Sérgio Tréfaut sobre ‘Raiva’: “É um misto de Western com filme negro. Mas também é um filme importante para compreender a realidade social e a história de Portugal no século XX”.

Estreia amanhã, 31 de Outubro, o mais recente filme de Sérgio Tréfaut, “Raiva”. O realizador concedeu uma entrevista ao Infocul no qual desvenda um pouco daquilo a que o público poderá assistir nas salas de cinema portuguesas.

Rodado inteiramente no Alentejo, Raiva conta com as interpretações de Isabel Ruth, Leonor Silveira, Luís Miguel Cintra, José Pinto, Adriano Luz, Kaio Cesar, Diogo Dória, Catarina Wallenstein e Rogério Samora. O filme conta ainda com as participações especiais do catalão Sergi López, no papel do contrabandista, e de Herman José, no papel de padre. Destaque ainda para a participação de Lia Gama, num papel que serve de homenagem a Nicolau Breyner, que integrava o elenco original do filme, mas que acabaria por falecer na véspera das filmagens. 

O filme é protagonizado por um não-actor, Hugo Bentes, natural de Serpa, escolhido pela proximidade que tem com a história, com a região, e sobretudo pelo orgulho com que encarna a personagem. Hugo Bentes foi jogador de futebol, tem preparação militar, é músico e faz parte de grupos corais alentejanos. Participou como cantor no documentário Alentejo, Alentejo de Sérgio Tréfaut. 

 

 

 Quando é que este projecto começou a fazer sentido para si realizar?

Quando preparava “Alentejo, Alentejo” um documentário sobre o Cante e sobre a identidade alentejana. Várias pessoas disseram-me que para perceber o Alentejo profundo, ancestral, teria de ler “Seara de Vento”…

 

 

 

Raiva” é baseado na “Seara do Vento”. Qual a sua opinião sobre o livro e o que o fascinou na obra de Manuel da Fonseca?

Seara de Vento” é um dos grandes romances portugueses do século XX. Simultaneamente um western e um épico, com um enredo de cinema clássico. Só que os anos 50 permitiam uma esperança romântica e um apelo confiante na mudança, que hoje é diferente.   

 

 

Como foi a escolha do elenco?

Tudo começou com uma identificação na leitura de Amanda Carrusca a Isabel Ruth, grande actriz do cinema português. Depois, pensei que o herói do filme deveria ser interpretado com alguém como Javier Bardem. Não tendo meios para isso, encontrei em Portugal um não-actor com o mesmo carisma, a mesma fotogenia (ou mais) e que interpreta o papel melhor que Javier Bardem o teria feito, certamente! Foi muita sorte, muito trabalho e muito talento do Hugo Bentes. Falar de todo o elenco é muito difícil. São cerca de 20 actores extraordinários. Cada um foi escolhido por intuição e desejo: Leonor Silveira, no papel mais contrastante e inesperado da sua carreira. Grandes actores de teatro e de cinema: José Pinto, Adriano Luz, Lia Gama, Diogo Dória, Rogério Samora. Participações especiais como Sergi Lopes, Luís Miguel Cintra e até Herman José! Jovens actores poderosos. E muitos não actores à mistura, para não falar dos figurantes locais – que interpretam com uma verdade única. Há um caso muito particular: o da criança, Kaio Cesar, outra revelação. Dizem que é dificílimo filmar com crianças. Quem dera filmar filmes inteiros com o Kaio!

 

 

 

O Hugo Bentes, na minha opinião, acaba por ter um desempenho extraordinário. Superou as suas expectativas, tendo em conta que o Hugo não é actor?

O Hugo, além de disciplina, humildade e muito talento, tem algo que não passa pela sua própria vontade. Tem o que no cinema se chama “star quality”. Os grandes planos dele são como os dos monstros do cinema. Como Brando ou Loren. E ele nunca é falso. Nunca é excessivo. Poderia dizer que nasceu uma estrela, mas não há nenhuma garantia que lhe proponham papeis certos e que o filmem bem. Tudo isso conta. O Hugo interpretou um grande papel neste filme, mas não creio que o chamem para ir representar Shakespeare no teatro. Quem sabe, alguém lhe proponham um papel de Stanley numa adaptação de “Um elétrico chamado desejo”. Ele faria muito bem.

 

 

Como tem sido a reacção do público ao filme?

No Alentejo a reacção é extremamente emotiva. No Brasil, o filme tem sido visto como de grande actualidade. Na estreia mundial no Festival de Moscovo, onde recebeu dois prémios, aquilo que mais me surpreendeu foram pessoas de todos os países a identificarem aquela realidade com a realidade de seus próprios países: “Isto é a Grécia”, “Isto é o sul de Itália”, “Isto é a Geórgia”… Outros dizem que parece cinema mexicano… Estou muito curioso por saber como reagirá o público dos cinemas portugueses.

 

Qual o orçamento total do filme?

O filme é uma co-produção Portugal-Brasil-França com um total de financiamento de um milhão duzentos e cinquenta mil euros, entre os três países.

 

 

 

 

Depois de “Alentejo, Alentejo”, agora apresenta “Raiva”. O Alentejo é fonte inesgotável de inspiração?

A minha fonte de inspiração são as pessoas e as suas histórias.

 

 

Neste filme retrata a luta pela sobrevivência, a diferença entre ricos e pobres. Mas destaco ainda a componente emocional. Podemos dizer que este filme é emocionalmente muito forte?

Este filme retrata um momento em que não há possibilidade de existir lutas sociais, ou conflitos sociais explícitos porque não são autorizados. Em alguns lugares e situações estamos voltando a essa realidade. E é uma situação que gera a Raiva. Tudo pode explodir.

 

 

Como amante de cinema, convido a descrever este filme com a imparcialidade possível.

Descrever, não descrevo. O espectador tem de ver. É um misto de Western com filme negro. Mas também é um filme importante para compreender a realidade social e a história de Portugal no século XX.

 

 

Qual a mensagem que deixa aos leitores do Infocul?

Que vejam o filme com os seus próprios olhos. É importante para compreender a história do país, em particular do Alentejo, e é uma experiência cinematográfica.

 

Partilhar
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  

Notícia publicada a 30/10/2018


About the author /


Post your comments

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

_