Rui Massena: “Deus me livre de me sentir compreendido.”

 

 

III” é o mais recente disco de Rui Massena. Um dos mais completos e imprevisíveis músicos da cena musical portuguesa volta a surpreender com um disco de elevada qualidade, sobre o qual falou em entrevista ao Infocul, conduzida por Rui Lavrador.

 

 

Um disco gravado entre Berlim e Porto, que prova o porquê de o Maestro, e forte divulgador da música mais erudita, ser um dos nomes mais acarinhados pelo povo e conseguir chegar a um target consumidor da intitulada música popular. Para Massena as barreiras não existem, assim como a criatividade.

Com sete novos temas instrumentais compostos por Rui Massena e produzidos por Massena e Mário Barreiros, “III” foi masterizado em Nova Iorque pelo engenheiro vencedor de um Grammy Joe Laporta. Cada um com pinceladas de arte e requinte, explicados na entrevista que nos concedeu.

 

 

Que disco! Confesso que não há um tema que não goste. O que o inspirou para um disco que permite uma viagem emocionalmente rica?

Já valeu a pena ter feito este disco para ouvir isso. Inspira-me ter uma vida emocionalmente rica e depois tentar que isso adquira um significado em som.

 

Um lugar”. Qual o lugar de onde nasce este tema e para que lugar quer Rui Massena levar o ouvinte?

O lugar que cada um sente como o seu lugar de eleição. Que seja calmo, e que lentamente se vá tornando em emoção pura, daquela que nos desarma por ser mais rápida que o pensamento. A emoção é o que me faz viver. Pensar não é suficiente.

 

 

Sendo um disco instrumental, opta por colocar alguns temas com nomes em inglês e outros em português. Por algum motivo?

Não. “Lazy” soa melhor do que “Preguiça” porque é menos .. auto-crítico. É mais calmo… “The Tree” torna-se mais amplo na sua interpretação em inglês, do que a palavra “Árvore“ em Português. Mas, na verdade, não é assim tão importante porque não estou a descrever uma árvore …

 

 

Um disco instrumental permite mais interpretações a quem ouve do que um disco que conta com voz?

Claro que sim. Um dos milagres do instrumental é deixar cada um construir o seu texto. A palavra encerra uma força tremenda e condiciona a direcção.

 

 

Resistir” tem sido uma das chaves no seu percurso?

Tem. Do meu, do Nosso, da Humanidade. Resistir, é uma palavra obrigatória dos nossos dias. Já reparou? Está tudo em estado de sítio. O resumo é maravilhoso para a ciência, para o conhecimento mas o seu oposto…é proporcional.

 

Há quem o considere um génio na música. Como encara estes elogios?

Considero que quem é capaz de ver genialidade nos outros é porque a tem.

 

 

 

Qual a crítica mais dura que ouviu no seu percurso?

As críticas que mais me magoam são as imperceptíveis. Aquelas que só eu vejo. As outras são um mero exercício democrático, por vezes construtivo, outras destrutivo.

 

 

Quais os músicos que o acompanharam neste disco?

Mário Barreiros na produção, é já o terceiro disco que faço com ele, Bernardo Fesch na pré- produção e baixos, um extraordinário músico, João Cunha e Sandro Mota nas percussões, músicos de universos diferentes com quem tinha já trabalhado, quer na minha música (João Cunha) quer na capital europeia da cultura –Guimarães 2012 (Sandro Mota – Orquestra Estúdio ), e nas cordas o Rui Moreira (Viola de arco) grande companheiro no processo, e a Daniela Silva, violoncelista com quem já trabalho há três anos.

 

Quais foram os maiores desafios em todo o processo de gravação?

Conjugar vontades de todos e fazê-las encontrar com a minha.

 

 

Qual o projecto megalómano que gostava mesmo de executar e que ainda não tenha sido possível?

Para já estou sem desejos desse tipo. Estou tão concentrado neste caminho que não penso tão à frente. Acho que naturalmente vou percebendo que o conceito de megalómano não tem a ver com espaços grandes nem com muita gente.

 

 

Sente-se compreendido?

Deus me livre de me sentir compreendido. Seria uma figura parada no tempo e sem qualquer sentido critico à sociedade. Sou muitas vezes um desalojado privilegiado. Sou muito bem tratado pela minha sociedade, tenho pessoas que confiam no meu trabalho, mas estarei muito longe de ter realizado a minha missão. A sociedade precisa de sentido critico moderado e moderador. Pelo simples facto da minha música existir nos Tops Nacionais já cumpre o seu papel. Uma sociedade plural, com uma diversidade desejada.

 

Quais os maiores desafios que te encontrado para dar a conhecer a sua música ao público?

A noção de audiências estar acima de tudo. Mas sou muito bem tratado.

 

Em termos de redes sociais, dedica muito tempo?

Muito pouco e devia dedicar mais. Sinto-me sempre em atraso em relação à coisa.

 

 

 

Em termos de espectáculos para apresentar o disco, o que já pode revelar do que esteja a preparar?

Quero tocar o disco na íntegra, revisitar alguns temas de outros disco e novas ideias.

 

O disco termina com “Mateus”. O que pode e quer dizer sobre este Mateus?

Estava a ler o Evangelho Segundo S. Mateus e ocorreu-me que a palavra acreditar é o bem supremo. Resolvi construir uma canção com uma imagem bíblica mas não concreta de fé.

 

Qual a mensagem que deixa aos leitores do Infocul?

Malta, ouçam o meu novo “III “e apareçam nos meus concertos. Bebam um copo de vinho tinto antes de jantar e celebrem a vida com amor. Obrigado ao Infocul pelo seu trabalho de divulgação da música portuguesa, ainda por cima com muita generosidade. Abraços!

 

 

 

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Notícia publicada a 28/11/2018

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