Rancho de Cantadores da Aldeia Nova de São Bento: “Este é um disco de ouro de todo o Alentejo”

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A magia não tem que ser necessariamente proporcionada por um mágico, até porque a sua arte é mais ilusão que magia. Em Serpa, no fim-de-semana passado, aconteceu magia, um encontro entre a Andaluzia e o Alentejo, o Flamenco e o Cante, por ocasião do Festival Terras sem Sombra.

 

 

O Cante teve como intérprete o Rancho de Cantadores da Aldeia Nova de São Bento, que foi recentemente galardoado com “Disco de Ouro” por vendas superiores a 7500 exemplares de um trabalho em que contaram com a participação de Pedro Metre, Luisa Sobral, António Zambujo ou Jorge Benvinda.

 

 

No Festival Terras sem Sombra foram convidados da cantaora de flamenco, Esperanza Fernández, tendo interpretado as modas “Limoeiro”, “Pomba Branca”, “O meu Chapéu” ou “Dá-me uma gotinha de água”. Serpa aplaudi-os de pé.

 

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O Infocul falou com António Silva, em representação do Rancho, que nos começou por dizer que “Para nós…Para já, ao longo destes muitos anos temos colaborado também com toda a organização do Festival Terras Sem Sombra. Isto já vem dos anos 90, em que colaboramos também com o Dr. José António Falcão. A nossa participação é sempre um prazer. Para além de, penso eu, também ganharmos com isso. É uma possibilidade que temos também a nível do Festival Terras Sem Sombra mas para nós é também um prazer trabalhar com o Terras Sem Sombra. O Terras Sem Sombra leva o cante alentejano pelo mundo fora porque apesar de estarmos a fazer o Terras Sem Sombra na zona do Alentejo e na zona aqui raiana de Espanha, a visibilidade torna-se internacional quer nós queiramos quer não. A visibilidade do Terras Sem Sombra passando a fronteira de Espanha passa também as outras fronteiras” quando questionado sobre a importância de participar neste festival de música sacra/erudita.

 

 

Sobre o Terras sem Sombra disse ainda que “para nós é sempre um prazer colaborar com esta organização. É uma organização reforçada. É uma organização com interesse para o país, para a região. Não olha a meios para atingir os fins, no bom sentido”.

 

 

O nosso disco de ouro, nós nunca queremos particularizar isso. O nosso disco de ouro penso que é um trabalho feito ao longo dos anos. Não é feito por este Rancho de Cantadores da Aldeia Nova de São bento. É um trabalho feito pelo Rancho de Cantadores da Aldeia Nova de São Bento mas por todos os que passaram pela Aldeia Nova de São bento, por todas as gerações que por aqui passaram, por pessoas que estão vivas ou que já faleceram e tiveram sempre presentes no cante alentejano através do Rancho de Cantadores da Aldeia Nova de São Bento. Para mim este disco de ouro é um disco de ouro do Alentejo e do cante alentejano. Este disco de ouro podemos também agradece-lo um pouco ao Terras Sem Sombra porque o Terras Sem Sombra tem feito um pouco a divulgação daquilo que é o cante alentejano e é um disco do Alentejo para o Mundo e é isso que nós queremos que seja. Já temos o disco também em vários países do mundo e os próprios emigrantes já o levaram para lá, a própria Universal também já o fez chegar a alguns países, já está nos Açores também, já está na Madeira… Enfim…Eu penso que este trabalho é um trabalho do Alentejo para todo o mundo. De todos os cantadores do Alentejo, não é só nosso e é uma coisa interessante saber que toda a gente fica admirada com isto, como um rancho de Ccntadores tem um disco de ouro. Esperemos chegar à platina. Nós somos muito ambiciosos nisso. Esperamos chegar à platina e espero que seja brevemente que isso aconteça e essa platina não é um prémio só para nos, é um prémio um bocado para o Alentejo pois fala-se no cante alentejano. Ao fim ao Cabo é isso. O nosso sentimento não é só nosso. Nós estamos em palco e precisamos das gravações mas temos muita gente à nossa volta. Temos, por exemplo, uns técnicos excelentes, um director musical excelente, um engenheiro de som excelente, tivemos agora o apoio da Universal que foi excelente e depois temos uns amigos do nosso coração. O Jorge Benvinda ou o Miguel Araújo e o António Zambujo deram uma ajuda muito grande a este disco. Este disco, embora nos cantemos algumas canções, neste disco, que são da autoria da Luísa, da autoria do Miguel mas nunca perdemos a matriz. O cante alentejano está sempre presente mesmo nesta canções. As nossas são modas, as deles são canções. Nós nestes trabalhos deles tivemos lá mas sempre com um registo alentejano e é importante que isso se mantenha. Saber manter a estrutura do cante alentejano embora nós chegamos sempre onde quer que os outros queiram que nós cheguemos, ou seja, nós estamos a vontade para cantar com qualquer músico” refere-nos sobre a conquista do Disco de Ouro e já de olho na Platina.

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Temos trabalhos também feitos já com a Ronda dos Quatro Caminhos. Temos já muitos trabalhos feitos com cantores e cantautores de músicas quer em palco quer em edições especiais. Para nós…Como eu disse há um bocado, nós somos amadores. Nos palcos, nas relações temos que nos transcender um bocadinho. temos que chegar um bocadinho mais longe temos que saber estar  em palco e manter a nossa posição e dignificar o cante. Cantar bem e levar o nome do Alentejo mais longe. Mas é isso que nós somos com muito trabalho e com muito valor das nossas famílias pois as nossas mulheres têm tanto amor como nós porque  nós estamos fora, nós estamos afastados das nossas famílias por causa dos ensaios, da escolha das composições, dos espectáculos, das gravações… Há momentos que devia ser da família e estamos a fazer alguma coisa. Portanto, elas as famílias, as mulheres têm uma palavra muito importante neste trabalho”, remata.

 

 

Criado há 30 anos, o Rancho dos Cantadores de Aldeia Nova de São Bento, é herdeiro de uma longa tradição da arte de bem cantar as belas modas do cancioneiro alentejano. Orgulhosos por seguirem dois princípios orientadores, que apesar de opostos se complementam: o da tradição e o da inovação.

 

O Rancho é, na opinião de David Monge da Silva, “herdeiro de uma longa tradição da arte de bem cantar que sempre foi apanágio da sua vila, de há muito reconhecida na região como uma “terra de bons cantadores”, num texto incluído na bula do disco.

 

 

Acrescenta ainda que “são continuadores de uma antiga tradição que teria surgido na agricultura, quando grupos de homens e mulheres, trabalhando de sol a sol, humanizavam a sua faina entoando, em conjunto, as belas modas do cancioneiro alentejano”.

 

 

O Terras sem Sombra, que vai na sua 13ª edição, tem efectuado um trabalho meritório e reconhecido por todos na divulgação do Património Edificado do Baixo Alentejo bem como na preservação da biodiversidade além de presentear o Alentejo com concertos que de outra forma seriam de difícil acesso ao público.

 

 

Este ano foi galardoado com o selo EFFE (Europe Festivals – Festivals de l’Europe) para 2017-2018. Esta prestigiosa marca, criada pela European Festivals Association (EFA) por iniciativa da Comissão Europeia, distingue os festivais que se destacam, no espaço comunitário, pela excelência da programação, pelo carácter inovador e pela criação de novos públicos. É considerado o mais importante “label” do sector, só outorgado, de acordo com a EFA, a um “núcleo cimeiro” de projectos artísticos.

 

Fotografias: Ana Silva e João de Sousa

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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