Yolanda Soares: A homenagem a Amália Rodrigues em “Royal Fado”

Yolanda Soares

 

Depois de 3 anos de inspiração, trabalho e muita convicção, e após 5 anos sem lançar um novo álbum, eis que estreia agora a “obra” que a cantora crossover Yolanda Soares considera a mais lusitana, madura, sedutora e romântica das suas produções. Com artistas convidados, nacionais e internacionais, de grande nível, o novo álbum “Royal Fado” promete “coroar” Portugal . O Infocul falou com a artista que nos fala um pouco sobre este “Royal Fado”.

 

 

Quando surge a admiração pelo repertório de Amália?

 

Surge desde os meus 15 anos , quando começo a ir com os meus pais a casas de fado . A minha mãe cantava repertório da Amália ( mas não só), e foi a gostar de ouvir a voz da minha mãe ( que é uma autêntica voz de soprano  ) nesses fados Amalianos que me comecei a interessar ( pois na minha opinião eram os fados que lhe ficavam melhor na voz). Não me interessei propriamente  por fado, mas por algumas das letras e composições que ouvia a minha mãe cantar. Logo, por ligação à minha mãe , foi Amália que eu comecei a ouvir. Via também os filmes com Amália e gostava muito. No entanto, nunca me interessei por cantar fado nessa altura. Gostava mais de musicais da Broadway e era completamente vidrada nos musicais  “Fantasma da Ópera” , “Chorus Line”, “Funny Girl”… e na cantora Barbra Streisand também ( via-os vezes sem conta). Só bastante mais tarde, e já depois de ter tido também uma verdadeira adoração por Dulce Pontes, é que comecei a ficar uma Amaliana ferrenha . Por gostar tanto de Broadway , foi-me oferecido um álbum (  penso que foi o meu Pai que me ofereceu) com Amália a cantar temas da Broadway. Desde aí fiquei vidrada. Comecei a ouvir tudo dela. Principalmente o repertório internacional . Canções italianas, flamenco …e até elaborei um espectáculo meu ( já mais tarde e  após formar a minha empresa de produção de espectáculos , a By the Music produções) quase todo baseado no repertório de Amália e que se intitulava de “Fado, Flamenco e Napolitanas”. Um espectáculo onde eu começava por  cantar fados e folclore , depois cantava flamenco e tarantelas ( tudo do repertório de Amália) e terminava em lírico com mais tarantelas e canções Napolitanas ( há vídeos no youtube desse meu espectáculo). Tudo de forma bem tradicional e não com o estilo de arranjos que agora faço nos meus trabalhos. Portanto, Amália teve uma influência tal em mim que me levou mesmo a cantar fado , que era algo que nunca imaginava vir a fazer quando aos  15 anos tive o primeiro contacto com casas de fado. 

 

 

Este disco é inspirado numa altura especifica da carreira de Amália. Por algum motivo?

 

Sim. Exatamente quando Amália decide começar a cantar poetas mais líricos como Camões e composições mais elaboradas e diferentes do comum . Principalmente as composições de Alain Oulman. Foi a época em que Amália revoluciona o fado. Provocou e gerou controvérsia . Foi inovadora. Porque a meu ver Amália estava para além do Fado. Ela era uma intérprete multi facetada . Não punha entraves ao seu ímpeto de simplesmente cantar o que a sua alma pedia. Era livre. Verdadeiramente livre. Como a arte o deve ser. Logo, e apesar dos guitarristas da altura ( que não conseguiam tocar esse fados) dizerem de forma irónica ” lá vai ela para as óperas” , foi traçado um novo rumo para o Fado e para os fadistas. Mais exigente. Mais complexo. Mais brilhante. Fazia lembrar ópera ao ouvidos dos guitarristas? pois fazia. Era genial. E só uma voz como a dela, timbrada, maleável, poderosa, muito bem colocada,  poderia fazer justiça a composições dessas. Ora, eu que tenho como base o estudo da voz no canto lírico ao fazer o curso de canto no conservatório nacional, e depois tendo eu enveredado por uma verdadeira descoberta de outros estilos musicais além do clássico , e tendo eu feito uma carreira onde procuro sempre criar projetos diferentes do comum, que época poderia ser mais interessante ( dentro do Fado) do que essa onde Amália nos inspirou exatamente a criar e seguir rumos diferentes?é para mim a verdadeira época romântica do Fado.Tal como a época romântica na Ópera.

 

 

Recria fados em ópera. Qual o maior desafio?

 

E não recrio fados em Ópera . O que sempre fiz ( desde sensivelmente 2002), e gosto de fazer, é ligar esses dois mundos. Ou ainda melhor, homenageio Amália , o Fado, seus compositores e autores, com as minhas influências da Ópera. São dois mundos muito próximos de mim e que vincaram a minha personalidade. Já me chegaram a dizer ( e não estou a brincar, foi durante uma aula de canto lírico)  que eu estava a cantar uma ária da Ópera “La Bohème” com laivos, ou trejeitos  de fado ( risos). E há bem pouco tempo ( aconteceu durante o ensaio de som ) estava eu a cantar o single do meu novo CD,  “O nosso Povo” num palco ao ar livre  e juntam-se muitas pessoas a assistir. Muitos estrangeiros também. Depois do ensaio , aproximou-se um senhor estrangeiro a perguntou-me o que é que eu estava a cantar. Eu disse-lhe que era a nossa canção tradicional, Fado, mas com arranjos mais clássicos, e ele responde logo que lhe parecia quase ópera. Achei interessante . É claro que os arranjos musicais dos fados que canto no meu CD têm sempre muito de clássico, mas a minha voz também acaba por dar esse “toque” mais lírico dada a minha formação vocal. Ou seja, sempre uni os dois universos desde muito cedo na minha vida. O Fado e a Ópera. O meu primeiro trabalho discográfico editado em 2006  o ” Fado em Concerto” foi nitidamente uma união entre o Fado, o barroco , a Ópera e canto lírico. 

 

 

Quando surge a ideia de convidar Claire Jones para este disco?

 

Surge desde o momento em que pensei criar um diálogo entre a guitarra portuguesa e um instrumento que fosse bastante romântico e que se utilizasse muito na Ópera. A harpa é um deles. Eu precisava encontrar uma harpista que fosse também solista e que gostasse , tal como eu, de clássico e world music. A harpa é o instrumento mais tradicional e importante no País de Gales, de onde saem algumas das melhores harpistas do mundo. Encontrei a Claire Jones e foi automático. Tinha de ser ela. É maravilhosa. Tem um currículo brilhante que, para além da formação musical na Royal College of Music, integra no seu curriculo 7 anos a tocar como harpista oficial do Prince Charles e da casa Real de Inglaterra. Tocou inclusive no casamento do Prince William e da Kate.Faz projectos de world music também. Ela aceitou e ainda trouxe a mais valia de ter como esposo um excelente músico, percussionista e compositor ( que trabalha na West End) que me propôs fazer os arranjos para este CD. Foi tudo muito natural e a empatia que sentimos foi imediata.

 

 

Qual a principal mensagem deste disco?

 

A mensagem deste disco prende-se muito com a letra do single ” O nosso povo”  de Carlos Paião. É uma elevação romântica da alma de um povo que se distingue pela capacidade de se reinventar. 

 

 

Num ano de muitos e bons discos, em que poderá “Royal Fado” marcar a diferença?

 

Porque é de facto diferente do que tem saído para o mercado.  É um novo olhar apenas. Tal como foi a época Amaliana onde me inspirei para o elaborar. Se eu ouvir de alguma forma “…lá vai ela para as óperas…” então quer dizer que marcou a diferença ( risos). 

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