Vitorino comemora 40 anos de edição discográfica e desvenda os convidados para o concerto no São Luiz e o que está a preparar para o novo disco

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Vitorino Salomé comemora 40 anos de edição discográfica e prepara um concerto comemorativo no Teatro São Luiz em Lisboa no dia 18 de Novembro pelas 21:30. Em entrevista ao Infocul faz um balanço destes anos, uma previsão do espectáculo e desvenda ainda novidades sobre o disco que está a preparar.

 

 

Nascido a 11 de Junho de 1942 no Redondo, desde cedo a música integrou a sua vida. A sua música junta o cante, a música tradicional e o folclore. Integrou ao longo da sua carreira vários projectos, mas a sua voz tornou-se um ícone da música portuguesa.

 

 

 

Vitorino, 40 anos de edição…

 

Sim de edição, de carreira são mais alguns e de idade não são de certeza (risos), de maneira que eu faço questão de dizer que são de edição pois podiam ser 42 porque o disco que lancei há 40 anos e nove meses chamava-se “Semear a salsa ao reguinho” começou a ser organizado em Paris, onde em princípio o iria gravar e depois lançar em Portugal como fez o Sérgio Godinho. Uma coisa estranha porque o regime era muito rigoroso mas depois haviam estes intervalos na chuva onde permitiam lançar um disco de um opositor claro à ditadura e fazê-lo publicamente.

 

 

Qual o balanço destes 40 anos?

 

40 anos na vida de uma pessoa é muito ano e o mundo em 40 anos mudou radicalmente principalmente nos últimos cinco. Mudou de paradigma, fechou a era industrial que alterou o mundo no século XIX, e o que está a acontecer agora é uma mudança radical que eu comparo ao começo da industria que veio substituir o mundo rural que existia desde que a humanidade se organizou em convívio e se socializou. E isso é muito importante porque em pouco mais de um século altera-se completamente o paradigma e numa década, eu que vivi mais de 70 anos, porque ainda vivi no mundo rural profundo.

 

 

Sendo um dos nomes mais importantes da música portuguesa, sente que ao longo destes 40 teve o reconhecimento justo do povo português?

 

Eu às vezes olho para trás e como dizem os franceses começo a caminhar ao lado do meu enterro. Quer dizer ponho-me a marchar ao lado do meu enterro para o observar. E reparei que sou completamente inábil, era muito sanguíneo, preguiçoso, caprichoso no sentido em que dava prioridade ao meu bem estar ou ao que me apetecia fazer como por exemplo viajar, eu sou um viajante quase profissional, e deixava para trás aquilo a que se chama o show business. Eu não sei como fui a tantos programas, podia faltar, porque não ensaiava. Hoje continuo a ser muito pouco profissional, isso é bom ou é mau depende. Talvez aconteça porque tenho algum conforto na minha vida, toda a gente faz o elogio do trabalho, eu faço o elogio da preguiça e da contemplação. E isso em termos de cânones actuais de workaholic é completamente pecaminoso. Estou no lado oposto à militarização no trabalho.

 

 

Dada a importância do Alentejo na sua vida, como assiste a este boom que ali aconteceu nos últimos anos em termos turísticos e culturais como por exemplo a elevação do Cante a Património Imaterial da Humanidade?

 

O Alentejo não está a viver um boom muito espectacular ou sentido mas está a haver muita atenção ao bem-estar que é o oposto a estar na praia, apanhar sol, que é uma moda que vem de Miami dos anos 40 da cultura de ficar bronzeado, viver a praia, as ondas ou o surf. Que é uma cultura totalmente oposta à da tranquilidade, do sossego, da contemplação da natureza. Sendo o mar um elemento da natureza, a costa que o trava contra a terra é completamente devassada do ponto de vista urbanístico, cultural, aquilo a que se chama turismo, uma moda do século XIX, violentamente predadora dos costumes e tradições locais. O que aconteceu no Algarve, com os crimes urbanísticos, a destruição da terra, das coisas boas que a costa tem, porque essa moda do bronzeado esfusiante em modo dos anos 50 em Miami e Caribe vai fechar-se novamente , porque no século XIX as senhoras iam à praia mas tapavam-se todas para não se bronzear, portanto e apesar de já se notar, acho que esse ciclo dos bronzeados se vai fechar e as pessoas vão voltar a olhar para o campo, para o sossego, porque as cidades estão insuportáveis, inclusive Lisboa.

 

 

Relativamente ao Cante, e sendo eu da geração da década de 90, como avalia a transformação que se sente neste género em que passámos de um grande número de pessoas que não gostava de cante para agora quase todos gostarem?

 

Eu acho que é um fenómeno muito paralelo à questão do Fado que era uma coisa que só os velhos é que gostavam, de repente foi elevado, foi divulgado e toda a gente começou a olhar para ele. Aqui há uma questão muito importante que é a promoção, a divulgação, a escuta atenta das coisas. De repente o fado fiou na moda sendo que já está a passar, porque sobretudo as fadistas, estou a falar no feminino, que foram a frente do fado, já o estão a sacudir e estão a ficar mais viradas para uma pop estranha. Mas a questão da moda alentejana é apenas paralela e não similar. A moda alentejana é muito mais erudita que o fado, se calhar é um bocado exagerado o que estou a dizer, mas a moda alentejana é uma manifestação cultural muito mais erudita, de difícil ante, como por exemplo aquilo que chamamos de moda velha é muito inclusiva porque os alentejanos cantam muito bem à alentejana mas se houver um grupo grande que os envolva são logo incluídos e envolvidos. É muito social, tem esse aspecto, mas é cantada por homens façanhudos, de bigode, sem tatuagens nos braços, portanto menos comercial que o fado que tem mulheres muito bonitas e homens elegantes a cantá-lo, o que é absolutamente legitimo, porque não sei se têm todos tatuagens ou não. Mas é muito diferente porque no fado é muito mais portátil porque é um guitarra, um viola e um cantador e no cante alentejano são entre 18 a 27 elementos e não se podem levar (risos).

 

 

Para a comemoração dos 40 anos de edição, no espectáculo dia 18 de Novembro no São Luiz quem serão os convidados?

 

Os convidados serão muito interessantes e inesperados, como é habitual em mim, e são o Manuel João Vieira, a Ana Bacalhau, Samuel Úria e os Camponeses de Pias. Portanto eu vou ao mais urbano e sofisticado que há em Lisboa e depois vou ao interior buscar um grupo coral maravilhoso com centenas de ano de tradição do cante alentejano. E isso é um contraste improvável que eu faço sempre nos meus concertos, como quando convidei o Tony de Matos, em que levei muita “porrada”, mas agora podem dizer o que quiserem porque tenho uma carapaça muito espessa.

 

 

Tornou-se inabalável?

 

Absolutamente. Mas foi quase sempre isto. Quando era mais sanguíneo era mais reactivo, agora acho graça.

 

 

O espectáculo será apenas no palco do São Luiz?

 

Não. É muito interessante porque ele começará ali por aquelas ruas, se não chover, a gente começa a cantar e vai haver cante ali pelas ruas da Baixa, que não sei como o eléctrico 28 vai passar (risos), mas a gente desvia-se para o passeio. Porque um grupo de cantadores alentejanos a evoluir demora ai duas horas entre o Chiado e o São Luiz. Estou a brincar mas é tudo possível entre a brincadeira e o sério.

 

 

Portanto será tudo muito imprevisível?

 

Inclusive o concerto. Já estou a ter muito trabalho, os músicos têm muita coisa para fazer, depois estamos muito dispersos, já os ando a aborrecer para nos juntarmos, e depois o Manuel João Vieira é um grande pintor, trabalha muito na pintura, terei que ir a casa dele para apanhar as canções que ele irá cantar, de modo que vai ser assim muito espontâneo, jam session, mas interessante porque é gente com muito talento que de repente solta um momento de génio, superior e sublime.

 

 

Disco novo para quando?

 

Está a começar, vai chamar-se “Não sei do é que se trata mas não concordo” que é uma frase de um parente meu que era carpinteiro lá do Redondo e que uma vez chegou lá ao clube de futebol que estava a tratar de uma coisa com os estatutos e ele pediu a palavra e disse em voz alta que “Não sei do que é que se trata mas não concordo”. Não concordou antes de saber o que se estava a passar.

 

Em termos de alinhamento, letristas e compositores o que nos pode adiantar?

 

Em termos de letras e composições 90% será meu, é um disco ao qual estive para chamar “Tudo a postos nada em ordem” porque está sempre tudo a postos mas depois não está nada em ordem, porque as canções têm um arranjo que não são muito sequenciais em termos de conceito, mas os meus discos é cada um completamente diferente do outro. Já convidei o Vicente Palma, filho do Jorge Palma para fazer um arranjo, já convidei o Carlos Alberto Moniz para fazer outro, o Sérgio Costa vai fazer outro, eu também faço alguns de modo que será uma manta de retalhos com uma continuidade que será a minha voz e as melodias que eu faço que têm uma continuidade pois já se nota que aquilo que eu faço tem um selo de lacre que me identifica. Acho que já tenho alguma identidade no meu universo melódico.

 

 

Podemos dizer que esse disco será uma manta de retalhos com o calor aconchegante do Alentejo?

 

Com o calor aconchegante de um bom vinho tinto (risos)…mas são retalhos bem aconchegadinhos e bem cosidos à mão e com linha forte.

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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