Syro: “ Como artista, honestamente, acho que nunca estive tão organizado e tão produtivo como agora”

D.R.

O músico Syro concedeu uma entrevista ao Infocul.pt, em pleno período de isolamento social e Estado de Emergência, na qual aborda os cancelamentos de espectáculos, a forma como está a encarar este período excepcional na nossa história e ainda a forma, totalmente inesperada e imprevisível, como estamos a (re)aprender a viver.

Syro, começo por questionar como está a ser vivida esta fase de pandemia e qual o estado emocional que isto provoca em si, enquanto cidadão e enquanto artista?

Com muita calma, principalmente porque vivemos um período de muita tensão, tanto a nível social como a nível pessoal e individual – as pessoas não estão de todo habituadas nem preparadas para, sem aviso e de repente, terem de se isolar dentro de quatro paredes durante tempo indeterminado. E isso pode igualmente mexer com a saúde mental de cada um. Por isso é que desde o início que faço e recomendo às pessoas a manterem-se activas e em luta constante contra o fácil sedentarismo – obriguem-se na mesma a ter bons horários de sono, uma boa alimentação, horas determinadas para trabalhar, para exercício físico (que é possível em casa, desenganem-se!), para o lazer, etc. Se têm um quintal, uma varanda, uma janela, exponham-se ao sol, apanhem ar na mesma. Mas acima de tudo olhem para toda esta situação como um esforço colectivo e necessário para que juntos a ultrapassemos. Como artista, honestamente, acho que nunca estive tão organizado e tão produtivo como agora. Felizmente consegui centralizar todo o meu trabalho para o meu ´work spot´ a partir de casa e já não perco tempo a saltar de estúdio em estúdio, em deslocações, em trânsito, etc. Tenho sim é muita vontade e saudades de pisar palco novamente, mas tenho a certeza que em breve, e se todos rumarmos na mesma direcção, os concertos retomarão e as nossas vidas também.

 

Uma das situações mais abordadas ultimamente tem sido a precariedade da classe artística e o facto de os agentes do meio cultural terem ficado com o seu trabalho todo cancelado (ou adiado em alguns casos…). No caso de Syro, quantos concertos teve cancelados ou adiados e qual o prejuízo financeiro para já?

É uma realidade. Todos nós estamos a ser afectados pela necessidade de nos isolarmos e adiarmos/cessarmos a nossa actividade. E no nosso caso em particular que vivemos em grande parte das receitas de concertos, nós músicos, técnicos e engenheiros, roadies, agentes, entre muitos outros envolvidos na produção de um espectáculo de música ao vivo, estamos a atravessar um deserto sem qualquer tipo de garantias e com muita dificuldade de subsistência. No meu caso em particular ainda é difícil precisar o prejuízo até à data, visto que a maioria do meu trabalho ao vivo está agendado e focado nos eventos de verão e em diante. Portanto só me resta esperar e querer muito que tudo retome à normalidade antes deste período em que as festividades são de maior afluência. Fiquem em casa, o isolamento é a única solução – agora, ou mais tarde em escala maior, pior e com mais consequências.

 

Em termos discográficos ou de lançamento de singles houve também algum reagendamento, face ao inicialmente previsto?

Pelo contrário. Como disse, nunca tive tanto tempo para me focar “apenas” na criação e composição de música. Portanto é bem provável que até saia música nova antes do previsto.

 

Vários colegas têm feito showcases em directo nas redes sociais. O que pensa sobre isto e pergunto se irá também aderir a esta acção?

Acho muito bem. Nós, que nos fazemos valer das nossas valências artísticas, temos quase o dever de contribuirmos para o bem maior e social. No fim de contas é para isso que fazemos o que fazemos: para ocupar um espaço positivo na vida das pessoas, para as transportarmos para um sítio melhor ou transmitirmos sensações. E espero que as pessoas cedam um bocadinho do seu tempo de pensamento para avaliarem e reconhecerem a importância que a arte tem no seu dia-a-dia, que existimos em praticamente todas as realidades do quotidiano e que sem nós muita coisa não faria sentido ou seria até insuportável. Mas apelo também aos artistas para se reinventarem e serem exactamente aquilo que são: criativos. O facto de um directo nas redes sociais ser uma ferramenta acessível a todas as faixas etárias e género de pessoa fez também com que esta possibilidade fosse saturada ao extremo. Nada contra o entretenimento virtual, muito pelo contrário e eu próprio faço questão de o fazer e manter viva a minha relação com quem gosta de me ouvir, mas sejam criativos, não façam todos a mesma coisa – pensem, inovem! Somos artistas. Costumo dizer que adoro arroz, mas comer arroz todos os dias não tem piada nenhuma.

 

A título pessoal, isto fê-lo pensar em alguns valores ou acções mais específicas?

Sim. Dou por mim a lembrar e desejar pequenos gestos ou momentos que antes eram tomados como garantidos, como o simples facto de ver um amigo, ir ao cinema, passear e apanhar sol, e que agora não podem acontecer.

 

Acha que as pessoas passarão a valorizar as coisas simples, de forma mais regular e não apenas em situações excepcionais?

Sem dúvida. Apesar de toda esta situação negra e cheia de contras, eu também consigo pensar em alguns prós. O planeta, por exemplo, tornou-se em pouco tempo um sítio mais agradável de se habitar e acredito que as pessoas irão valorizar e dar mais relevância às pequenas coisas, desde a questão inter-relacional à questão material.

 

Em termos culturais, teme que maior parte dos artistas, produtoras e demais agentes possam não conseguir aguentar?

Eu faço muita questão de querer acreditar na inteligência colectiva, desde o singular cidadão à massa social, e quero depositar a minha confiança em quem nos representa no que toca a decisões governamentais. E como tal quero também igualmente acreditar que todos juntos encontraremos uma solução funcional para o nosso sector de actividade.

 

Durante esta pandemia, e dado o actual estado de emergência, houve alguma situação que destaque ou que tenha presenciado e queira chamar a atenção?

Aproveito novamente para apelar ao bom senso comum, principalmente àqueles que se insistem “intocáveis” por este vírus – alguns podem, de facto, apanhar o vírus e facilmente recuperar, mas o vosso vizinho, os vossos amigos, irmãos, pais, avós, podem não ter a mesma sorte ao terem contacto convosco – não pensem em vocês como um terminal, mas sim como um veículo disseminador da doença. Fiquem em casa.

 

As redes sociais assumem papel de destaque nesta fase. Está a dedicar mais tempo a elas? Onde poderá o público interagir consigo?

Claro, por mim e pelos que estão também do outro lado. É a altura perfeita para se ser original e as redes sociais são a melhor ferramenta ao nosso dispor para estarmos juntos, separados. Conseguem encontrar-me em qualquer rede social se pesquisarem por SYRO, ou pelo nickname @syromusic.

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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