Rui Vaz: De Tavira ao Caixa Alfama e com novo disco prestes a sair!

O Caixa Alfama aproxima-se a passos largos e as confirmações vão chegando. Um dos nomes já confirmados é o do fadista Rui Vaz, que actuará no Clube Lusitano. O fadista falou ao Infocul sobre a participação no certame mas também sobre o seu novo disco, que irá ser apresentado oficialmente no Caixa Alfama.

Rui Vaz actua actualmente na casa de fados São Miguel Grandes Cantorias, no bairro de Alfama em Lisboa e acaba de gravar o seu segundo disco que se intitulará de “Fado em Preludio”.

 

 

O fadista de 24 anos de natural de Tavira, começa por nos revelar que o convite surgiu “em Janeiro numa ida minha à Rádio Amália com um projecto que tivemos que era o “Fado no Teatro”, onde eu fui dar voz a esse projecto. Depois surgiu o convite nessa mesma noite” por parte do programador do festival, o também fadista José Gonçalez.

 

 

Quanto ao espectáculo que irá apresentar no Caixa Alfama, diz já ter “minimamente” ideia do que pretende. “Sei que este concerto vai ser a essência do meu trabalho discográfico, do meu mais recente “Fado em prelúdio” e vou tentar transpor do disco para o espectáculo alguns dos temas essenciais e outros que me acompanham diariamente” revela-nos.

 

 

O disco, o segundo da sua carreira, ainda não está disponível para o público, embora o artista espera que “em breve isso possa acontecer”, até porque a saída do disco está prevista para “Setembro”. ”Não viajo só pelo fado tradicional apesar de o disco ter muita essência do fado tradicional. Viajo pela boa música ligeira portuguesa, que acredito que a mesma passou um pouco de moda. Eu fui buscar alguns autores dos quais gosto muito, como: Nuno NazarethFernandes, Ary dos Santos ou o Fausto  Bordalo Dias. Peguei em alguns temas deles e transportei-os para o meu disco” diz-nos, aguçando a curiosidade.

 

 

Neste disco teve consigo em estúdio, “na guitarra portuguesa foi o Bruno Chaveiro; na viola de fado foi o Bernardo Viana e o Mário Rui Teixeira fez a direcção musical. Depois ainda tive a participação da Jovem Orquestra Portuguesa nos violinos”, convém notar que Mário Rui Teixeira acompanhou também o fadista ao piano.

 

 

Eu sou um rapaz de Tavira e não tenho vergonha em admitir quais são as minhas origens. A minha cidade deixou-me muitas marcas e marcas muito boas e bonitas. Tenho lembranças muito bonitas da minha infância, do meu crescimento e são memórias que eu não pretendo apagar nunca da minha cabeça, tento mantê-las vivas diariamente. O fado para além de ser um bocado de nós mesmos, é a saudade que sentimos de alguma coisa que marcou a nossa vida. A minha terra marcou-me muito e eu tenho muitas saudades de casa” diz-nos, quando convidado a falar um pouco de si, antes de acrescentar que a “saudade é o prolongamento da memória”.

 

 

Actualmente com 24 anos confessa-nos que ainda existe em si muito dessa criança, criada em Tavira, embora admita que “a minha vinda para Lisboa permitiu-me adquirir alguma maturidade. Permitiu-me com que a minha maturidade fosse precoce pois tive que crescer mas ainda resta em mim uma criança e isso revela-se um bocado na minha personalidade. Eu não sou uma pessoa triste. Sou uma pessoa feliz e acho que o que me mantém feliz é a realidade daquilo que fui enquanto criança e marcou-me muito naquilo que sou hoje”.

 

 

E é um pouco deste seu percurso que acaba por marcar o seu segundo disco, “não é uma compilação contemporânea. Acho que um disco não precisa de ser uma antologia contemporânea da tua vida. Não precisar de ser sobre o hoje. Pode ser sobre um ontem muito distante ou um amanhã. Pode ser aquilo que eu desejo muito que venha a acontecer. Pode ser aquilo que eu vivo, todos os dias, desde que eu saio da minha casa, do meu bairro para vir para o outro bairro onde eu trabalho diariamente desde há sete anos. É basicamente um reflexo da vida” revela-nos.

 

 

A casa de fados é a nossa escola. É aqui que nós aprendemos, crescemos e limamos os nossos pontos menos positivos. É aqui que temos pessoas mais velhas que nos podem ensinar muito. É aqui que temos o feedback do público antes de podermos apresentar o nosso trabalho a um grande público, antes de o estendermos. Foi nesta casa de fado que eu cresci enquanto fadista. O fado já me acompanha há muito tempo mas foi aqui, para esta casa de fados, para onde voltei e onde me orgulho muito de pertencer ao elenco desta casa de fados que me acolheu sempre e sou sempre tão bem-vindo, tão parte da família. Quando posso fazer aquilo que eu mais amo diariamente, é muito gratificante para mim poder fazer parte desta grande família, porque na realidade somos quase 30 elementos. Esta casa também cresceu desde que vim para aqui. No ano passado nasceu o “S. Miguel-Grandes Cantorias”, que é uma casa muito bonita e onde sou muito feliz e onde me sinto muito em casa. A casa de fado tem tudo para te dar o impulso para ires mais além mas sobretudo é uma grande aprendizagem e a maior escola que podes ter no fado. Um fadista nunca pode ir um palco sem antes ter passado por uma casa de fados mas esta não é uma terapia para apenas três meses. É para a vida inteira” diz-nos sobre as diferenças entre actuar numa ala de espectáculo ou numa casa de fado e sobre a importância da casa de fados na vida de um fadista.

 

 

Em Setembro, o seu concerto no Caixa Alfama poder-lhe-á abrir outras portas, sendo que o fadista revela que “espero que me possa abrir boas portas. Eu tenho este disco no qual trabalhei muito e dei tudo de mim. Espero que este meu espectáculo no Caixa Alfama venha a contribuir para o sucesso do mesmo, para que este disco consiga vingar num mercado difícil, especialmente em Portugal. A música em Portugal é um mercado muito complicado onde há muita oferta e por vezes as oportunidades não são vastas nem são aquilo que esperávamos. Eu espero que este concerto me abra grandes portas”.

 

 

Uma das grandes surpresas deste disco é um dueto com Wanda Stuart, tendo nós questionado se teríamos oportunidade de ver esse dueto ao vivo no Caixa Alfama. “Eu gostava muito que a Wanda Stuart participasse no meu concerto no Caixa Alfama. É uma questão que ainda tem que ser falada entre mim, a minha produção e a Wanda. E também que será falado entre mim e a produção do Caixa Alfama”.

 

 

O Fado atravessa uma fase de grande projecção, principalmente depois de ter sido elevado a Patrimonio Imaterial por parte da UNESCO. Para o fadista actualmente “dá-se um pontapé numa pedra e saem de lá dez fadistas. Se são bons ou maus é relativo, pois não é isso que interessa. Muitas vezes o mercado, se calhar, não vai apostar naqueles que cantam melhor mas naqueles que são mais bonitos ou estão  em voga” dando um exemplo, “tens uma grande voz do fado, sem desprimor pelas minhas colegas, pessoas que estão há mais tempo no fado. A Yola Dinis é para mim uma voz maravilhosa e na minha opinião não vingou o suficiente. O estado do fado… está melhor do que nunca a partir do momento que está vivo e está de boa saúde. Há muitos jovens a cantarem fado. Temos vindo a perder algumas vozes que têm vindo a ser essenciais para a própria vida e quotidiano do fado, infelizmente, mas é a lei natural da vida. Vive-se e morre-se. Acho que um artista nunca morre. Aquilo que nós deixamos não pode ser apagado com a nossa partida física” completa.

 

 

E não se mostra contra a inclusão de novos instrumentos no fado, pois “eu enquanto artista não sou preconceituoso relativamente à inserção de novos instrumentos e de novas abordagens ao fado, desde que bem-feitas e cuidadas. Eu próprio o fiz no meu disco. Digo isto e posso estar a cometer um erro em que me vou enterrar nas minhas próprias palavras mas eu creio que não é por se dar uma nova abordagem que deixa de ser fado. É como eu disse à pouco, se colocares uma lagosta num cozido à portuguesa ele já não é um cozido à portuguesa mas é outra coisa qualquer. Se a essência do fado está nas músicas, se houver fado naquela combinação musical. Sem dúvida que não deixa de ser fado nem tem nada a perder mas depende muito daquilo que se faz e como o exploras”.

 

 

No fado revela que as suas grandes referências são… “tenho muitas. As vezes sou equiparado em termos de timbre a algumas vozes, o que não me deixa muito satisfeito porque eu fui e sou aquilo que sou hoje, como canto, porque fui beber a muita gente. Não aprendi só com uma pessoa. A minha maior referência feminina é a D. Beatriz da Conceição que foi também uma pessoa com a qual tive uma ligação muito forte no fim da sua vida. E sem dúvida que é uma das minhas referências. No disco gravei dois temas em tributo a ela, e em que foi comigo a estúdio na altura de gravar a voz para o disco”. Em primeira mão anunciou em entrevista ao Infocul que esses temas são “o “Ai esta ausência de mim” e o “Vazio”” antes de continuar a mencionar as suas referências,  em nomes como Celeste Rodrigues, Natércia Maria, Cristina Branco, Sara Correia, Filipa Cardoso (a melhor das contemporâneas na sua opinião) antes de acrescentar que “gosto muito do trabalho da Ana Moura e também gosto muito do trabalho da Liana. Para mim fez um trabalho excelente com o disco dela, o “Embalo”. Aliás, eu trabalhei com a Liana aqui nesta casa. Foram 2 anos muito bonitos e eu acho que ela tem um trabalho extraordinário. De resto, uma das fadistas que está a marcar o fado actualmente é a Ana Moura, sem dúvida”.

 

 

Por fim o fadista algarvio convida o público a ir ao seu espectáculo no Caixa Alfama pois “tenho novidades fresquinhas. Tenho um disco muito bonito e esperado por mim. É um disco que eu fiz não só a pensar no público que já me segue, um público que ronda uma faixa dos 45 anos para cima, e tentei fazer uma coisa que pudesse albergar um público mais geral que pode ir dos 8 aos 88 anos. Tenho temas mais jovens que falam de uma realidade que nós os jovens vivemos diariamente. Os sentimentos que estão à flor da pele e tudo aquilo que é bom na nossa vida e que para mim próprio tem sido muito gratificante. Obvio que também tens as fazes negativas da minha vida e que estão incluídas naquele disco mas eu espero ter sala cheia”.

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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