Zé Manel tem novo single e confessa que “não sou saudosista em relação à forma como o mundo estava antes desta situação toda nos tomar de assalto”

O cantor Zé Manel lançou recentemente o single, e respectivo videoclipe, ‘Pessoas Reais’ e conversou com o Infocul.pt sobre este trabalho e ainda sobre o que está a preparar a curto/médio prazo.

 

Fez ainda uma sucinta análise do percurso, inclusive do tempo dos Fingertips, e abordou a descriminação (nas suas várias vertentes) na sociedade.

 

Neste novo single, aborda temáticas como racismo, xenofobia e questões de género.

 

Como está a ser vivido este regresso a uma nova realidade, pós-pandemia?

Está a ser vivido com a serenidade e capacidade de adaptação necessárias. Percebemos que tudo o que damos por garantido pode mudar num estalar de dedos e temos que encarar estas fases como oportunidades de crescimento e revisão das nossas crenças e hábitos. Não sou saudosista em relação à forma como o mundo estava antes desta situação toda nos tomar de assalto, até porque acho que serviu para evidenciar e discutir uma série de questões que parecíamos querer ignorar e mereciam há muito ser repensadas, portanto, acredito e desejo que possa ser a ignição de um processo de transformação.

 

O seu novo single aborda temas como racismo, xenofobia e questões de género. Sente que são questões ainda alvo de discriminação?

Obviamente que sim. De outra forma não seria sequer motivo de discussão ou dividiriam tanto as pessoas. Temos que parar de discutir ou impor a  normalização destes factores diferenciadores, aprendendo sim a celebrá-los, a respeitá-lo e a não lhes dar um tamanho que não devam ter no nosso quotidiano. Primeiro, porque não são escolhas, segundo, porque são um direito, terceiro porque são irrelevantes para que tenhamos uma convivência saudável com os demais.

 

Não sente que são as próprias pessoas defensoras destas temáticas que muitas vezes auto excluem-se da restante sociedade?

Não. Sinto sim que por vezes a sua mágoa e a sua discriminação histórica os faz lutarem pela sua causa de forma pouco inteligente. Porque não devia haver tantas causas e tantas lutas subdivididas por grupos mas sim uma causa global defendida com civismo e diplomacia por todos. A do amor, da liberdade, dos direitos humanos, independentemente da cor de pele, do amor, da religião ou do partido político de cada um.

 

Quando começou a preparar este single?

Este single começou a ser trabalhado com o Beatoven, pouco antes de ser declarado o estado de emergência. Durante o período de confinamento, com a situação da precariedade no ramo artístico, do George Floyd, da divisão de opiniões em relação ao cumprimentos as medidas decretadas e com um maior tempo para atentar ao ódio e aos assuntos que vejo constantemente empolados nas redes sociais, onde todos falam sem filtro e se assumem como provavelmente não fariam na vida real, percebi que estas palavras ainda fazem muito falta, ainda precisam de ser repetidas diversas vezes e de quem tenha a coragem de o fazer com amor e tolerância por quem não as entende.

 

Conta com algumas caras conhecidas neste videoclipe. Quem entra no videoclipe e o porquê da escolha?

Foi lançado um desafio nas minhas redes sociais e convidei todos os que fazem parte da minha vida ou gostam da minha música a filmarem-se numa parede branca, vestidos de branco, a exprimirem o que quer que este tema lhes transmitisse. Quis que fosse um vídeo com representatividade, onde se percebesse que as pessoas são só pessoas e que nós é que as transformamos em rótulos através da forma como as olhamos.

 

Analisando o seu percurso, houve alguma mudança do Zé Manel dos Fingertips para o Zé Manel a solo?

Essencialmente o Zé Manel é mais livre e menos condicionado pela expectativa comercial da música. Talvez seja mais masoquista e inconsequente. O Zé Manel dos Fingertips é mais virado para o público, para uma equipa e para o respeito que tem que ter por essa carreira que em conjunto criámos e nos levou ao coração das pessoas. Ambos estão mais crescidos e aprendem todos os dias um com o outro. Tenho a sorte de ser os dois e pretendo não me esquecer de nenhum.

 

Como foi vivida esta fase de confinamento, por si?

 Na realidade foi vivida de forma pro-activa e rentabilizadora. Fiz uma hora biológica na varanda, aprendi a pintar e a cortar o meu cabelo, tosquiei a minha cadela, aprendi a fazer pão. Poupei dinheiro e ainda adoptei uma nova justificação para o meu lifestyle: estar a ser cumpridor. Sempre fui caseiro, sempre foi difícil tirar-me de casa e portanto, não obstante das normais preocupações profissionais e financeiras pela profissão que tenho, acho que vivi tudo com relativa calma e sem entrar em grande pânico. Não me molesta particularmente não sair de casa e estar mais restrito ao convívio exacerbado, contando que possa continuar a trabalhar e a criar income através de casa.

 

O que mais o assustou e preocupou?

Preocupou-me a saúde dos mais velhos, a irresponsabilidade dos mais jovens e o quanto isto expôs as carências emocionais e a solidão das pessoas.

 

Em termos de projectos para 2020, o que já pode ser revelado?

O Pessoas Reais é o primeiro avanço do projecto Expectativa/Realidade, que será contado por duas partes, respectivamente. O Expectativa será divulgado ainda este ano e o Realidade em 2021, sendo peças complementares que pretendem mostrar dos lados do mesmo artista, que existem e acredito poderem conviver, entre o que os outros esperam de mim e o que eu sinto necessidade de fazer, musicalmente.

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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