Duro, instrospectivo, real e cruel. É assim “Raiva”, de Sérgio Tréfaut, um filme baseado no livro “Seara do Vento”, da autoria de Manuel da Fonseca.

 

 

10:30 numa manhã de segunda-feira. Um visionamento para imprensa. Podia ser apenas mais um filme. Mas é o ensinamento, demonstrado de forma nua e crua, que só o amor nos pode salvar. Após ver este filme, passei um dia inteiro a pensar no quão corajoso tem sido o povo alentejano. No quanto estas gentes, a minha assumida gente, já lutaram e mesmo assim o reconhecimento peca por ser pouco. Mas já lá iremos.

 

 

O filme, rodado no Alentejo profundo, remete-nos para uma ideia, logo de inicio, como nada pode ser tanto e como o tanto que temos podemos considerar nada. Campos desertos, pessoas que vivem num clima violento e passam fome, uma criança que numa expressão corporal fantástica nos mostra que um simples pão pode ser o nosso melhor presente…e dois mortos a sangue frio. Tudo isto nos momentos iniciais e está captada a atenção do espectador.

 

 

Retratando a década de 50, ano de 1950, mostra-nos um camponês, brilhantemente interpretado por Hugo Bentes, que vive numa pobreza extrema, tal como o seu pai viveu. A narrativa começa pelo término da história e promove uma analepse para enquadrar o espectador nos reais motivos que levaram este camponês a matar dois homens a sangue frio e que de seguida luta sozinho contra a guarda e o respectivo exército. O resultado é o expectável…

 

 

O pai de Palma, personagem interpretado por Hugo Bentes, suicidou-se por ser pobre e por dever dinheiro aos ricos e saber que jamais o conseguiria pagar. Palma luta para sustentar a família e após ser despedido pelo homem mais rico da vila, entra no contrabando de modo a ter dinheiro para sustentar a família. Vive com a sua mulher, os dois filhos e a sogra. Uma família que não sendo exemplar, ama-se. Não nas palavras, mas nos gestos, nos olhares e nos afectos. Mas a luta entre ricos e pobres tem vencedor antecipado, promove a morte de quem nada tem e subjuga a classe humana a uma peça de xadrez. A mulher de Palma acaba por se suicidar após uma denuncia feita contra o marido e na qual ela acaba por ser ludibriada durante o interrogatório levando-a a entregar e confessar que o marido está no contrabando…

 

 

Tréfaut consegue neste filme abordar várias temáticas interessantes como os valores e ideais humanos, o suborno e falta de honestidade das forças policiais e jurídicas, o papel da mulher enquanto ser subjugado à soberania do homem, o olhar diferente perante a deficiência entre tantos outros temas. Uma abordagem feita, maioritariamente, de forma fria e cruel. Provavelmente a melhor forma de nos deixar a pensar na questão: O que realmente importa na vida? O que demonstramos ou o que somos? O que os outros pensam ou o que nós sentimos?

 

 

O filme conta no elenco com Isabel Ruth, Leonor Silveira, Luís Miguel Cintra, José Pinto, Adriano Luz, Kaio Cesar, Diogo Dória, Catarina Wallenstein e Rogério Samora, destacando-se as participações especiais de Sergi López, no papel do contrabandista, e de Herman José, no papel de padre (num dos momentos em que rir é o único remédio e atenua a dor constante na restante narrativa). Destaque ainda para a participação de Lia Gama, num papel que serve de homenagem a Nicolau Breyner, que integrava o elenco original do filme, mas que acabaria por falecer na véspera das filmagens.

 

 

O filme é protagonizado por um não-ator, Hugo Bentes, natural de Serpa, escolhido pela proximidade que tem com a história, com a região. Se algo de bom pode ser dito sobre a sua performance, e muito pode ser dito e escrito, talvez o que fique é mesmo a verdade que transmite em todos os momentos. Hugo Bentes foi jogador de futebol, tem preparação militar, é músico e faz parte de grupos corais alentejanos. Participou como cantor no documentário “Alentejo, Alentejo”, também a autoria de Sérgio Tréfaut.

 

 

Todo o filme é a preto e branco. A restante paleta de cores cabe-nos a nós produzir. Bastará para isso que em conjunto consigamos fazer do Alentejo uma constante lembrança na nossa vida, ao contrário de um crónico esquecimento a que aquelas gentes têm sido subjugadas. Porque se há povo que fez do sofrimento e da luta, o caminho para a valorização de uma região, foi o povo alentejano. Que a pobreza que o filme transmite possa servir para valorizar a riqueza que temos em ter o Alentejo connosco.

 

 

O filme conta ainda com momentos em que o Cante nos aperta a alma…permitindo assim que a vida seja um bem de inestimável valor e sobre o qual ninguém deva brincar.

 

 

A estreia nas salas nacionais acontece a 31 de Outubro.

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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