Tim tem novo disco. “Gostava que toda a gente se aguentasse, mesmo sem trabalho e sem expectativas, mas sei que não vai ser possível”

’20-20-20′ é o mais recente disco de Tim, o eterno vocalista dos Xutos & Pontapés, em nome próprio. Um disco pessoal, intenso e que conta com a participação dos seus dois filhos, Vicente e Sebastião Santos, e ainda dois amigos próximos, José Moz Carrapa e Nuno Espírito Santo.

O disco já foi apresentado em concerto, realizado na Culturgest, mas recuemos à sua concepção e aos motivos que o levaram a existir. Tim concedeu uma entrevista ao Infocul.pt, na qual aborda o processo criativo, as canções e ainda a sua carreira, as memórias, a incerteza do futuro e o tema que marca a sua vida.

Uma entrevista que poderá ler, na íntegra, de seguida:

Se dividisse a sua vida em três parcelas, portanto 20-20-20, como definiria cada uma delas?

Os primeiros 20 menino e moço sem Xutos, os segundos do princípio dos Xutos até à fama, onde casei e fui pai, e os terceiros onde, continuando tudo semelhante a nível profissional e familiar vim morar para o interior e iniciei a minha carreira a solo.

Este nome dado ao disco tem a ver com parte da sua memória. A que se refere este nome?

Como faço 60 anos começo a recordar coisas do antigamente, entre elas esse macinho de tabaco sem filtro de nome 20-20-20, conhecido como três vintes.

Este álbum conta com os seus dois filhos, Vicente e Sebastião Santos, e ainda dois amigos próximos, José Moz Carrapa e Nuno Espírito Santo. É o seu disco mais pessoal?

Sim, mais pessoal do que isto é difícil… a formação vem do projecto ‘À sombra do Cristo Rei’, de 2016, onde comecei a trabalhar a sério com os meus filhos num disco de homenagem ao rock almadense. Chamo a atenção para as idades casa dos 20, casa dos 40, casa dos 60 e dos 70…

A simplicidade das canções é a maior grandiosidade deste disco?

Tentei ser simples nas ideias para que houvesse espaço para a criatividade dos músicos e para que fosse ágil a concretização dos temas. Tentei falar de coisas simples, mas que fossem próximas do público (a casa, os animais, os amigos, a sua perda), talvez o conjunto justifique essa grandiosidade a que se refere.

Sente que este é um disco descontraído, porém intenso tendo em conta a ligação entre os participantes?

A descontração vem da proximidade dos intervenientes, não só familiar, mas entre toda a banda, essa proximidade, embora com grandes diferenças de idade, nos gostos e na maneira de sentir a música pode tornar mais intensos os temas. Posso também adiantar que com os meus filhos a relação musical é muito facilitada porque sentimos a música e o tocar de forma muito semelhante, talvez geneticamente semelhante.

Os encontros para este disco foram sempre à segunda-feira?

Na primeira parte, que se trabalhou e gravou aqui pela propriedade, sim. Depois, com o avolumar dos temas intensificamos os encontros; para a segunda parte estivemos juntos 3 dias na Zambujeira do Mar e para a terceira parte partilhamos um apartamento em Toronto durante 6 dias, enquanto trabalhávamos em estúdio. Tudo muito fixe, não nos cansamos nem do trabalho nem uns dos outros!

A malta por norma detesta as segundas-feiras. Neste caso, podemos dizer que foram muito produtivas e motivo de felicidade…

No mundo do espectáculo a segunda-feira costuma ser dia de folga.. por isso no arranque este era um projecto de fim-de-semana…

O Tim está sempre muito associado à cena do rock n’roll. Sente que este disco mostra um Tim desconhecido do grande público?

Acho que não! A minha carreira a solo já dura há 20 anos e sempre foi muito pessoal.

 

Este disco já foi apresentado em concerto, na Culturgest. Como correu e que tal esta nova realidade de menos público e tudo mascarado?

Nós e o público gostámos do concerto! Embora estivessem várias cadeias vazias a olhar para nós, o sorriso e os aplausos sobrepuseram-se às máscaras e foi mais uma noite memorável.

Sente que isto vai ajudar-nos a entender melhor os olhares dos outros?

Sim, acho que já se sente.

O Tim fez questão de explicar cada uma das canções que integram o disco. Mas qual a mais pessoal, aquela em que ao ouvirmos vamos conhecer melhor o Tim?

Acho que têm de juntar vários bocados de várias músicas, eu sou um bocado agitado mesmo em termos de sentimentos.

Este disco foi gravado em três locais. Foi algo previamente planeado ou foi acontecendo?

Foi planeado. As ideias que tinha para trabalhar eram diversas e eu não queria perder essa faceta. Por outro lado, estava com saudades de gravar aqui por casa, no estúdio que tenho no campo. Assim falei com o Moz e com o Sebastião para que eles preparassem o equipamento de gravação de modo a podermos gravar onde nos apetecesse.

Carreira longa e de mérito. Este é o ano mais peculiar de todos ou já teve anos piores?

Houve vários anos maus, em termos de saúde minha e dos meus companheiros, houve anos confusos em termos de carreira, mas nada previa um descontinuar da actividade tão brutal.

Sente que esta pandemia pode fazer uma separação entre o trigo e o joio no que há qualidade dos artistas diz respeito e que assim manter-se-ão apenas os melhores?

Gostava que toda a gente se aguentasse, mesmo sem trabalho e sem expectativas, mas sei que não vai ser possível. Acho que a força de vontade de cada um vai fazer a diferença, não a qualidade, que é sempre subjectiva.

Enquanto músico, explique-nos o que sente agora ao entrar em palco perante tanta regra que tem de ser cumprida, devido à pandemia?

Não me custam muito as regras, pois o palco ainda é um sítio onde estamos livres.

Consegue fazer planos a longo prazo, na actual situação?

Francamente não. Posso continuar a sonhar, as coisas podem acontecer, mas o tempo é de incerteza.

Como é que acha que as pessoas vêm o Tim e como é que gostava que as pessoas o vissem?

Acho que me acham gordo na tv! Depois ao vivo dizem que afinal só pareço mais gordo… gosto que as pessoas me vejam com bons olhos e que tenham algum tipo de interesse pelo meu trabalho.

Qual é a música da vida do Tim?

A música que mudou a minha vida e o que eu pensava dela foi a ‘Casinha’.

 

20-20-20 Faixa a Faixa, por Tim

1. LAR

É o retrato do sítio onde vivo e do meu dia-a-dia. Como vivo no campo e tenho sempre, pelo menos, 40 minutos de viagem que me permitem pensar muitas vezes na lista de tarefas para fazer quando chegar a casa. Estão aqui os ambientes todos do lar – o campo, o interior da casa, os instrumentos musicais, as coisas que há para fazer, as canções que estão por compor e por cantar, a festa de Natal, etc. Este tema foi a chave do disco. Foi o tema que construí para o grupo tocar e para explicar que a ideia era esta: falar destas coisas e estarmos neste ambiente.

2. O MOCHO

Quando fiz esta canção comecei pela ideia que é chegar a casa à uma ou às duas da manhã e, entre parar o carro e entrar em casa, está por ali um mocho. Fico um pouco a olhar para as estrelas, a ouvir o mocho e a pensar que ele, que também mora ali, não sabe que aquela casa é minha. Partilhamos esse sentimento: aquilo é dele e é meu. Ele canta e eu também canto. Tem que ver com a minha relação com aquele espaço, que não é assim tão campestre e tão isolado como as pessoas possam pensar, mas tem espaço e tem… um mocho.

 

3. GATO PRETO, GATO BRANCO

Nasceu na ressaca do Natal. Temos sempre alguma reunião lá em casa e a canção passou-se já na ressaca, quando a coisa acalma. O dia estava bonito, era um domingo, os gatos andavam por ali e eu não tinha de fazer nada. Peguei no gravador de 4 pistas e fiz este tema. Depois, quando comecei a cantar pensei na imagem que desse momento, com os gatos a brincar por ali, sem qualquer preocupação, tudo em em paz e em que se podia apreciar e invejar aquela vida de gato, a liberdade e a felicidade deles.

4. E MAIS UM DIA

Aqui já é a banda toda a tocar lá em casa. Tirando os temas de apresentação com começámos a trabalhar (Lar, O Mocho e Gato Preto, Gato Branco), passámos depois a tocar um pouco mais a sério, já todos mais à-vontade com a situação e com a sonoridade. Nos outros temas ainda era eu que dirigia muito; a partir do E Mais Um Dia a banda começa a ter alguma influência. A canção tem que ver com uma espécie de queda em sonho, onde se encontra as pessoas que foram embora, que tiveram a sua hora. Estes últimos anos não foram muito felizes nesse sentido e a canção apareceu.

5. TRAÇO A DIREITO

Este já foi gravado no Canadá, mas é talvez o tema mais velhote que está no disco. É daqueles temas que nunca teve oportunidade e eu sempre gostei dele porque parte da minha desconfiança com os traços a direito, os destinos e as coisas traçadas. Tem que ver também com aquela ideia da minha juventude em que se não tirássemos um curso não éramos nada. Começa por aí e depois segue a desconfiar dessas certezas que, por vezes, nos vendem. A parte engraçada é que o final acabou por ser exactamente o contrário do traço a direito – houve uma desbunda do Moz e do Vicente e conseguimos transformar aquilo num arco-íris de cores e de sons, exactamente para contrariar o raio do traço a direito.

6. ONDAS DO MAR

Esta canção tem que ver com aquela sensação de vertigem que pode acontecer quando se está num certo sítio a olhar o mar. Aqueles momentos em que nos pensamos pequeninos ou grandes, aqueles momentos em que estamos diante da beleza de as ondas serem tantas, todas iguais e todas diferentes. As oportunidades também são muitas e não podemos ficar presos àquele momento em que parece que tudo se resume a nós, ao o amor e à terra. A vida continua por aí e temos de nos lançar a ela. Começa aí uma série de temas ligados à praia, em que já andava a trabalhar há algum tempo, que é de banda rock, não é aquilo a que estou habituado.

7. PARECE IMPOSSÍVEL

É uma canção de amor, disfarçadamente. A letra pode ficar um bocadinho datada, porque acabou por acertar em cheio naquilo que vivemos com a pandemia. Às vezes as pessoas estão numa situação de felicidade e não a reconhecem, não lhe atribuem o valor que devia ter e esse valor só aparece depois, quando essa situação deixa de poder acontecer. É só isso. É aquele instante em que se diz “Parece impossível, estava tudo tão bom”.

8. PÔR DO SOL

As bases desses temas foram gravadas, estruturadas e cantadas na Zambujeira do Mar. A Costa Vicentina tem essa qualidade de nos colocar diante do efémero e perante aquela grandiosidade, aquelas forças, levar-nos a pensar naquilo que somos, O ambiente musical tem que ver com uma espécie de calma que também existe ali, uma espécie de sorriso interior que sinto quando estou lá. Depois tem um truquezinho lá pelo meio, ao falar das pessoas realmente mais vampirescas que também existem na Zambujeira e só saem à noite. De dia estão numas praias quaisquer, não sabemos bem, e à noite aparecem.

9. BORA LÁ

Aqui começa a grande aventura do Canadá. Fui muitas vezes ao Canadá, com os Xutos e com a Resistência, e não conseguia passar a ideia completa aos meus filhos do que era a vivência naquele país, especificamente em Toronto. Também já tinha a ideia de levar a banda a um estúdio que eles não conhecessem e que fosse fora daqui, para fazermos uma espécie de residência. Então marcámos um estúdio através da Rádio Camões, a estação portuguesa de Toronto, fizemos uma residência de cinco dias e um concerto no final. Foi lá no Canadá que estreámos o disco, quando tocámos quatro músicas nesse concerto. No meio daquilo tudo, quando estávamos a ser tão bem tratados e tão bem recebidos mais uma vez em Toronto, não me parecia nada mal que acontecesse uma canção para o Canadá. Estava lá também o cantor luso-canadiano Peter Serrado, que já tinha tocado na primeira parte de um concerto dos Xutos, e deu mais sentido à parte final do tema, quando o ‘tuga se torna canadiano – o que acontece com todos os que estão lá. Tenho muitos amigos no Canadá e foi uma forma de lhes dar um bocadinho de atenção.

10. DESCULPA LÁ

É uma canção muito centrada na amizade, em estarmos juntos, mesmo que tenhamos coisas menos boas para falar. Não nos vamos esquecer uns dos outros. É mais uma das canções que ganhou vida no Canadá. Não gosto muito de explicar as letras, mas o feeling que está por baixo é aquilo que se diz no fim da letra – não é nada complicado, é só estar aqui convosco e passar um bom bocado. Se temos de passar por esta vida, que passemos uns bons bocados, com aqueles de quem gostamos.

11. LOUCA CIGARRA

É um tema que começa um bocado psicadélico, mas quando comecei imaginei-me a escrever para um fado. Em termos de escrita, vamos pensar que aquilo era um fado, mas depois a música era outra. E lá saiu a Louca Cigarra, que é também uma homenagem a toda a malta que anda por aqui e que tem esse vício do rock’n’roll, que fez muita asneira na vida mas cá está na mesma. A malta que não conseguiu resistir à luzinha da vela ou do candeeiro e não pára de cantar.

12. NÃO ME DIGAS ADEUS

É uma canção para evitar despedidas. Não gosto muito de despedidas e o feeling da canção era esse. Já vinha de trás e terminei-a no Canadá. Já tinha essa ideia de não gostar de despedidas, mas depois foquei-me na malta que estava a trabalhar comigo e concluí a canção, pensando que havemos de ver-nos outra vez. Volta àquele sentimento de gostar de estar com as pessoas e que acabou por regressar para esta música com que quis fechar o disco.

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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