Ruy Malheiro: Uma vida dedicada a um amor chamado Teatro

Ruy Malheiro

Ruy Malheiro nasceu a 28 de Novembro de 1972 e em 2013 iniciou Mestrado em Teatro – vertente Artes Performativas – especialização: Interpretação na Escola Superior de Teatro e Cinema. Num percurso rico e ecléctico no que ao teatro diz respeito, assumiu funções como actor, produtor, figurinista, formador e director executivo. Em entrevista ao Infocul fala sobre o seu percurso, os desafios e também o modo como analisa o actual momento na cultura, em particular no teatro.

Actualmente é Diretor de Produção e Comunicação da Escola de Mulheres e Buzico! Produções Artísticas. É também o mentor do projecto “Curtas de Teatro Fora de Portas” que pretende apresentar micropeças de teatro em espaços não convencionais, para plateias reduzidas.

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 (Estreia do espectáculo “Um Ano sem Ti” de João Ascenso, produzido pela Buzico! e com acolhimento no Espaço Escola de Mulheres)

 

 

 Ruy, quando sente que o teatro seria o caminho profissional a seguir?

 

Depois da primeira formação artística no seio do CITAC, em Coimbra, tive a oportunidade de integrar um projeto de profissionalização n’A Escola da Noite, companhia profissional de Teatro de Coimbra, e creio ter sido depois desse percurso que reconheci que o Teatro seria a minha “casa”!

 

 

Tendo participado em mais 70 espectáculos, questiono, quais foram os mais desafiantes?

 

Todo e qualquer espetáculo é desafiante, mesmo em processos menos agradáveis há sempre algo que se aprende, nem que seja identificar “o que não queremos para nós”. Os espetáculos em que tenho participado têm sido variadíssimos em termos de textos, de encenadores, de linhas artísticas, contudo poderei destacar “As Cadeiras” com textos de António Lobo Antunes (Trigo Limpo Teatro ACERT – Tondela, em 2000) ou “Duas Histórias de Solidão, Duas Histórias a Sós”, a partir de textos de Eduarda Dionísio e Jaime Rocha, também na ACERT, em 2006, ambos com encenação do Pompeu José. Destaco estes dois por terem sido, eventualmente, dois dos espetáculos onde tive que me superar enquanto ator, espetáculos que exigiram que saísse da minha zona de conforto, e pesquisasse muito e errasse mais e, consequentemente, tenha conquistado alguma maturidade artística e interpretativa. De uma maneira geral, e sem me tornar repetitivo, todos me marcaram de alguma forma, espetáculos de sala, para público infantojuvenil, café-teatro e até os grandes espetáculos de rua, com grandes máquinas de cena e dispositivos cenográficos surpreendentes, que me proporcionaram experiências únicas dentro e fora do país.

 

 

 

Tendo sido actor residente em duas companhias fora dos grandes centros (Lisboa e Porto), questiono, se isso lhe deu uma perspectiva diferente de como o público vê o teatro em zonas com menor dimensão populacional e com menos espectáculos?

 

Com o Trigo Limpo Teatro ACERT percorri o país de norte a sul com espetáculos, a companhia apostou desde sempre na itinerância, adaptando os seus espetáculos a espaços e pessoas. Pela experiência vivida ouso afirmar que onde há menos oferta cultural, as pessoas se tornam mais sequiosas de poder assistir a espetáculos e aderem massivamente a manifestações culturais.

 

 

Acha que o público que vai ao teatro é um público culto, que sabe apreciar não apenas os actores mas tudo o que rodeia uma peça de teatro?

 

Depende claramente do género de espetáculo. Um público mais interessado e mais exigente procura, naturalmente, espetáculos com bons textos, boas propostas de encenação, bons elencos, boas cenografias, espetáculos dos quais saberá, à partida, que enriquecerão o seu conhecimento pessoal. Espetáculos meramente comerciais, que apostam em “caras” e não em atores, com textos mais ou menos interessantes, cujo objetivo é realizar dinheiro, com certeza que conseguem um leque muito mais diversificado de espectadores. Existem, contudo, espetáculos que reúnem as duas situações anteriormente referidas e que contribuem para a formação de públicos, ou seja, conseguir levar um público menos culto a determinados espetáculos, com belíssimos textos e propostas de encenação, faz com que se enriqueça o conhecimento cultural desse público menos culto.

 

 

 

Como analisa o actual momento do teatro em Portugal?

 

Existe muita oferta boa e diversificada, mas também alguma menos boa, mas isso não é uma realidade do momento atual. Sinto claramente haver mais espaço para o surgimento de novos encenadores, novos criadores e que têm contribuído para um enriquecimento da oferta artística de qualidade. 

Há ainda uma realidade que se tem vindo a instalar, nomeadamente nos grandes centros, e que me preocupa, o facto de cada vez mais criações artísticas, que envolvem meses de preparação, acabem por estar em cena 3 ou 4 dias. Talvez estes curtos prazos de apresentação consigam boas salas em termos de lotação, contudo não permitem que uma fatia considerável de público consiga assistir às mesmas.

 

Preocupa-me igualmente o curto investimento por parte dos programadores, por exemplo, dos teatros municipais, equipamentos revitalizados nas últimas décadas, um pouco por todo o país, nos quais é muito difícil conseguir levar-se uma produção. Acredito que nos faz falta poder ter festivais inteiramente dedicados a programadores, como acontece, por exemplo, em Espanha, nos quais as companhias apresentam as suas propostas aos potenciais compradores. Cá os programadores, na grande maioria dos casos, não só não vão ver os trabalhos das companhias, como nem respondem aos convites que sucessivamente recebem para assistir a estreias. Esta é uma atitude que tem que mudar. 

 

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Produtor Executivo, Assistente de Produção e Director de Produção são cargos que também não lhe são nada estranhos. Quais os maiores desafios em cada um deles e qual o mais difícil de executar com brilhantismo?

 

 No meu percurso profissional na área da produção, o título pouco ou nada me diz, na medida em que o que realmente me interessa é se me identifico, ou não, com os projetos. Quando me identifico, e “visto a camisola”, tanto me faz ser assistente, como produtor executivo ou diretor de produção, faço-o sempre com profissionalismo e dedicação, diferem somente as responsabilidades, que são maiores ou menores em cada caso.

 

De qualquer maneira, eu entendo a produção como um dos elementos essenciais para a concretização dos projetos, assim como os autores, os encenadores, os atores, as costureiras, os técnicos, todos sem exceção, sem os quais nada acontece. A produção tem que assegurar tudo: o espaço, as pessoas, os materiais, a correta utilização do orçamento. Quando um destes falha, a produção falha e compromete o sucesso dos projetos. O Produtor é quase o “vigia” que tem que antever o amanhã para que nada falhe. E sim, a produção é exigente, começa muito antes dos ensaios se iniciarem e acaba muito depois do último espectador ter abandonado a última sessão do espetáculo. 

 

 

A comunicação é também uma tarefa que faz assiduamente. Como vê a postura da imprensa perante a cultura?

 

Mais que falar sobre a cultura em geral, foco-me essencialmente no meu métier principal, o teatro. Sinto uma enorme dificuldade em conseguir que se façam reportagens, ou entrevistas às equipas artísticas. Há exceções obviamente, mas de uma maneira geral é difícil conseguir captar a atenção da imprensa para os espetáculos de teatro, nomeadamente para os que se apresentem em salas mais pequenas que não os nacionais, ou o São Luiz, ou o Trindade, a título de exemplo. Nas produções em que tenho estado envolvido, realizamos sempre ensaios abertos à imprensa e raramente a imprensa adere. É necessário que a imprensa redefina como olha e trata o teatro. A imprensa deixou de investir na figura do crítico teatral e neste momento a crítica é praticamente inexistente, e faz falta, muita falta.

 

Por outro lado são poucos os órgão de comunicação social que dediquem algum do seu trabalho aos agentes culturais fora dos grandes centros urbanos, onde existem inúmeras estruturas com percursos absolutamente notáveis.

 

 

Qual foi a história mais caricata que lhe aconteceu neste seu percurso?

 

São muitos anos e muitíssimas as histórias… sem pormenorizar nenhuma em particular, recordo que sempre que tento pregar alguma partida em cena a algum colega, por norma eu é que me atrapalho todo e os colegas seguram-se com a maior naturalidade do mundo, acontece-me frequentemente.

 

 

 

Trabalhar na área da cultura é optar pelo prazer da alma ao invés da estabilidade financeira?

 

 Não se trata somente de “prazer da alma” esta é uma profissão como outra qualquer que requer preparação, formação e profissionalismo. É uma opção de vida, tal como é ser-se jornalista, professor, médico, etc, é o que escolhemos para o nosso percurso profissional. A questão da estabilidade financeira é séria, mas não o é menos para outras profissões.

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 Como analisa a tão apregoada “praga dos recibos verdes” na cultura?

 

 Considero um absurdo os encargos fiscais a que os trabalhadores a recibos verdes estão condicionados, nomeadamente a Segurança Social e o IRS, taxas que não refletem a realidade económica dos trabalhadores. Motivo pelo qual milhares de artistas têm dívidas á Segurança Social, por terem que optar entre pagar as referidas taxas ou pagar a renda da casa, a luz e a comida na mesa. Quero acreditar que alguma coisa vai mudando e isso o devemos a estruturas como o Cena. Por outro lado, as estruturas empregadoras, que na sua grande maioria são pequenas, não reúnem condições para poder proporcionar melhores condições de trabalho aos criativos com que trabalham. Grave é o facto de estruturas com maior capacidade, continuarem a contratar com regularidade e alguma permanência pessoas em regime de recibos verdes.

 

 

O que deve ser feito de modo a valorizar e defender mais os agentes culturais?

 

Têm vindo a ser desencadeadas um conjunto de ações nesse sentido, como referi anteriormente por estruturas como o Cena ou a Plataforma Cultura em Luta, a título de exemplo, que a pouco e pouco vão realizando algumas conquistas. Contudo, enquanto a cultura continuar a ser considerada somente entretenimento, pouco valor lhe será reconhecido.

 

 

O que ainda lhe falta concretizar em termos profissionais?

 

 

Tanta coisa… continuar a minha formação, encenar mais, trabalhar com mais frequência em cinema e televisão… e quem sabe poder a vir a ter um espaço próprio de programação e criação…

 

 

 Qual a sala dos seus sonhos para produzir um espectáculo?

 

 Qualquer sala que reúna as condições essenciais para o fazer, espaço, equipamento, recursos humanos. E aprecio muito os espaços não convencionais, criam-nos outro tipo de desafios.

 

 

 Alguma vez pensou em desistir das artes?

 

 Por diversas vezes, pela escassez de oportunidades, por trabalhar arduamente para conseguir apresentar o meu trabalho e não conseguir reunir as condições necessárias, como salas que o acolham, etc. Por outro lado, a questão dos recibos verdes e os encargos que os mesmos acarretam, fazem-me ponderar várias vezes.

 

 

Qual a importância que o teatro rápido tem no seu percurso?

 

O Teatro Rápido foi um projeto inovador, que fomentou e promoveu a escrita teatral inédita para teatro, num formato especifico, o microteatro e ainda uma “montra” para que muitos atores emergentes tenham tido oportunidade de dar o seu trabalho a conhecer ao público. Por ali passaram mais de 500 criativos, muitos dos quais a terem-se estreado profissionalmente naquele contexto. Para mim foi um privilégio contactar com todos eles com grande proximidade, o que naturalmente permitiu que muitos profissionais ficassem também a conhecer o meu trabalho. As coisas boas e as menos boas do Rápido, como em todas as estruturas por onde tenho passado, vão fazendo de mim o profissional que sou.

 

 

Qual o género teatral que mais aprecia e porquê?

 

Sou bastante eclético, mas aprecio muito o teatro da palavra, dos clássicos aos contemporâneos. Não deixo, contudo, de ficar fascinado por trabalhos mais experimentais, de teatro do gesto e de objetos, de teatro musical, desde que sejam feitos com qualidade.

 

 

Se não estivesse ligado ao teatro, qual seria o rumo que seguiria?

 

O meu percurso profissional iniciou-se no Design de Moda, mas rapidamente percebi que essa área me seria muito útil na conceção e execução de guarda-roupa para teatro, cinema e dança, mais do que continuar a criar para produção em série. Não sei se voltaria ao Design de Moda. Não me vejo noutro universo que não este, mas se tivesse que o deixar, acredito que me adaptaria a qualquer outro trabalho com empenho.

 

 

Numa única palavra como descreveria todo o eu percurso?

 

Diversificado.

 

 

Poderá conhecer mais sobre o percurso de Ruy Malheiro, na sua página oficial de Facebook e também no site oficial.

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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