Serpa acolhe, com o Festival Terras sem Sombra, a primeira ópera produzida e construída no Baixo Alentejo

Serpa acolhe, com o Festival Terras sem Sombra, a primeira ópera produzida e construída no Baixo Alentejo, com “Onheama”, de João Guilherme Ripper.

No ano em que celebra a 12.ª edição, o Festival Terras Sem Sombras apresenta uma ópera infanto-juvenil com uma mensagem ecológica, tendo como pano de fundo a temática amazónica, mas remetendo para uma perspectiva mais alargada, pois os problemas que afectam a natureza não conhecem fronteiras. “Onheama”, a famosa ópera em três actos de João Guilherme Ripper, sobe à cena no Teatro Municipal, em Serpa, a 21 e 22 de Maio, às 21:30 e às 16 horas.

 

 

Inspirada no poema “A Infância de Um Guerreiro”, de Max Carphentier, “Onheama” significa eclipse em língua tupi. A mitologia dos povos indígenas de algumas das principais regiões da Amazónia interpreta o eclipse como a acção maléfica de Xivi, a terrível onça celeste, que devora Guaraci, o Sol, e, insaciável no seu afã consumidor, sai depois à caça das estrelas e de Jaci, a Lua. No dia em que Xivi conseguir engolir tudo o que reluz no céu e saciar a sua fome tremenda, o mundo acabará. Somente um guerreiro corajoso e de coração puro como Iporangaba poderá salvar a Amazónia e o planeta (que dela depende) do terrível monstro. Por fim, triunfa a luz; triunfa, afinal, a própria vida. A peça de João Guilherme Ripper, um dos mais importantes autores musicais brasileiros dos nossos dias: compositor, director de orquestra, professor e presidente da Fundação Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Estreou a ópera em 2014, no Festival Amazonas, de Manaus, com grande êxito, e foi reposta no ano seguinte, atingindo, de novo, enorme sucesso. Faz já parte da história do célebre Teatro Amazonas e agora chega à Europa.

 

 

A parceria na realização do espectáculo com o Teatro Nacional de São Carlos e o Município de Serpa sublinha ainda mais o repto desta aventura musical, que conta com o envolvimento da comunidade artística e educativa local, com destaque para o Grupo de Teatro da Escola Secundária de Serpa, (En)cena, e a escultora Margarida de Araújo.

 

 

A ópera foi construída localmente. A encenação é da responsabilidade de um dramaturgo argentino que trabalha em Portugal, Claudio Hochmann. A cenografia e os figurinos devem-se a Miguel Costa Cabral que, tal como os outros produtores, tem vivido nos últimos meses em Serpa. A coreografia foi concebida pelo criador cubano Yonel Castilla, também muito activo no meio artístico português. Os figurinos são elaborados pelaOficina do Traje, uma academia sénior que já produziu os trajes para o corso histórico e etnográfico da cidade. Quanto aos cenários e adereços, serão construídos nas oficinas da Câmara Municipal e em pequenas empresas da região. Entre os protagonistas, mais de centena e meia de pessoas, incluindo dispositivos do Coro do Teatro Nacional de São Carlos, do Coro Juvenil do Instituto Gregoriano de Lisboa e da Orquestra Sinfónica Portuguesa, a que se juntam crianças e jovens das escolas de Serpa. A direcção musical corre a cargo do reputado maestro brasileiro Marcelo de Jesus e o elenco dos solistas reúne algumas vozes de referência da cena operática do nosso país: Carla Caramujo, Inês Simões, Marco Alves dos Santos, Nuno Pereira e Carolina Andrade. A incorporação dos produtos locais constitui outra das prioridades do Festival Terras sem Sombra. No caso de “Onheama”, tudo gira em torno do sobreiro, a árvore nacional portuguesa, e da cortiça, visto o montado constituir uma das principais riquezas do Baixo Alentejo. De cortiça são o Sol e a Lua que presidem a momentos-chave da acção dramática; e a mesma matéria-prima, aclimatada a outras geografias e a outros contextos culturais, encontra-se presente em toda a cenografia, o que é uma forma de a universalizar.

 

 

Entretanto, enquanto se aguarda a sua apresentação no Alentejo, a ópera “brasileiro-alentejana” parece fadada a nascer com boa estrela: algumas dezenas de melómanos estrangeiros já reservaram alojamento na zona e jornalistas de alguns dos principais meios de comunicação social de Brasil, Espanha e Itália solicitaram acreditações.

 

 

Do imaginário universal da Amazónia parte-se, na manhã de domingo, dia 22, para uma acção de salvaguarda da biodiversidade dirigida à Serra de Serpa, ao microclima de Limas e ao acidente geológico do Pulo do Lobo, no Parque Natural do Vale do Guadiana. A interpretação geomorfológica dos locais visitados e a busca de vestígios milenares da presença humana gravados na rocha e de crustáceos contemporâneos dos dinossauros são algumas das coisas que os participantes vão poder fazer.

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