Na Calçada da Ajuda, ao lado do Picadeiro Real, está o Real Fado, uma Casa de Fado, com gestão de Pedro Guerra (o mesmo proprietário das casas de fado ‘Páteo de Alfama’ e ‘Fado em Si’), que abriu em Março.

Localizado numa zona tranquila e de fácil acesso, o espaço aproveita, com bom gosto e elegância, as antigas dependências do Palácio de Belém, tendo em conta que neste espaço localizavam-se as cocheiras, antes do palácio ter sido adquirido aos Condes de Aveiras, pela coroa portuguesa.

Na passada quinta-feira, aquando da nossa reportagem, o elenco foi constituído por Gonçalo Salgueiro (que aqui actua à quinta-feira e ao sábado), Teresa Tapadas e Catarina Candeias, acompanhadas por José Geadas (guitarra portuguesa) e José Elmiro Nunes (viola de fado).

“Por princípio e porque queremos ter clientela portuguesa, temos muito cuidado tornar acessível”

 

Pedro Guerra, o proprietário do espaço, começou por nos confessar que o Real Fado tem estado “acima das expectativas, ou seja, não é a nossa primeira casa de fados e portanto eu sabia que as casas têm um tempo para se afirmarem, é necessário haver alguma divulgação, um conhecimento público e sobretudo passar a palavra em como as coisas correm bem. Graças a umas muito boas referências que os clientes, que cá têm vindo, têm publicado na internet, graças ao elenco que está cá, à equipa de sala e cozinha, as referências têm sido muito boas e isso tem feito com que a afluência tenha sido superior à esperada”.

Sobre o elenco que ali actua a cada dia da semana, explica que “é complicado dizer os dias e dizer o elenco, porque todo o nosso elenco, felizmente, tem qualidade para não ter só trabalho em casa de fados, faz muito trabalhos, etc, e portanto quem está em que dia está dependente muito dos espectáculos que têm”.

Acrescentando, contudo, que “a base do elenco são todos muito bons fadistas, alguns muito conhecidos, como o Gonçalo Salgueiro, a Teresa Tapadas, a Sara Correia e outros menos conhecidos mas com grande potencialidade, mas são sempre grandes fadistas e é essa uma das razões do sucesso”.

Sobre a parte arquitectónica e a majestosidade da casa, recorda que “foram cavalariças do Palácio de Belém, ainda no tempo em que era o Palácio dos Condes de Aveiras, depois quando foi vendido à coroa esta parte foi desanexada e entretanto passou por muitas coisas pelo meio, e nós tivemos que ir tacteando para encontrar o que havia dos vestígios originais para recuperar. Por exemplo, hoje tem laje de pedra no chão, mas nós tínhamos quase 4 tipos de piso em cima uns dos outros e foi preciso imaginar que estaria laje pelo tipo de construção, fazer sondagens, procurar encontrar a laje, ver o estado em que a laje estava e tirar camionetas e camionetas de entulho”, além de “picar isto tudo, limpar a pedra e recuperar. Os arcos pombalinos estavam tapados por paredes falsas, os tectos que eram originalmente pintados, já não existia quase vestígios, foi mesmo recuperar na integra e recuperar com base nas que existiam. Houve um trabalho muito grande de recuperação, mas conseguimos fazê-lo”.

Todo este processo demorou algum tempo menor do que o previsto, pois “a trabalhar mais ou menos 24 horas por dia, foram três meses, ou seja, isto era uma obra para durar um ano, mas eu tenho uma equipa de empreiteiros que trabalha comigo há alguns anos que sabe que quando eu começo algo, tenho que rentabilizar rapidamente e tenho que imediatamente começar a trabalhar e o fado tem ciclo, o turismo começa em Março e acaba em Novembro e no meio é residual. Portanto nós tínhamos que começar em Março e tínhamos acordos já com algumas agências para coisas que estavam marcadas para Março e tinha mesmo que começar e só tivemos as licenças três meses antes”.

Todo este trabalho levou a que fossem feitas algumas transformações, recuperando elementos e dando a conhecer o esplendor de época, a riqueza dos Condes de Aveiras, e do período do apogeu proveniente da época heróica das descobertas lusas.

Pedro Guerra, em conversa com o Infocul, destacou ainda o trabalho com as agências de viagem, destacando também os clientes português que vão tomando conhecimento com o espaço através das várias aplicações digitais e com base na opinião, ali expressa, de quem visita o espaço.

Sobre os preços praticados, explicou que “o acessível é muito relativo. As casas de fado são sempre mais caras que um restaurante normal, basicamente porque trabalham à noite e portanto em vez de dividirem os custos fixos pelos duas refeições dividem só por uma, enquanto num restaurante existe uma rotação de mesas, mesmo numa só refeição podem circular duas ou três vezes e portanto os custos são divididos por vários clientes. Na casa de fados isso não acontece. Agora nós por princípio e porque queremos ter clientela portuguesa, temos muito cuidado tornar acessível, dentro do que se pode chamar acessível. Sendo claro, o custo de realização de um jantar aqui são 65 euros, o que nós chamamos um menu turístico (Escolha livre na carta, desde que a pessoa coma uma entrada, um prato e uma sobremesa, seja o que escolher na carta é sempre mais barato do que escolhendo individualmente). 65 euros é caro? Não é qualquer pessoa que vem todos os dias, é verdade. Mas também existem muitas casas em que se paga isso, sem espectáculo, sem artistas, sem nada. Digamos que é moderadamente caro”.

Sobre a opinião dos clientes e a forma como as pessoas podem fazer reserva, informou que podem fazer através do “site, plataformas usuais de reservas, tem sido basicamente através de plataformas, porque através de plataformas as pessoas podem verificar o que quem esteve antes comentou”.

Quando questionado se já tinha experimentado aqui, no Real Fado, alguma situação caricata, disse que “ainda não vivi muitas situações caricatas para dizer a verdade, já tive, mas aqui ainda não tive daquelas flagrantes, talvez o mais caricato sejam algumas fãs do Gonçalo virem carregadas de flores, querem dar beijinhos e trazerem quase a discografia toda para ele assinar, mas ainda não houve assim nenhuma situação caricata, é muito carinho dos clientes especialmente pelos grandes artistas”.

“A situação mais caricata que eu passei aqui foi ver um grupo de 40 japoneses a cantarem o Coimbra”

 

Quem também conversou com o Infocul foi o fadista Gonçalo Salgueiro. Celebrando, em 2019, 20 anos de carreira, Gonçalo Salgueiro conta com uma carreira construída por muitos dos maiores palcos europeus, e abrangendo áreas desde a música ao teatro.

Sobre o convite para integrar o elenco do Real Fado, explicou que “estreei-me aqui em Abril, foi um convite que me foi feito pelo Pedro Guerra, que é um grande amigo há muitos anos, e que já tinha falado comigo sobre esta possibilidade”, contudo “até aqui a minha disponibilidade era nenhuma e como eu eu após a morte da minha mãe decidi parar um pouco, diminuir um bocadinho o ritmo, não estando também no teatro”, sendo que “devido a receber quase diariamente perguntas nas minhas redes sociais, onde me podiam ouvir, porque é que eu não estou em nenhum lado a cantar, e eu comecei a pensar e também alguns amigos me deram essa sugestão, e depois de visitar duas ou três vezes, porque eu visitei a casa ainda estava em obras, achei a casa giríssima, num local onde não há grande confusão, sou uma pessoa recatada, tenho todo um andar de cima para estar muito à vontade, é uma casa lindíssima, o pessoal da casa é extraordinária, os colegas que aqui cantam são óptimos e a proposta que o Pedro me fez foi praticamente irrecusável e portanto eu vim…

Recordou que “comecei numa casa de fados, no Clube de Fado, Alfama, em 1999” e que “apesar das circunstâncias serem diferentes, a mim assusta-me muito mais a casa de fados do que algumas mil pessoas à minha frente, o palco é um local muito solitário, onde eu me sinto bem, e na casa de fado as pessoas estão praticamente em cima de nós, é tudo muito imediato, a reacção é muito imediata, tudo aquilo que nós damos é muito imediato, de uma forma muito mais intensa onde não há se quer lugar nem margem para erro, porque não há microfones para disfarçar, ou subterfúgios a que nós nos possamos socorrer quando estamos em cima do palco ou em teatro”.

Destacou ainda que “por eu ter andado 20 anos a fazer tantas outras coisas, chegou uma altura, e depois de ouvir algumas pessoas que eu respeito falarem comigo e dizerem que havia realmente essa vontade da parte das pessoas que eu o fizesse, eu próprio senti essa necessidade de voltar à base, de reaprender um bocadinho o tradicional, mas estando aqui com 100 pessoas, ou estando com mil eu dou sempre o mesmo, sou sempre a mesma pessoa, dou sempre exatamente na mesma medida, não coíbo de ser eu, não me coíbo de dar aquilo que tenho para dar às pessoas só porque o palco é outro e ás vezes acho que é isso que falta. E eu já disse muitas vezes, eu adoro ser público e quando eu vou às casas de fados eu gosto de ver o mesmo que gosto de ver quando vou a um palco seja ele que tipo de música for, que os interpretes deixem o seu suor, a sua alma, deixem tudo ali para as pessoas, porque as pessoas estão a pagar exatamente para sentir e o fado tem essa magia quando é bem executado, o fado é um grande exorcismo, o fado é um grande exercício de introspecção e que bem feito é extremamente recompensador para quem o faz e para quem o escuta”.

Gonçalo Salgueiro explicou ainda que “a nossa performance numa casa de fado vai sempre ao encontro do público que temos, de uma forma mais imediata que no palco onde nós não vemos as pessoas. Quando nós estamos aqui, sentimos imediatamente o calor, a lágrima da pessoa que chora quando nos ouve cantar, os aplausos, é tudo muito em cima, nós conseguimos ver a face de toda a gente. À medida que isso acontece vai moldando também a nossa performance e a nossa entrega e quando o público que nos vem ouvir é fadista, o que acontece é mágico”.

Desde que canta no Real Fado, Gonçalo Salgueiro destaca que “a situação mais caricata que eu passei aqui foi ver um grupo de 40 japoneses a cantarem o Coimbra, em português, comigo e eu às tantas deixei de cantar e fiquei ‘ahmm?!’, isto é extraordinário porque permite-nos mais uma vez ver o poder de uma senhora chamada Amália Rodrigues, que mesmo 20 anos depois de morta, não morre nunca, é imortal, e ela conseguiu realmente transcender fronteiras, espíritos, línguas”. Falou ainda sobre a“generosidade das pessoas que gostam de mim e que sabem que eu gosto de flores, chocolates e mel, e que trazem os CD’s para eu autografar exactamente porque têm um acesso um bocadinho mais próximo”.

 

 

 

 

Os momentos que antecedem e sucedem a actuação de cada um são divertidos porque estamos em franca camaradagem”

 

Teresa Tapadas (que normalmente aqui actua às quartas e quintas) destacou um momento antes de cantar, “sempre que se põe o xaile nas costas, há quem diga que a minha postura muda, se calhar é aí que o clique se dá e há que agradar”.

Disse-nos que “nesta coisa das artes, nunca se consegue agradar a toda a gente. Mas tentamos! Claro que quando se sobe a um palco a postura é diferente, há todo um sistema de som, de luzes e uma performance que acaba por ser diferente de quando se está numa casa de fados”.

Numa casa de fado, “nunca deixando de existir um máximo respeito pelo público, provavelmente existe uma proximidade maior e mais imediata, o que nem sempre é fácil. Porque por vezes cantar para 10 pessoas pode ser mais intimidante do que cantar para mil, porque estão lá mais longe e não trocamos olhares directos”.

Destacou que “aqui sente-se quase a pulsação, pessoa a pessoa. Consegue-se perceber que uma pessoa gostou mais de um fado mais triste, a outra de um mais alegre. Depois é engraçado porque ao longo do tempo vamos percebendo que tipo de público temos. Por exemplo, no segundo fado percebi que tinha um público a sério, que gosta de fado e que vinha para o ouvir. Não era um público que vinha a Lisboa e vinha ouvir Fado porque é muito bom e é Património Imaterial da Humanidade”.

Sobre o Real Fado, disse-nos que “este grupo tem três casas de fado e eu já cantava no Páteo de Alfama e no Fado em Si, o Dr Pedro falou-me de eu vir para cá e eu disse ‘vamos lá’. É um desafio, ainda para mais à quinta-feira, com o Gonçalo Salgueiro, que além de ser um querido amigo é um fadista enorme”.

Sobre se é estimulante ou uma responsabilidade compartir elenco com Gonçalo Salgueiro disse que “é estimulante e é uma paródia, no bom sentido. Os momentos que antecedem e sucedem a actuação de cada um são divertidos porque estamos em franca camaradagem e conseguimos, aqui, ter aquele ambiente que toda a gente fala das casas de fado, mas o bom, em que as pessoas são amigas e companheiras”.

Real Fado

Facebook   Site    Morada: Calçada da Ajuda 28 1300-014 Lisboa    Telefone: +351218822174
Email : booking@realfado.com

Destacar ainda que integram o elenco desta casa de fado artistas como Jorge Baptista da Silva, Maria Mendes, entre outros.

Texto: Rui Lavrador
Fotografias: João de Sousa

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

Rui Lavrador has 6331 posts and counting. See all posts by Rui Lavrador

Rui Lavrador

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.