Viviane tem novo single e deixa mensagem à Ministra da Cultura: “Não basta atribuir verbas que nunca se sabe bem onde e como são aplicadas”

Viviane celebra 15 anos de carreira a solo e lançou recentemente um novo single, “Quando Tiveres Tempo”.

Para 2021 está previsto um novo disco, mas antes concedeu entrevista ao Infocul para abordar o novo single, os 15 anos de carreira e os desafios no sector cultural.

 

Qual o balanço que pode ser feito destes 15 anos a solo?

Estes 15 anos a solo foram um virar de página em relação à minha carreira anterior nos Entre Aspas. Posso dizer que o balanço é positivo, tracei novos caminhos, explorei novas sonoridades e neste meu novo percurso em que gravei 6 álbuns, tive a oportunidade de partilhar a minha música para além-fronteira em países como Irlanda, Espanha, África do Sul, Lituânia, Letónia, Alemanha e mais recentemente no Quénia. Espero poder continuar a compor e partilhar a minha música ainda por muito anos.

 

É possível definir Viviane quanto ao género musical que interpreta?

Eu gosto de apelidar a minha música de Fado Mediterrânico. Eu tenho várias influências que vão da canção francesa ao jazz manouche passando pelo tango e sem dúvida que o fado é a tónica dominante por isso acho esse nome adequado.

 

Nestes 15 anos, quais as maiores dificuldades e desafios em encontrou?

Quando iniciei a minha carreira a solo, muita coisa mudou, tornei-me mais independente pois criei o meu próprio estúdio, editei os meus CD´s em formato de edição de autor, passei a controlar toda a minha carreira sem editora, apenas com o Tó Viegas, meu manager e companheiro de vida. Talvez o desafio maior tenha sido o de fazer perceber às pessoas que já não sou a cantora dos Entre Aspas, que a banda já não está no activo e que a música que eu faço agora é completamente diferente do pop rock que me identificava então na altura. Não é fácil mudar uma carreira assim tão bruscamente, as pessoas são um pouco resistentes às mudanças, mas sinto que atualmente este assunto já está ultrapassado.

 

Recentemente lançou o single ‘Quando Tiveres Tempo’. Qual a principal mensagem do tema?

Este single é um tema alegre e divertido, mas que fala de um tema sério.

O tempo é aquilo que nós fazemos dele sem dúvida, por isso temos que saber quais são as prioridades na nossa vida e temos que arranjar tempo para partilhar momentos especiais com quem é mais importante para nós porque se não o fizermos corremos o risco de um dia ser tarde demais e de não podermos voltar atrás.

Em momentos difíceis como o desta pandemia, tudo seria sem dúvida mais insuportável se não tivéssemos a ajuda uns dos outros.

 

Há quem diga que iniciou a revolução no Fado, com a inserção de novos instrumentos. Como reage a esta opinião?

Quando eu era miúda em França, a minha mãe gostava de ouvir fado e de ouvir Amália e quando cheguei a Portugal nos anos 80 fiquei deslumbrada pela nova música portuguesa nomeadamente pelos Mler If Dada que tinham um fado intitulado Alfama só com baixo e voz. Desde então sempre achei que a música não podia ser fechada em redomas, que a música é aquilo que sentimos e o que nos saí de dentro. Quando iniciei a minha carreira a solo, tinha uma linguagem nova para explorar que não cabia nos Entre Aspas. E assim, eu que não vinha da área do fado, mas sim da pop, tinha uma visão diferente e uma liberdade para recriar um estilo musical em que o fado era o convidado principal e no qual haveria lugar para novos instrumentos que não eram tradicionalmente usados no fado como bateria, acordeão, flauta. Não sei se iniciei uma revolução no fado, mas isto foi simplesmente o que senti e me apeteceu fazer.

 

Já podemos dizer que a arte e cultura estão num processo de retoma, pós-pandemia?

Muito timidamente. Infelizmente os artistas foram dos primeiros a ficarem sem trabalho e continuam a ser muito duramente castigados por esta situação de pandemia. As Câmaras Municipais estão muito reticentes em marcar espectáculos, não há lugar para as tradicionais festas que eram habituais todos os anos pelo país devido à impossibilidade de aglomeração de pessoas. Este ano e parte do próximo, está condenado, pouca coisa vai realizar-se. O país está suspenso à espera de uma vacina e enquanto a pandemia não estiver dominada, o sector das artes e dos espectáculos não irá retomar as suas actividades com a normalidade desejada.

 

Como analisa a actualidade do sector cultural e a precariedade que tem sido abordada?

O sector cultural, já era um sector muito fragilizado antes de tudo isto acontecer. Não podemos olhar só para os artistas que compõem os grandes cartazes. Há imensos artista que não são tão conhecidos, há toda uma classe de profissionais que está por detrás dos artistas, músicos, técnicos, de som, de luz, road managers, roadies etc…que estão a recibos verdes e que se alguma coisa corre mal não têm onde se agarrar. Muitos nem sequer passam recibo porque os pagamentos à segurança social e a retenção no IRS de 25% são demasiado pesados. A pandemia vem por a nu todas estas fragilidades e se não houver vontade política para ajudar a resolver os problemas do sector neste momento, temo que as coisas irão ficar bem piores.

 

Em termos discográficos e de espectáculos quais as novidades de Viviane?

Neste momento estou a terminar as gravações do meu próximo álbum de originais que deverá ser disponibilizado no início de 2021. Entretanto e até lá irei lançar dois singles. O primeiro, “Quando tiveres tempo” saiu no início de Julho e tem um videoclip cujo tema é um baile popular, que foi gravado uma semana antes do início da pandemia e que pode ser visionado no Youtube. Quanto a espetáculos, por enquanto todos os meus espectáculos foram adiados para o próximo ano.

 

Se estivesse diante da Ministra da Cultura, o que lhe diria?

Dizia-lhe para fazer um levantamento de todas as profissões ligadas à cultura e às artes do espectáculo, ouvir as suas dificuldades e atribuir lhes um estatuto a fim de organizar todo um sector que está desorganizado há muito tempo e que precisa de apoio, de ajuda e medidas concretas e ajustadas aos tempos em que vivemos.

Não basta atribuir verbas que nunca se sabe bem onde e como são aplicadas.

 

Qual a mensagem que deixa aos leitores do Infocul?

Tenham umas boas férias se for caso disso, respeitando sempre as regras de higiene e segurança e ouçam muita música portuguesa para continuarem a apoiar os nossos artistas.

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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