Rúben Allen tem novo disco, ‘Becoming’: “Criar texturas sonoras complexas geradas por máquinas foi algo que me fascinou”

 

 

‘Becoming’ é o mais recente trabalho discográfico do músico, multi-instrumentista e produtor Ruben Allen, maioritariamente conhecido pelo projecto SaiR. Em entrevista ao Infocul, Ruben Allen dá a conhecer o novo trabalho e também aborda curiosidades sobre o seu percurso.

Este trabalho, com nove faixas e editado em vinil e formato digital, sucede ao disco “SaiR – Self Titled”, além de colaborações que foi tendo com nomes da cena musical portuguesa como Miguel Ângelo, Rui Maia, Mirror People, Maze, Holy Nothing entre outros.

Estando em pré-venda, o disco será editado a 20 de Fevereiro e estará disponível nas maiores lojas online e em lojas locais espalhadas por todo o mundo com a distribuição pela Fatbeats. Sendo um disco maioritariamente instrumental, conta com participações, nas vozes de Andre Espeut, Moniquea e Adam Chini. Terá selo da editora Neon Finger.

 

 

Becoming’ começou a ser pensado quando?

Este álbum começou a formar-se há sensivelmente 3 anos. Estive, entretanto, envolvido noutros projecto como re-misturador ou produtor o que fez adiar um pouco a sua conclusão mas, ao mesmo tempo, acho que isso me obrigou a ter tempo para digerir cada tema do álbum e a olhar para os temas com outra clareza.

O que traz este disco, de novo, ao projecto SaiR?

Sempre tive os sons de sintetizadores no papel principal nas minhas composições. A possibilidade de criar texturas sonoras complexas geradas por máquinas foi algo que me fascinou desde a primeira vez que tive contacto com estes instrumentos. Trabalhei extensivamente sons em diferentes sintetizadores que fui adquirindo ao longo dos anos e percebi todas as possibilidades e identidades de cada um. Este disco abordou tudo de uma forma diferente. Os sintetizadores tomam definitivamente um papel secundário mas têm a presença suficiente para manter a mesma identidade que tenho assinado no meu trabalho até agora. Neste álbum procurei desafiar-me mais na composição musical, na exploração de harmonias e melodias totalmente em piano eléctrico, o que muda totalmente o ambiente das músicas. É um disco complexo mas também muito desafiante.

Quem esteve consigo no processo de gravação do disco?

Como único membro do projecto SaiR, faço a composição, a produção e a mistura em estúdio. A possibilidade de conseguir criar música sem estar dependente de outros foi o motivo principal para abandonar projectos em formato de banda e começar este. Tenho todos os instrumentos necessários para compor os temas e posso compor e gravar quando sinto que tem de acontecer. Um trabalho solitário, para mim, é mais gratificante.

Em termos de sonoridade e género, onde enquadra este disco e porquê?

Para mim é difícil enquadra-lo num género específico. Acaba por ser uma experimentação de alguém que tem como cultura musical todo o Funk e Soul das décadas de 70 e 80 mas que junta um som moderno e brilhante de Jazz-Fusão com linhas de baixo e batidas que se destacam do resto dos instrumentos.

Sairá na versão digital e Vinil. Porquê esta opção?

Sempre gostei de texturas como a do vinil ou da cassete e acho que o meu tipo de som se encaixa perfeitamente nesse formato nostálgico. Este será o meu terceiro lançamento em vinil e vou tentar sempre que esse seja uma plataforma dos meus lançamentos. A mistura e masterização do disco é feita a pensar nesse formato. Os outros tornam-se quase acessórios. Acho que o formato em que a música é lançada é muito mais do que um formato de suporte. Acredito fazer parte da imagem e da identidade do disco.

Há alguns convidados. Quem são e porque motivo?

Sempre me considerei um compositor de musica instrumental e continua a ser a minha opção favorita. Contudo, tenho vindo a ganhar interesse em compor para voz e ver o que consigo explorar nesse sentido. Um dos lançamentos que fiz recentemente foi um vinil single de 7 polegadas com um tema chamado “Port Paradise” e a sua versão instrumental com voz teve uma boa aceitação nas rádios. Isso também me motivou a aprofundar um pouco mais este lado.

Nos temas em que tem convidados, pensou primeiro no tema ou no convidado?

Dou sempre mais importância ao lado instrumental. Comecei sempre por criar os temas mas, em alguns senti, imediatamente, que poderiam ganhar com uma voz. Então, deixei o espaço necessário na música para isso acontecer e escolhi os cantores que se adaptariam a cada uma delas, baseado no que conheço dos seus trabalhos.

Há também alguns instrumentais. Há truques para uma boa ‘malha’ instrumental?

Música instrumental não é instrumental apenas por não ter voz mas por ter uma estrutura suficientemente convincente e sólida para ter o direito ao estatuto de ‘instrumental’. Ou seja, tem de ter a capacidade de preencher o espaço que normalmente está ocupado por uma voz e uma letra. O que me fascina, em particular, nos temas instrumentais, é a liberdade que nos dá como ouvintes. Não nos prendem a uma letra ou a um tema, mas sim, cada um interpreta a composição à sua maneira.

 

 

Quem é Ruben Allen e o que há dele no projecto SaiR?

Eu sou uma pessoa bastante nostálgica, gosto que o passado esteja presente no meu dia-a-dia. Talvez, por isso, me tente rodear de objectos que fizeram parte da infância e o meu estúdio está totalmente decorado dessa forma. Isso transparece na música. A minha música remete-me aos inícios de 80, à altura da introdução de instrumentos e sons electrónicos na música tanto jazz como pop. Essa altura abriu imensas possibilidades e caracterizou uma era que me deixa saudoso.

Fora dos palcos, o que gosta de ver ou fazer?

Gosto bastante de jogos, particularmente de jogos e consolas antigos/as. Também gosto de cinema mas raramente vejo filmes novos. Prefiro revisitar os meus clássicos favoritos.

Quem são as suas grandes referências?

Nomes como Jeff Lorber, Dave Grusin e Lee Ritnour são nomes que mudaram totalmente a minha forma de olhar para a música. Actualmente são as minhas maiores referências e inspiração.

Na música já colaborou com alguns dos nomes da cena musical actual. Com quem gostaria de trabalhar que ainda não tenha acontecido?

Tive, realmente, a sorte de poder trabalhar com alguns nomes nacionais e internacionais. Posso dizer que a nível nacional aprecio imenso o trabalho do Pedro Abrunhosa, especialmente os primeiros trabalhos entre 94 e 96 mas também gostava de trabalhar com o Sam the Kid, sou apaixonado pelo álbum Beats vol.1. A nível internacional, talvez algum membro da GRP Records, editora de Jazz de Nova Iorque. Em ambos os casos, tenho um longo caminho a percorrer até lá.

Em termos de espectáculos já está algo marcado e que possa ser revelado?

Apesar de já ter feito algumas aparências públicas tanto como DJ como produtor, é uma parte que não ambiciono. Existe sempre alguma pressão para o fazer por parte de promotores e casas de espectáculo mas, para já, gosto de mais do conforto de um estúdio.

Em termos de redes sociais? Qual a importância e quanto tempo lhes dedica?

O menos tempo possível. Sou muito contido quanto a publicações nas redes sociais. Faço algumas, claro, mas deixo a maior parte desse trabalho para as editoras e distribuidoras.

Quando decidiu fazer da música a sua vida?

A música tem uma papel de passa-tempo na minha vida e tenciono que continue assim. Gosto de não sentir obrigações quando componho. Faço-o quando sinto que tenho de fazer e gosto de ter tempo para trabalhar no que tenho de trabalhar. Prefiro continuar a estabelecer as minhas próprias metas.

O que mudava neste percurso?

Teria estudado jazz e produção musica em vez de ter enveredado pela área de Design Gráfico, como fiz.

É possível viver apenas da música?

Do que tenho vindo a conversar com outros colegas, acredito que sim. Mas requer muito trabalho e a ajuda de outros factores. Contudo, não posso falar por experiência própria porque nunca tentei.

Qual a mensagem que deixa aos leitores do Infocul?

Ouçam música nova, sem preconceitos nem expectativas.

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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