Toureio.pt

 

 

A Praça de Touros de Vila Nova da Barquinha recebeu ontem, dia 20 de Setembro, uma corrida de gala à antiga portuguesa e que tinha por destaque maior o regresso às arenas de João Salgueiro. O público acorreu em bom número e registaram-se três quartos de casa preenchidos.

Na tauromaquia existe uma problemática relacionada com o tradicional ‘porreirismo’ e com o ‘tudo serve’.

O cortejo evocativo das touradas no século XVIII foi pobre, com menos elementos e pujança, do que habitualmente acontece nestas recriações. Não havia necessidade de o ter feito, assim, porque nada acrescentou ao espectáculo. O atraso no início da corrida foi também lamentável e evitável.

A imprensa da especialidade, que volta a dar-me razão quando digo que é residual e quase não existe, quase não marcou presença. Bom, na verdade estiveram os órgãos de comunicação social que interessavam, gostos à parte. Os blogs e sites, que apenas existem para entradas à borla nos espectáculos, não acharam a corrida relevante mas também como poucos os leem não há problema algum.

Quanto ao espectáculo propriamente dito, com cartel composto pelos cavaleiros Rui Salvador, João Salgueiro, João Moura Caetano, João Moura Jr., Miguel Moura e João Salgueiro da Costa; forcados amadores de Tomar, Chamusca e Aposento da Chamusca; touros da ganadaria espanhola Luís Terrón; destacam-se as actuações, muito positivas, de Moura Caetano, Moura Jr. e Miguel Moura.

Abriu praça o cavaleiro tomarense Rui Salvador, com uma actuação em tom regular, comunicativo com o público. Depois da cravagem comprida, executada com regularidade, destacou-se nos curtos com o desenho de sortes frontais, para com o touro, com o momento da reunião a revelar-se ajustado, destacando-se em dois curtos de boa nota.

João Salgueiro, incontestavelmente o grande destaque deste cartel, não esteve inspirado. Pelo menos ao nível de génio que lhe reconhecemos. Esteve em plano positivo, o penúltimo curto é de qualidade assinalável, mas toda a restante actuação esteve apenas em plano aceitável e com a montada a não estar propriamente inspirada.

João Moura Caetano está numa temporada bonita e para isso muito conta a performance dos cavalos ‘Campo Pequeno’ e ‘Baco’. Na Barquinha, excepção ao primeiro curto, tudo foi feito com suavidade, qualidade interpretativa sobre o seu oponente e com uma escolha assertiva dos terrenos e no desenho das sortes. A forma como se dobrou com o touro na fase inicial da lide e a partir daí desenvolveu toda a sua actuação é arte em estado puro. Foi o único cavaleiro, esta noite, que valorizou, e bem, a ferragem comprida, com duas excelentes execuções, mantendo o nível nos curtos. Quando se falar em triunfadores, da temporada, é impossível não mencionar Moura Caetano como um dos destaques.

João Moura Jr. está num momento assombroso! Dois regulares ferros compridos, um segundo ferro curto de bela execução com batida ao piton contrário, um terceiro cravado com raça e um quarto de ‘tremendismo’ aguentar a investida do touro em curta distância e a reunir ajustadamente e com impacto. Lide toda ela de nível elevado e com a inteligência de terminar em apoteose. Enorme, João Moura Jr.

Quem também esteve, e tem estado esta temporada, em grande plano foi Miguel Moura. O mais novo do clã Moura, em actividade, é um toureiro de emoção e está francamente motivado. Toureiro a entrar em terrenos de compromisso e a deixar tudo em cada actuação. Para quem gosta da tauromaquia, gostos à parte, é francamente bom ver Miguel Moura a este nível. Nesta noite teve dois ferros de soberba execução.

João Salgueiro da Costa fechou a noite e fê-lo de forma irregular. Dois fortes toques na montada e nem sempre a entender bem o touro, mas a terminar em plano já muito positivo com dois palmitos. A concepção de toureio de Salgueiro da Costa é de risco e se correndo bem é triunfo garantido, em noites menos inspiradas pode tornar-se embaraçoso. Contudo, a festa dos touros deve ser vivida nas extremidades da intensidade e isso Salgueiro da Costa fá-lo.

Os touros foram distintos em comportamento e estiveram bem apresentados.

No sector das pegas, a noite foi tranquila e sem complicações de maior. Pelos Amadores de Tomar foram à cara Fábio Sousa e Gabriel Henriques, ambos à primeira tentativa; Pelos Amadores da Chamusca foram David Silva, à segunda tentativa, e João Narciso, ao primeiro intento; Pelo Aposento da Chamusca estiveram na cara do touro os forcados Vasco Coelho dos Reis, concretizando à primeira, e Alexandre Mira, pegando à terceira tentativa.

Aplauda-se a iniciativa do empresário José Gonçalves em voltar a dar destaque a esta praça, com um cartel interessante e com um esforço, meritório, para que tudo corresse bem. Que o caminho na festa seja ascendente, cuidado e meritório.

Corrida dirigida por José Soares, assessorado por José Luís Cruz.

 

 

“Não foi a lide nem o triunfo sonhados, tive algumas coisas e alguns ferros bons, mas não foi aquilo que eu desejava”

 

O cavaleiro João Salgueiro, em declarações ao site Toureio.pt, revelou que “senti-me bem, não foi a lide nem o triunfo sonhados, tive algumas coisas e alguns ferros bons, mas não foi aquilo que eu desejava. Era um touro, uma corrida. Quando se faz uma temporada inteira, apanha-se muitas corridas destas, hoje era apenas uma, tínhamos a ambição que fosse um bom touro, escolhemos um curro para que os toureiros triunfassem e não tem estado a ser assim, mas a festa é mesmo assim, é uma parte que não conseguimos comandar. Os touros são como os melões, só depois de abertos é que se vê, mas estou satisfeito, senti-me bem e com faculdades, o público esteve comigo e tive um ferro com a minha marca e o público reagiu logo! Estou satisfeito, sonhava com um bocadinho mais mas estou satisfeito”.

Disse que a preparação foi “intensa, com dedicação e honestidade para chegar aqui e poder apresentar-me da melhor maneira ao público, porque há que ter respeito pelo público, e acho que preparei-me da melhor maneira, com treinos intensivos, com vacas, com novilhos, e as coisas correram extraordinariamente bem nos treinos, os cavalos andaram extraordinários. O touro aqui era um bocado bruto e o cavalo também não esteve ao nível que ele costuma estar mas são contingências que acontecem”.

Disse ainda que “a próxima temporada temos logo um festival no início que é para uma causa justa, sempre disse que estava disponível para ajudar a festa. Penso que o objectivo aqui foi conseguido, esta era uma praça que estava parada, este ano não ia haver touros e quando temos muitas câmaras que estão a proibir a utilização das suas praças, temos uma praça em que ninguém nos está a proibir e nós próprios a deixarmos-la estar parada, penso que fazia sentido fazer este sacrifício e dar isto em prol da festa. Sinto-me contente porque a festa dos touros deu-me muito a mim, mas mesmo muito, muito mesmo. Eu gostava de hoje, aqui, ter dado mais, mas penso que dei o suficiente, penso que é um êxito, um triunfo, termos revitalizado a praça, termos este casão que aqui hoje temos, com a ajuda de todos, não me posso esquecer desde a imprensa taurina, desde toda a gente que tentou colaborar, acho que é importante, acho que isto é defender a festa, é reerguermos praças ao mais alto nível, com praças cheias, esse foi o meu fim, o fim com que vim actuar aqui, com esse propósito de ganharmos aqui mais uma data e mais uma praça, penso que isso está conquistado e só por isso valeu a pena”.

Sobre o festival do próximo ano, em que participará, disse que “está apalavrado para uma causa bastante justa. Hoje em dia, o cancro é um coisa que afecta tantos portugueses, antigamente ouvíamos falar uma vez e hoje em dia ouvimos falar tanto, penso que é uma causa justa e em que todos temos de participar e dar o nosso melhor para que possamos combater. Já há praça mas ainda não é oficial e por isso não vou dizer”, deixando ainda porta aberta para mais corridas, “poderá haver mais conforme as coisas forem corrido”.

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

Rui Lavrador has 6432 posts and counting. See all posts by Rui Lavrador

Rui Lavrador

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.