Sara Correia: “Não mudava nada, às vezes é preciso perder para saber ganhar e dar valor ao que temos”

 

 

 

É dos discos mais falados de 2018, com forte promoção e com uma critica positiva quer de músicos quer da imprensa. Sara Correia, fadista da nova geração, é a responsável por tudo isto. O seu primeiro disco, homónimo, foi o fio condutor para uma entrevista que Sara Correia concedeu ao Infocul, sendo a mesma realizada por Rui Lavrador.

 

 

 

Sara Correia tem Lisboa e o Fado na voz, na alma e no coração. Tem raça e estilo. Tem ainda muito para crescer, mas já é grande! É voz doce e de amargura. É, também , o Fado. Um disco com produção de Diogo Clemente.

 

 

Aos 13 anos consagrou-se vencedora da Grande Noite do Fado e, logo de seguida, foi convidada para cantar numa das mais míticas casas de fado da cidade, a Casa de Linhares. Aí teve o privilégio de cantar e aprender ao lado de grandes nomes como Celeste Rodrigues, Jorge Fernando, Maria da Nazaré, entre outros.

 

 

 

 

A entrevista, na íntegra, para ler de seguida:

 

 

 

Primeiro disco e homónimo. Este trabalho é a Sara enquanto fadista na atualidade ou é a vida de Sara retratada em Fados?

Este disco tem na verdade um pouco dos dois, a Sara com o percurso de quinze anos de casa de fados e a Sara de hoje, mais madura com consciência do que estou a cantar e a transmitir.

 

 

 

O Fado Nasceu um Dia (…)” ouve-se logo no início deste disco. Quando é que decide fazer do Fado a sua vida?

Quando venci a grande noite do fado, algo se transformou em mim. Eu queria sentir aquilo o resto da minha vida, pois quando sentimos que aquilo que fazemos chegou ao coração das pessoas é um sentimento de enorme felicidade e logo aí soube que era isto que queria fazer o resto da minha vida – cantar. Necessito de cantar, é uma urgência minha.

 

 

 

Em ‘Quando o Fado Passa’ (Cátia Oliveira/Valter Rolo) canta “(…) E quando o Fado canta quer alguém para o escutar”. Tão fadista é quem canta como quem ouve?

Sim, claro que sim. Antes de cantar, tive de ouvir e perceber o fado. Um poeta também é fadista, quem vai ao fado e sabe escutá-lo sente o que o fadista canta, sente as mesmas emoções, mas claro que quem o canta sente de outra forma.

 

Qual a crítica mais dura que ouviu no seu percurso?

Acho que nunca recebi uma crítica dura, quem me aconselhou ao longo do meu percurso sempre soube utilizar as palavras certas. Mas críticas ou não construtivas são sempre bem-vindas!

 

 

 

Este disco está a contar com forte promoção e até muito apoio por parte de músicos de outros géneros musicais. Como gere toda esta expectativa à sua volta?

A expectativa é continuar a levar o fado pelo mundo fora e fazer o que mais gosto na vida, como sempre fiz. Todo este apoio são de pessoas que gostam de me ouvir e que gostam de mim. O mundo da música é gigante e estou feliz com o percurso que estou a fazer, muito feliz.

 

Se este disco não fosse seu e o ouvisse, como o descreveria?

Sou suspeita para falar do meu disco. Diria que é um disco com muita garra, com desamores e dor, mas também de amor e felicidade, até um pouco irreverente e com muito fado. Um disco de uma jovem que tem muitas histórias para contar.

 

 

 

É mais fácil cantar o amor ou o desamor?

São dois sentimentos bastante diferentes, gosto de cantar os dois, são estados diferentes de entrega. Mas sou capaz de cantar mais o desamor, admito, não é por nenhuma razão em particular, apenas porque o fado tem outro gosto. E cantar o que nos dói tem outro sabor, chama-se fado.

 

 

 

Perdi Tantas Palavras no Caminho”, em ‘Agora o Tempo’ (Diogo Clemente). Neste seu percurso mudava algo ou tudo o que aconteceu foi aprendizagem?

Não mudava nada, às vezes é preciso perder para saber ganhar e dar valor ao que temos, tudo o que passei foi uma grande aprendizagem na minha vida e vai ser sempre. Estamos todos os dias aprender uns com os outros e na música é constante, e ainda bem. Também não tive nada facilitado, tive alguns percalços na minha vida pessoal que me fez crescer e entender as coisas mais rápido e ainda bem.

 

 

Falar deste disco é também falar de Diogo Clemente. Qual a importância de ter o Diogo ao seu lado, quer pessoal quer profissionalmente?

Quando temos pessoas que realmente gostam de nós e nos entendem musicalmente e que nos transformam e nos fazem crescer enquanto artistas é demasiado gratificante, além de ser meu produtor musical e ter um enorme talento, considero-o minha família, conhecemo-nos à mais de dez anos, e é um privilégio trabalhar com ele…

 

 

 

Quais os músicos que a acompanharam neste disco?

Neste disco entram pessoas que sempre quis que fizessem parte do meu caminho, como o Ângelo Freire, alguém que também conheço há muitos anos e que admiro imenso. Ele é, sem dúvida, um génio da guitarra portuguesa. Entra também o mestre Marino de Freitas no Baixo, também ele um grande músico e por quem tenho uma grande admiração e respeito. O Vicky Marques na Bateria, outra fera que admiro. E como já tinha referido, como meu produtor e viola de fado o Diogo Clemente. É demasiado difícil descrever todos estas forças da natureza, temos muita cumplicidade uns com os outros.

 

 

 

Quais foram os maiores desafios em todo o processo de gravação?

Foi cantar em estúdio, são entregas diferentes mas depois o resultado final é incrível. No entanto, o processo são muitas horas mas são produtivas, foram momentos intensos de fado no estúdio 6.

 

 

 

Hoje peço que me entendas”, em ‘Hoje’ (Diogo Clemente/Fado José António sextilhas- José António Sabrosa). Sente-se compreendida enquanto artista?

Sim! Sou uma fadista desta geração com alguma bagagem de fado. Acho que enquanto fadista o caminho é cantá-lo sempre o resto da vida. Quem me conhece sabe o que sou e como o vivo.

 

 

 

Quando actuou no CCB, tive oportunidade de escrever sobre esse espectáculo. Passado este tempo, gostava que falasse sobre esse espectáculo e também a sua opinião.

O concerto do CCB serviu-me para fechar um ciclo na minha vida, coisas boas se aproximavam e eu queria fechar o ciclo com um concerto com temas que fizeram parte do meu caminho até ali. Foi uma noite muito especial, com pessoas muito especiais.

 

 

 

Como analisa o actual momento do Fado com várias jovens a querer cantá-lo?

Como tenho dito, fico sempre feliz de saber que há jovens que gostam do fado, é sempre uma grande mais valia para o fado.

 

 

 

Sente que o Fado tradicional está em perigo com as constantes fusões que estão a ser feitas?

Quem ouve fado e quem vai ao fado sabe quando ele acontece, o fado está na voz antes de estar nas fusões. E nós do fado sentimos o fado de várias maneiras, mas acredito que sempre com muito respeito. O fado não morrerá jamais.

 

Em termos de redes sociais, dedica muito tempo? 

Dedico algum tempo sim, hoje temos oportunidade de realçar o nosso trabalho e tudo aquilo que fazemos: os nossos espetáculos, entrevistas, etc. Uso-as muito para me promover enquanto fadista.

 

 

 

Onde pode o público interagir consigo? É a Sara que gere as suas redes sociais?

O público pode interagir comigo pelas minhas redes sociais, tanto no Facebook como no Instagram, pode sempre contactar-me por esses meios.

Quem é a Sara fora do palco e o que gosta de fazer?

Gosto de ouvir música e de ler. Também gosto muito de estar em casa descansada quando tenho uma folga, é onde recarrego as minhas baterias. A Sara enquanto é amiga do meu amigo e gosta muito de conviver com os meus amigos e família. Sou fascinada pela vida, gosto de quebrar regras quando é necessário. Gosto muito de ser jovem, gosto de ajudar, de ouvir e aprender.

 

 

 

Neste disco recupera alguns clássicos. Quem são as suas grandes referências no Fado e porquê?

Eu tenho várias referências, e na verdade é difícil escolher, mas diria que a D. Beatriz da Conceição, D. Fernanda Maria e D. Lucília do Carmo, são enormes fadistas e referências. Menciono também o Fernando Maurício, o Carlos Zel, o Tony de Matos e o Francisco Martinho, pois todos eles têm o seu estilo próprio e genuíno que aprecio. Mas há muitos outros fadistas que podia mencionar aqui, muitos outros. 

 

Em termos de espectáculos para apresentar o disco, o que já pode revelar?

Quero muito que seja surpresa, mas posso revelar já que é no início do novo ano de 2019! Irei anunciá-los brevemente nas minhas páginas, estejam atentos! Quero muito partilhar com vocês.

 

 

Alguma sala na qual queira muito actuar? 

Eu gosto muito de cantar, seja em que sala for, mas sendo eu de Lisboa, escolho o Coliseu de Lisboa. Sendo eu alfacinha de gema, tenho uma paixão muito grande pela minha cidade, não podia deixar de falar nesta sala.

 

 

Qual a mensagem que deixa aos leitores do Infocul? 

Espero por vocês nos meus concertos, prometo que deixarei a minha alma e o meu coração em todos eles. E um enorme obrigada por gostarem de fado! [gesto de coração]. Um beijo da fadista Sara Correia.

 

 

 

 

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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