Um Corpo Estranho: “O Homem Delírio pode ser um arquétipo para o Homem moderno, ou antes, talvez, para o que nele vai escasseando”

 

 

‘Homem Delírio’ é o mais recente disco do projecto Um Corpo Estranho e serviu de fio condutor a uma entrevista realizada pelo Infocul que foi tentar descobrir mais sobre o disco e o projecto.

Oito faixas compõem este disco que conta com convidados como Sérgio Mendes, Paulo Cavaco, Celina da Piedade e a produção de Sérgio Mendes e Um Corpo Estranho.

Um Corpo Estranho é constituído por João Mota e Pedro Franco e este disco sucede a ‘De não ter tempo’, 2014, e ‘Pulso’, em 2016.

 

 

Quem é ou o que representa este ‘Homem Delírio’?

O Homem Delírio pode ser um arquétipo para o Homem moderno, ou antes, talvez, para o que nele vai escasseando. Este disco e este tema em específico foi beber a alguns clássicos. Nesse caminho que é a busca das canções tropeçámos no Dom Quixote. A temática é muito actual, na realidade envolvente, quando tudo é cada vez mais rápido e frio por vezes. Ficamos a pensar, acredito que cada um no seu canto, se seremos os últimos românticos do mundo, se enlouquecemos, se andamos a combater moinhos a pensando que são gigantes, etc.

Quais foram os maiores desafios até que este disco chegasse ao público?

O disco em si, todo o processo, cada trabalho novo que começa de raiz, este jogo de ping-pong que temos entre nós com as primeiras ideias, tudo isso representa por si um desafio. Mas acho que já não pensamos muito no caminho, sendo que nos é natural e urgente continuar a andar, a seguir em frente, a redescobrimos-nos. Pensamos mais nisto como uma necessidade do que como um desafio.

‘O Estrangeiro’ é o primeiro single já revelado. Qual o critério que levou à escolha deste tema?

Já o tínhamos tocado ao vivo e foi bem recebido, como alguns dos restantes temas do disco. Durante a produção foi também um dos que nos saltou mais. Não sei se sabemos escolher singles, vemos mais como a primeira pedra que temos de jogar ao charco. Arrisca-se e depois já não é connosco. Temos amor por igual a todos os temas.

Neste disco contam com alguns músicos convidados. Quais e porquê?

Faz-nos sentido a dado momento envolver outras pessoas nas canções. Passamos muito tempo entre os dois nos temas e faz-nos bem outra cabeça, outra sensibilidade que desbloqueie alguns problemas, que leve o trabalho para outro lugar que nos surpreenda. E depois, porque temos prazer em trabalhar com amigos, sendo como é o caso do Paulo Cavaco e da Celina, bem como do nosso Sergio Mendes, que já é um terceiro elemento do projecto.

Há algum tema que tenham pena de não estar neste disco?

Ficam sempre algumas ideias de fora, mas o disco vai falando por si. Tínhamos uma ideia muito concreta para este terceiro trabalho, os esboços já eram o disco, depois foi só colorir, praticamente.

Acabam por compor todos os temas deste disco. Como é o vosso processo criativo?

Não sei se temos um. Penso que seja o mesmo, ou os mesmos, de qualquer banda. Partimos das canções para o todo. Há sempre uma que desbloqueia o que vai ser o disco. E depois vêm as outras coisas que começam a compor o bouquet. Os quadros da Rita deram uma fisionomia aos temas, um rosto, no fundo, uma personalidade. O vídeo do Tó (António aleixo) deu-lhe alma e profundidade. De momento estamos a trabalhar na parte cénica do concerto, com o nosso Ricardo Mondim, no fundo para encontrar o esqueleto e os músculos das canções.

A melodia veste a letra ou a letra completa a melodia?

Também não sabemos. Por vezes partimos do instrumental e forçamos as palavras a encontrarem o seu espaço na canção. Mais tarde, quando lá voltamos são as palavras que saltam mais. Outras vezes o contrário. Não sei o que é o vestido e o corpo. Mas queremos acreditar que é uma simbiose, que são duas faces da mesma moeda.

O disco sai a 22 de Março. Em termos de espectáculo já está algo marcado ou que possam anunciar?

Sim, estamos neste momento em ensaios para estreia a 11 de Maio no Teatro S. João em Palmela.

Em palco o que poderá o público esperar em termos de conceito?

Os concertos vão ter uma componente de teatro físico e dança. Estamos a trabalhar com o Ricardo (Ricardo Mondim) nesse sentido. Queremos este disco noutras áreas que não apenas a música e estamos muito contentes com o desafio.

Quais têm sido os maiores desafios no vosso percurso e que balanço fazem do mesmo?

Chegar às pessoas é sempre a maior dificuldade. Há muita coisa a acontecer em Portugal no mundo da música e infelizmente os meios e os espaços são poucos. No fundo a queixa é a mesma e tem barbas. Mas só nos lembramos disso quando temos um disco em mãos. Até lá a nossa prioridade é sempre fazer um trabalho melhor que o último. Não temos patrões felizmente, temos a sorte de usufruir da nossa liberdade criativa e estica-la sem limites. No fim do dia é o que mais nos enriquece.

A música portuguesa respira saúde ou tem demasiada oferta e poucos palcos?

Portugal está de pulmão cheio no que toca à música. Acreditamos que estamos a viver o melhor momento musical desde há décadas. O que acontece é que o que se faz de muito bom também se faz de muito mau, é um preço a pagar, no fundo. Ao fim de alguns anos disto não podemos dizer que escasseiam espaços, o que talvez esteja ainda em falta é uma mentalidade mais virada para a cultura, uma logística a nível de apoios a quem quer fazer musica ao vivo e um programa mais enérgico nesse sentido. Não podemos contar apenas com os grandes teatros e auditórios. Temos de mudar um pouco a mentalidade do país e incentivar os pequenos privados e associações culturais a continuarem a melhorar o trabalho que já fazem a muito custo e, em muitos casos, sem qualquer apoio. Oitenta por cento do circuito das bandas e músicos do país incluem estes espaços, que o pouco que têm vai dando, mas infelizmente não chega. Temos de tirar a lupa apenas do festival de verão e acarinhar as pequenas entidades que programam o ano inteiro, principalmente no interior do país, onde há mais sede de cultura.

Qual o tema deste disco que melhor vos identifica?

Nenhum e todos. Fazer música para nós serve sempre de catarse a alguma coisa. Os temas falam sempre de alguma angústia que queremos libertar. No fim acabam por ser já coisas estranhas a nós. São retratos de qualquer coisa que sentimos lá atrás e passaram a pertencer a outra coisa qualquer.

Qual a mensagem que deixam aos leitores do Infocul?

Esperamos que estas linhas tenham aguçado a curiosidade e que oiçam o nosso disco. Se possível também, que nos venham acarinhar na estreia. O nosso obrigado a todos e à Infocul pela boa conversa.

 

Fotografia: Rui David

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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