Terras Sem Sombra: Uma luz do Alentejo profundo já de olhos postos em 2018

Santiago do Cacem

 

O Festival Terras sem Sombra concretizou no passado fim-de-semana, o terceiro em oito de programação, o terceiro espectáculo e respectivas acções de observação de património histórico e acção de biodiversidade, em Santiago do Cacém.  O Infocul falou com o director geral do festival, José António Falcão sobre um primeiro balanço desta edição e desvendando um pouco do que será a próxima, a ocorrer em 2018.

 

 

 

Em Santiago do Cacém, usando uma expressão aprendida com a directora executiva do festival, fomos abençoados com “ouro do céu”, como quem diz chuva. Mas isso não impediu que na manhã e domingo plantássemos sobreiros, visitássemos as ruinas do Convento do Loreto, sito em pleno caminho de Santiago, e se experienciasse uma das grandes vantagens deste festival: uma interacção informal, genuína e franca com as gentes e as estórias desta localidade, como aliás tem acontecido a cada fim-de-semana, por onde o festival tem passado.

 

 

 

Ao invés de vários festivais, onde impera a formalidade e até pelo estilo musical neste praticado, no Terras a formalidade é tão natural que se torna informal, salve a redundância. Mais que a história do património de cada localidade, mais que os concertos e mais que a biodiversidade, não podemos esquecer as estórias das gentes que directa e indirectamente se cruzam com a nossa. No Terras, as sombras tornam-se em luz no que ao relacionamento humano diz respeito, a quem visita este festival. É uma família que cresce, que e respeita e que respeita o festival e a sua essência. Este Festival consegue andar em equilíbrio constante num limbo, entre o passado e o futuro, o antigo e o contemporâneo. O Festival tem mantido um esforço em dar a conhecer o Alentejo profundo, projectos de empreendedorismo e de amor à terra. No passado fim-de-semana descobrimos um pouco da Herdade do Cebolal, já premiada pelos seus vinhos. Um projecto familiar que cresce fruto do esforço e empenho de uma família unida.

 

Santiago do Cacem
Santiago do Cacem
Santiago do Cacem
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Santiago do Cacem
Santiago do Cacem

 

O Terras sem Sombra está a atingir os objectivos, penso até que os está a superar, conseguiu-se algo que para nós é essencial que é o envolvimento da comunidade local, das instituições e dos próprios serviços descentralizados do Estado, e de um público que vem de fora, sendo nacional e internacional. Portanto, a caminhada está a decorrer de acordo com o previsto, temos um itinerário que está sinalizado, temos vindo em todas estas etapas conseguido somar pontos, pontos que são antes de mais para a região e para o território. O nosso objectivo é antes de mais esse. Depois, pontos também para o património cultural, não nos podemos esquecer que muitas destas igrejas permaneceriam fechadas e inacessíveis, muito provavelmente entrando em degradação e não haveria maneira de recuperarmos, e por outro lado, estas acções de biodiversidade, umas mais fáceis e outras mais difíceis, mas que estão a surtir efeito”, revela-nos José António Falcão quando questionado se esta edição está a superar as expectativas.

 

 

Sobre a aceitação do público à programação deste ano, refere que “O Terras sem Sombra vive num equilibro entre aquilo que são as suas grande páginas do passado, algumas das quais são claramente easy music, porque corresponde a algo que já está mais enraizado, já está mais conhecido, mas a par disso, há lugar à criação contemporânea como tivemos possibilidade de ver ontem [nota: concerto a 25 de Março com Brentano String Quartet], os grandes mestres do Séc XX e alguns que se prolongam até pelo Séc XXI adentro. A nossa ideia é que o público que está a acompanhar esta evolução percebe que há aqui uma ideia de explanar a história da música e como algo pedagógico, mas não olho a isso como uma aula muito formal, bem pelo contrário, pois disfruta da música e até aceita este desafio de ouvir peças que nos interpelam. Portanto são claramente diferentes. No entanto há aqui um aspecto que me parece muito interessante que é o facto de alguns compositores já estamos a fazê-lo em anos consecutivos isto significa que há uma certa coerência de programação, uma coerência de fundo, que aliás tem ultrapassado mais que um director do Terras sem Sombra”.

 

 

E se a edição de 2017 viaja em ritmo cruzeiro, a de 2018 está já a ser pensada. “A programação está a ser pensada, tem alguns marcos orientadores, quer do ponto de vista do programa especifico que é o repertório que vamos procurar cobrir, mas sobretudo o público. Aqui a ligação ao público é um bocadinho a pedra de toque deste festival. Cada nova edição queremos que seja um capitulo novo na grande história da música, e que as pessoas tenham acesso nestas localidades um bocadinho afastadas dos grandes centro culturais e artísticos, a uma programação que tem uma orientação internacional, claramente. Não abdicamos disso, não abdicamos da qualidade e não abdicamos de dar palco a experiências que são diferentes”.

 

 

Entre estas diferenças poderá ser incluído o cante alentejano na programação, até porque “O cante é uma das nossas paixões, é algo que assumimos, vamos continuar a trilhar esse caminho, umas experiências que são mais conseguidas, outras menos, mas o objectivo passa por mostrar o cante que por um lado tem o seu caminho clássico, bem estabelecido, um conjunto de obras que já se tornaram icónicas, mas por outro lado abrir caminho a algumas experiências mas sempre numa linha fiel à tradição. Esta ideia da fusão tem que ser encarada com grande seriedade pois pode dar disparate. Por outro lado eu penso que já há neste momento suficiente massa critica para que o cante voe sozinho sem ter que ir nas asas ou à boleia de grandes intérpretes”, refere o director geral do festival.

Ainda não está decidido qual o país convidado do próximo ano, mas “estamos em negociações com três países, todas elas muito aliciantes, todos eles da nossa área cultural, embora dois deles nos obriguem a ultrapassar o Atlântico, vamos ver depois no concreto como conseguimos ajustar o nosso programa em termos de grupos que tenham agenda para vir até cá. Porque essa é sempre a grande dificuldade. O Festival costuma sonhar-se a três anos, concretizar-se a dois e depois celebrar-se a um. Portanto trabalho é sempre feito com muita antecedência. E neste contexto, estes três países são muito fortes”.

 

 

 

2018 pode ainda marcar a estreia do Terras sem Sombra Kids, dedicado e feito pelos mais novos, pois o director geral adianta que “queríamos muito que sim, até porque sentimos que a musica sacra e erudita de dianteira precisa de alcançar novos públicos, ou seja, começa a haver um envelhecimento dos nichos e portanto a única maneira de mudar isto é apostar nas novas gerações”.

 

 

O Festival Terras sem Sombra tem a sua próxima paragem a 8 e 9 de Abril em Castro Verde.

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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