SYRO: “Tudo só tem a relevância que nós lhe dermos”

 

 

SYRO é o nome artístico de Diogo Lopes e um dos nomes a quem se augura longa e fértil vida na música portuguesa. O músico, autor e compositor concedeu entrevista ao Infocul na qual se dá a conhecer.

Da infância na qual criou ligação à música de Phil Collins até ao seu percurso artístico no qual co-fundou os Caelum e participou em outros projectos até chegar agora ao seu projecto a solo a que deu nome de SYRO, tudo é passado em revista numa entrevista na qual ressalta a maturidade invulgar para a tenra idade. Sabia que SYRO escreveu um livro e 140 páginas aos 11 anos? Esta e mais revelações para ler nesta entrevista.

O músico revela ainda um cuidado que tem sempre antes de subir a palco. Uma entrevista para ler com atenção, a um os músicos que marcará a música portuguesa.

 

 

Quando nasce o gosto pela música?

Eu e a música sempre tivemos uma relação harmoniosa e sinérgica. Existem vídeos meus nos meus tenros 2/3 anos de idade a dançar, cantarolar e a bater em tudo o que pela vista me passasse, ao som de qualquer coisa. Mas lembro-me de ser ainda criança e o meu pai me oferecer o seu walkman de quando era mais novo. Com ele veio uma só cassete, que incluía apenas um tema: “In The Air Tonight”, do mítico baterista e cantor Phil Collins. Devorei essa cassete durante horas, dias e meses seguidos, despertando o meu interesse para tudo o resto que o meu pai me decidisse alimentar musicalmente. Anos mais tarde, quando tinha eu os meus 11/12 anos, levou-me a ver o concerto dos The Musical Box, banda tributo oficial aos Genesis. E foi ao ver a personificação do meu já ídolo e referência musical Phil Collins na bateria que tudo mudou: decidi começar a aprender o instrumento, estudar música e tudo o resto que culminou no dia de hoje.

 

 

O que ouvia em miúdo?

Restringir-me a um só género musical nunca fez parte de mim. Sempre procurei e consumi um pouco de tudo. Em criança consumi todo o Pop que naquela altura era trendy, como Avril Lavigne, Backstreet Boys, Blue; depois, para além de tudo o que em casa me davam a ouvir, tive a minha fase punk-rock/pop-punk onde consumi bastante Blink-182, Linkin Park ou Thirty Seconds to Mars; tive também a minha fase metaleira/emo, onde gostava muito de bandas de metalcore como August Burns Red, As I Lay Dying e passei grande parte da minha adolescência em salas de música underground. A certo momento decidi investir em mim e na minha educação como instrumentista (na bateria) e comecei a estudar jazz. Frequentei diversas escolas de música, workshops e masterclasses e, consequentemente, a parte erudita do meu gosto musical também se refinou com o passar dos tempos. Mais tarde acabei inclusive por me licenciar em Jazz e Música Moderna.

 

 

Os gostos musicais foram-se alterando ao longo do tempo?

Naturalmente, e como em tudo na vida, à medida que vamos sendo expostos a novas realidades (neste caso, musicais), também nós nos tornamos curiosos por descobrir alternativas. Consumi e consumo de tudo a nível musical, mas não gosto de dizer que o que ouvia no passado lá ficou – volta e meia ainda me sabe bem sentir a nostalgia e ouvir tudo aquilo que me fazia vibrar até então.

 

 

Há algum género musical que tenha mais dificuldade em ouvir? Qual?

Não me recordo de nenhum género musical em particular que me seja mais difícil de ouvir. Existem sim canções com as quais não me consigo conectar, mas não as coloco num só género musical. Acima de tudo, e principalmente no panorama Pop em que é difícil divergir da típica receita composicional, se sentir que o artista não me está a presentear com algo novo ou fresco, se não conseguir identificar o ADN que o distingue dos demais, ou se a plasticidade do conteúdo da canção for demasiado evidente, provavelmente o meu interesse em ouvir não será o maior.

 

 

Como surge o livro de 140 páginas, escrito aos 11 anos, e o que retratava?

Desde novo que a minha imaginação se mostrou fértil e a minha predisposição para criar grande. Sempre me mostrei fã de livros e cinema e as obras que surgiram na minha infância, como Harry Potter, Senhor dos Anéis ou Crónicas de Spiderwick, deram asas à minha imaginação. Senti a necessidade de ter a minha própria história de magia e ficção e, sem pretensões, comecei a escrever. Criei enredos com espaço para trolls, dragões e criaturas mágicas e arranjei nomes para 3 personagens principais que que me personificassem a mim e aos meus dois melhores amigos de infância: Alex (do meu segundo nome, Alexandre), Pete (do meu grande e de longa data amigo Pedro) e Xande (de José Alexandre, o meu primo direito). Lembro a excitação de saber que podia criar algo só meu, sem regras nem limites criativos. Hoje tenho a sorte de poder dizer que faço o mesmo mas em canções.

 

Qual a ligação e importância que Phil Collins tem no seu percurso?

O Phil Collins foi e ainda é, sem dúvida, uma referência a nível musical para mim. Um génio dos seus tempos e um instrumentista único. Curiosamente trilho agora um percurso semelhante, da bateria para a voz.

Guitarra ou bateria?

Bateria.

 

Quais os maiores desafios até agora?

A nível pessoal e algo que provavelmente (quase) ninguém sabe, não por esconder mas pela falta de relevância, é que aos 7 anos de idade me diagnosticaram com diabetes tipo 1, insulinodependente. Não o considero propriamente um desafio até porque não conheço outra realidade desde tenra idade. É-me algo natural. Mas existe desde sempre a preocupação extra antes de pisar um palco de garantir que a glicémia me permite fazer um concerto de uma a duas horas sem interrupções ou percalços.

Todo o percurso inicial como baterista do meu ex-projecto Caelum também foi desafiante. Relembro um verão em que a nossa fome de concertos era gigante, ainda éramos uma banda independente e a equipa técnica na estrada inexistente. Decidimos marcar o máximo de datas possível, a abrir o máximo de bandas de relevância nacional possível, onde ou íamos sem cachet ou com cachet mísero que nem sempre dava para as despesas, tudo isto com um só propósito: fazer chegar o nosso nome à boca do povo e conquistar o público das bandas que abríamos para que nos seguissem também. Foram cerca de 40 datas num só verão, onde corremos o país de norte a sul e saímos para Espanha, eu a conduzir o meu carro cheio até cima de material e o vocalista a conduzir o dele, nas mesmas condições. O processo passava pelo meeting point matinal no nosso estúdio, carregar todo o nosso backline, beber o Redbull de ritual e seguir viagem para o recinto numa qualquer cidade ou vila do país. Chegar, descarregar, montar tudo sem qualquer auxílio, muitas vezes sem grande tempo para soundcheck ou jantar, visto sermos banda de abertura na maioria dos casos, tocar, desmontar tudo novamente, carregar os carros e retornar ao estúdio horas depois para descarregar o backline. Só depois e já com o sol a nascer, muito perto da hora a que nos encontrámos no dia anterior para a aventura, é que conseguíamos ir descansar. Relembro também que este foi o mesmo verão em que nos fechámos em estúdio durante um mês a gravar o nosso primeiro disco e lá morámos nesse período. Folgávamos apenas para poder ir tocar. Se me arrependo? Nada de nada e muito menos me queixo. Faz-me valorizar todo o meu trajeto até aos dias de hoje e voltava a fazer tudo novamente, por eles ou por mim como SYRO.

Neste meu projeto atual, SYRO, algo que me desafia nos dias de hoje é a escrita das minhas letras. Porque não quero mesmo cair na plasticidade ou falta de conteúdo lírica e, fazendo música Pop, esse é um desafio a dobrar. Gosto de letras refinadas, mas é desafiante fazê-lo através de palavras que todo o tipo de ouvinte, do mais atento ao mais distraído, do mais instruído ao mais leigo, consiga entender.

 

 

Para quem não o conhece, como descreve e resume o seu percurso?

Comecei como baterista; co-fundei os Caelum; comecei a sentir necessidade do meu próprio espaço de expressão; assumi o microfone e criei o SYRO. Até à data tenho 2 singles disponíveis, “Deixa Passar” e “E Agora” e estou de momento a fechar o meu primeiro álbum.

 

 

SYRO é o nome artístico. O que significa e como surgiu?

SYRO é uma espécie de camisola que o Diogo veste para se poder apresentar a si e às suas canções. É a assinatura por baixo das mensagens que quero passar. Era também o nome do meu cão, que em vez de SYRO se escrevia Cyro, e que decidi adoptar pela necessidade de um nome artístico.

 

 

‘Deixa Passar’. O que significa este tema e qual a mensagem?

O “Deixa Passar” é uma espécie de diário pessoal que tornei público e que remonta a um período em que me vi submerso em alguns problemas e constrangimentos. É a consciencialização de que tudo só tem a relevância que nós lhe dermos e que, por muito difícil que nos seja ver a luz ao fundo do túnel, eventualmente tudo passa e ganha a sua leveza natural com o passar do tempo.

 

 

Está a preparar o disco. O que já pode e quer revelar?

É verdade, estou neste momento em estúdio a acabar a composição e escrita do meu primeiro álbum. Não me sinto forçado com timings de release, visto ser a minha primeira obra de longa duração. Quero realmente que saia à minha imagem, mas talvez haja novidades acerca deste assunto para os finais de 2019. Sem promessas. No entanto, e se forem muito ansiosos, passem pelos meus concertos – felizmente já tenho algumas datas marcadas para este ano (a divulgar nas redes sociais assim que possível) e um concerto não se faz apenas de 2 singles. Portanto quem sabe se não conseguem ouvir qualquer coisa em primeira mão.

 

 

Em termos de redes sociais, onde pode o público interagir consigo?

No Instagram encontram-me através do nickname @syromusic. No YouTube a mesma coisa. Nas restantes redes sociais basta pesquisarem por SYRO e facilmente me encontram. Tenho por norma ler tudo o que me escrevem, em comentários ou mensagens directas, portanto não se acanhem. Interajam comigo!

 

 

Dedica muito tempo às redes sociais?

Bastante. Às vezes mais do que queria, na verdade. Mas é inegável que vivemos na era digital e que estas são ferramentas poderosíssimas e propulsionadoras do nosso trabalho, portanto já encaro como mais um “must do” da minha profissão.

Costuma receber piropos?

Da mais nova à pessoa de mais idade, mas mais nas redes sociais.

 

 

Qual a mensagem mais peculiar que recebeu?

Sem querer mencionar nenhuma mensagem em particular, admito que fico ligeiramente chocado com algumas das coisas que recebo. Felizmente e pelo feedback que tenho vindo a receber, a minha música consegue abranger desde um público mais novo na sua pré-adolescência até aos maduros 50’s. E como tal recebo mensagens de todo este leque de faixas etárias. Já recebi mensagens com palavras que não sabia fazerem parte do dicionário de meninas/os de 13/14 anos, como também recebo com alguma frequência tentativas de assédio de pessoas com a idade da minha mãe. Eu tento responder a tudo o que me chega, porque faço questão de manter contacto directo com quem admira o que faço, mas por vezes a melhor solução é mesmo deixar sem resposta. Por respeito.

 

 

Quais os objectivos que tem para a sua carreira?

Acima de tudo fazer com que o meu trabalho chegue ao máximo de pessoas possível, que estas se identifiquem com o que tenho para dizer e conquistar um lugar respeitável nesta indústria musical, pela diferença.

É possível definir a sua música? Como a descreve?

Frontal e sem receio de tocar em feridas, muitas vezes as minhas feridas. A nível de produção procuro sempre a sinergia perfeita entre sons orgânicos e acústicos, muitas vezes através do sampling, e as opções fresh que o digital tem para nos oferecer. A nível conceptual, costumo dizer que os artistas/autores/criadores têm o dever de colocar honestidade no que fazem, porque esta é, a meu ver, a maneira mais válida de conquistar a empatia de quem consome e aprecia. E é nesse sentido que costumo orientar a minha lírica.

 

 

Qual a mensagem que deixa aos leitores do Infocul?

Se ainda não tiveram oportunidade de ouvir o meu trabalho, Give it a try. Let me know what you think. Encontrem-me nas redes sociais se quiserem saber mais sobre mim, o meu dia-a-dia, a minha música e onde me encontrar em futuros concertos. Se já conhecem e são um dos que me suportam desde o início, muito obrigado. São vocês que me dão a oportunidade e vontade de continuar a fazer o que faço.

 

Texto e Entrevista: Rui Lavrador
Fotografia: D.R.

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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