e que criem uma identidade própria, à rapaziada do Cante que aprendam com os mais velhos as Modas das vossas terras e as cantem dessa mesma forma para que o Cante não seja cantado de igual forma em todo o lado, que se mantenha essa diferença de interpretar pois foi isso que levou a Unesco a elevar o Cante a Património Imaterial da Humanidade.

Qual a mensagem que deixas aos leitores do Infocul?

Aos leitores da Infocul quero deixar um abraço e que se quiserem este “ Cante do Fado” que me contactem ou contactem amigos meus que de uma forma ou de outra vos farei chegar o CD. A ti Rui Lavrador resta-me agradecer te a oportunidade de promover este meu trabalho mas acima de tudo elogiar o trabalho que fazes em prol da nossa Cultura. Um Grande Abraço!

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