Rogério Charraz: “Não quero trabalhar para públicos específicos, quero trabalhar para toda a gente”

 

 

 

‘4.0’ é o mais recente disco de Rogério Charraz, gravado ao vivo no Cinema São Jorge, em Lisboa, e que é a base para a digressão recentemente anunciada pelo músico.

O disco conta com temas de cada um dos seus anteriores trabalhos e alguns originais, destacando-se, ainda, a participação de António Caixeiro, Jorge Benvinda, Júlio Resende e Ricardo Ribeiro.

O espectáculo no São Jorge foi a 27 de Janeiro de 2018, o disco editado a 19 de Outubro e desde então a digressão passou por Albufeira, Montemor-o-Novo, Palmela, Sesimbra, Estoril, entre outros locais. E mais estão anunciados, conforme poderá ver aqui.

Ao seu lado, conta com ‘Os Irrevogáveis’ Carlos Lopes, Jaume Pradas, João Rato, Luís Pinto e Paulo Loureiro e prepara-se para em vários espectáculos convidar músicos locais e regionais, para em palco, assim partilhar a sua música.

Rogério Charraz em conversa com Rui Lavrador desvendou que “do disco para o espectáculo vai ficar o conceito. O disco 4.0 são quatro canções de cada um dos discos anteriores e quatro originais, mas eu vou-me permitir a liberdade, até porque não quero estar sempre a fazer o mesmo espectáculo, de poder de vez em quando estrear inéditos, como vou fazer brevemente no Olga Cadaval, de vez quando mudar os temas mais antigos, trazer convidados diferentes”.

Portanto, cada espectáculo vai ser diferente, vai ter alinhamento diferente, nem sempre vão haver convidados mas a maior parte das vezes sim, os formatos também não vão ser sempre iguais (algumas datas vou fazer em trio, outras em quinteto, esta primeira em Castelo Branco fazemos em sexteto), portanto dentro deste conceito vamos ter a liberdade de ir mexendo e ir trabalhando consoante o espectáculo, a sala, a terra, etc”, diz-nos sobre as diferenças que existirão do disco para a digressão.

Ao longo da digressão, sempre que possível, Rogério Charraz convidará músicos locais para partilhar palco consigo, sendo esta “uma oportunidade de nós nos misturarmos mais com as comunidades locais, ou seja, não é uma coisa ‘o tipo veio de Lisboa, chegou aqui, cantou o que tinha para cantar e foi embora’. Nós não vamos fazer isso em todos os concertos, infelizmente, mas eu tenho lançado o repto a muitos dos promotores com quem tenho falado no sentido de nos podermos misturar com músicos locais, alguns amadores outros profissionais, e nalguns casos como vai acontecer agora em Castelo Branco, com a Orquestra da Viola Beiroa, vamos ter de ir uma semana antes ensaiar com eles, vamos estar mais tempo nos sítios, vamos respirar mais o ar daquela terra, saber um pouco mais das pessoas e isso vai permitir que o espectáculo seja mais personalizado, mais genuíno e de alguma maneira que as pessoas se sintam mais inseridas no espectáculo e que façam parte deste concerto”.

Regressando ao espectáculo no São Jorge, questionei-o sobre se mudaria algo no alinhamento, tendo Rogério Charraz, convictamente, dito que “pouca coisa, um ou dois temas sim”, até porque “o disco acabou por não ter todos os temas do espectáculo, houve dois deles que ficaram de fora. Mas não mudaria muita coisa”. Explicou que “vou analisando aquilo que faço e pensando, mas eu estou sempre muito virado para a frente e para aquilo que vou fazer a seguir. E quando olho para trás e para os erros feitos não fico a pensar no que poderia ter feito mas sim no que posso fazer daqui para a frente”, esclarecendo que “tem-me perguntado muita vez se foi difícil escolher, não foi porque ao longo do processo houve uma escolha natural das canções que foram ficando e das outras que vão ficando mais escondidas e que mais tarde irão aparecer, algumas delas este ano vão aparecer também, mas não me sinto arrependido”.

O acto de convidar músicos locais leva-o a que tenha e pensar em cada concerto como único e “isso é um grande desafio que eu gosto. Acho piada e a agenda que vamos tendo permite-nos, ainda, ir fazendo essas coisas. É um conjunto de desafios, em relação aos convidados, num caso ou noutro poderei tocar um tema deles, eles veem tocar os nossos repertório. Obviamente que iremos pensar em conjunto, eu e eles, quais os temas que mais se adequam tendo em conta a sua formação, a sua sonoridade, a sua personalidade musical. Mas acima de tudo isso será um desafio para todos nós e faz com que a gente não se acomode e não esteja sempre a tocar os temas em “modo automático”, diz-nos.

Revela ainda que “faz com que cheguemos ao final do ano com várias versões do mesmo tema, eu vou tentar gravar algumas delas para que possamos mais tarde fazer uma edição especial com um ou dois extras mas a principal riqueza disto é que vão vir outros músicos acrescentar mais ADN e tornar este espectáculo ainda mais rico e mais diferente. As pessoas que assistam a dois ou três espectáculos diferentes nunca vai ser o mesmo espectáculo e acho que vai tornar isso mais rico”.

Num percurso no qual tem vindo a mostrar a sua versatilidade (músico, autor, compositor e cantor), “o desafio continua a ser ( de uma forma tão independente quanto eu tenho feito sem editoras, agentes, sem nenhum apoio da estrutura da música) conseguir crescer enquanto artista, que a base de pessoas que ouvem a minha música e vão aos concertos seja maior, que a minha relevância mediática ou peso se assim quisermos na música portuguesa seja cada vez maior”. Diz que “ não podes estar sempre no mesmo ponto, os anos vão passando, eu cada vez mais vou deixando de ser uma novidade. Já não sou uma novidade, já vou no meu quarto disco, já estou no meio da música há seis ou sete anos, e isso vai fazendo que subindo etapas a tua qualidade, os cuidados, os pormenores vão ter de ser cada vez maiores, portanto eu acho que o desafio também é esse: superar-me”.

Durante este percurso foi pai e quando ‘provocado’ que tinha ali um seguidor na arte da música disse que “ele não vai seguir as minhas pisadas, vai ser gestor de empresa porque alguém tem de me pagar o lar, não há-de ser com certeza com aquilo que a Segurança Social me paga”, não escondendo o sorriso. Num tom mais formal revelou que “muda muita coisa, acima de tudo muda a responsabilidade. Eu até aos 30 anos fui músico e fui fazendo outras coisas paralelas que me iam dando ordenado fixo. Aos 30 anos arrisquei e passei a ser só músico e a viver só da música, ou como às vezes digo brincando de forma séria ‘sobreviver da música’, e agora com 40 já não tenho de me preocupar só comigo. Tenho de me preocupar com um rapazito pequenino que daqui a alguns anos vai ser um rapazito maior e que depois vai precisar de ir estudar, comprar casa, aquelas coisas todas”.

Mas a paternidade “muda a responsabilidade, como é óbvio, não pode mudar a minha verdade!”, esclarecendo que “há coisas que nunca farei na música e uma delas é cedências quanto aquilo que eu considero que é a minha verdade enquanto músico. Eu tenho dito isto muita vez, para fazer uma coisa na música que eu não gosto, prefiro deixar de ser músico e passar a fazer outra coisa qualquer, num escritório, sentado das 9:00 às 18:00, não tenho problema nenhum em relação a isso. Portanto, eu continuarei na música enquanto continuar a achar que aquilo que estou a fazer é aquilo que eu quero, aquilo que eu gosto, e que as pessoas que a ouvem gostem e achem que tem ali algum valor. Nesse aspecto não muda, mas vai mudando a nossa maturidade e isso é algo muito importante”, disse-nos quando questionado sobre o que o nascimento do seu filho tinha mudado em si, enquanto músico.

Já sobre as críticas que lhe possam ser feitas, revela que aceita-as “acima de tudo quando são sinceras. Mesmo que eu não concorde nada com elas, quando quem as proferiu fê-lo apenas e só porque achou que era assim e era a sua verdade, tudo bem. Eu não tenho a pretensão de agradar a toda a gente, nunca tive e nem quero. Obviamente que há pessoas que não vão gostar da minha música, e eu acho isso perfeitamente normal. Quando as pessoas fazem uma critica, achando que é a sua opinião e sem preconceitos, ouvindo o que aconteceu e sabendo aquilo que eu fiz, tudo bem”.

A sua base de seguidores tem crescido e quando questionado sobre se tinha um público especifico, disse-nos que “aquilo que eu sei é que o meu público é maioritariamente composto por pessoas que já assistiram anteriormente a um espectáculo meu. Porque, por norma, quando as pessoas vão a um espectáculo meu ao vivo gostam e ficam a acompanhar. E às vezes espectáculos mais pequenos que faço e as pessoas depois vão acompanhando”, acrescentando que “tenho noção que não comunico para um público juvenil, parece-me claro e nem tenho particular interesse. Obviamente, não excluo, e se há adolescentes que gostam da minha música não os excluo. Mas maioritariamente o meu público não é juvenil, porque eu coloco muita atenção nas letras, tenho muita atenção na mensagem que tento dizer, tento ter uma certa coerência e isso requer alguém que já tenha preparação mental e intelectual”, mas assume que “não perco muito tempo a analisar quem me ouve. Não quero trabalhar para públicos específicos, quero trabalhar para toda a gente”.

O músico destaca ainda a importância das redes sociais para uma “comunicação mais directa com o público” e quando desafiado a descrever o seu percurso em apenas uma única palavra, que não podia ser nome de nenhum tema da sua discografia, optou por “Resiliência”.

 

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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