Zé Perdigão tem novo disco e assume “Portugal é muito pequeno para mim”

 

 

 

‘EnCanto’ é o novo disco de Zé Perdigão numa homenagem a Cabo Verde, onde vive actualmente, a ao continente Africano. É Zé Perdigão a surpreender de novo mas com a voz de sempre, num trabalho discográfico que conta com 10 faixas.

Numa produção assinada por Kaku Alves e Rob Leonardo, o disco conta com a participação dos autores/compositores Zé Rui de Pina, George Tavares, Epifânio Tavares (Fany), Silvio Brito e Dino D’Santiago. O disco conta com selo da editora Ovação.

 

“uma terra de encanto, um povo simples, humilde e desejável”

Em entrevista ao Infocul, Zé Perdigão começa por explicar o duplo significado do nome do disco, ‘EnCanto’, pois “por isso é que está com o E e o C em maiúsculas porque é EnCanto, porque eu sou uma voz, que ando pelo mundo sempre a cantar e encanto porque é terra, Cabo Verde, que é de facto uma terra de encanto, um povo simples, humilde e desejável, um povo que eu gosto muito ter como um jardim à minha volta e daí este meu encanto”.

Explicou-nos que “desde que cheguei a Cabo verde em 2015 fui sempre muito bem recebido, até hoje, graças a Deus e estou muito bem inserido na comunidade Caboverdiana e este foi um trabalho fruto da minha estada em Cabo Verde até agora, e portanto continuo encantado com Cabo Verde e com a simplicidade de um povo, como eu gosto de estar na vida, também”.

 

“fui sempre ousado em todos os trabalhos”

 

Depois de ‘Os Fados do Rock’, ‘Sons Ibéricos’ e ‘Sonidos Ibéricos’, eis que surge um novo disco, também ele surpreendente. Zé diz-nos que “fui sempre ousado em todos os trabalhos, não há um trabalho igual ao outro. ‘Os fados do rock’ há 10 anos atrás foi uma pedrada no charco, portanto ter a ousadia de ir buscar temas do pop-rock nacional para o Fado, para cantar e somente orquestrado com guitarra portuguesa, viola de acompanhamento e baixo, é de facto foi uma ousadia, foi uma pedrada no charco e foi muito bem aceite na altura. Logo a seguir vem os ‘Sons Ibéricos’, que foi outra pedrada no charco porque eu quis unir a ibéria, porque nós temos muito em comum. Portugal e Espanha, temos tudo em comum, povo, a cultura, tudo, e no meu ponto de vista a ibéria deveria ser só um país e não dois, para que as coisas resultassem melhor e foi um trabalho que em 2014 me dá o direito à nomeação pelo Governo Provincial de Buenos Aires com a distinção de cidadão honorário de Buenos Aires. Depois vem o CD/DVD desse mesmo trabalho e pelo meio há ainda um dos trabalhos que foi gravado só para plataformas digitais o ‘Sonidos Ibéricos’, com poemas de Pablo Neruda, Gabriela Mistral e muitos outros autores e portanto nunca segui uma linha direitinha. O cantor que canta o amor, canta sempre o amor, o cantor que canta a revolução, canta sempre a revolução, mas eu não. Eu sou uma voz do mundo, sou uma voz da world music e portanto o mundo é a minha casa e Portugal é muito pequeno para mim, em todos os aspectos tanto musicais como para viver. Este era um trabalho que eu tinha no meu horizonte, porque sempre gostei da música de raiz caboverdiana, porque é muito rica. Naquele pais dá-se um chuto numa pedra e aparece um músico. A morna, o funaná, Coladera, Batuco, todos os estilos que Cabo Verde tem são riquíssimos em qualquer lado do mundo e eu sempre adorei a música de Cabo Verde e quando em 2014 parei porque cortei o cordão umbilical com a produtora anterior, tinha que fazer um ano sabático era obrigatório para pensar que trabalho vem a seguir, e o trabalho que vinha a seguir era numa linha totalmente diferente como todos os outros que estavam para trás e eu não podia continuar numa linha de sons ibéricos e esse ano sabático, já estava pensado que seria em Cabo Verde e foi lá que eu encontrei este encanto que agora temos em mãos e estes dez temas de cinco autores e compositores Caboverdianos: José Rui do Pina, Dino D’Santiago, Jorge Tavares, Sílvio Brito e Fani, são os compositores caboverdianos que compuseram estes dez temas, que estão neste álbum, que foi gravado totalmente em Cabo Verde sob a produção do grande músico internacional Kaku Alves, que me acompanhou e fez arranjos para a grande Cesária Évora durante 20 anos, foi gravado nos estúdios XL em Santiago, sob a alçada do engenheiro de som Rob Leonardo que é um norte americano que está radicado em Cabo Verde, uma sonorização e execução musical de uma qualidade ímpar e eu penso que estive ao nível em relação à voz”.

 

“posso adiantar que o próximo trabalho está sediado na América Latina”

 

Este disco tem já uma digressão agendada, que “vai acontecer no mês 6, em Junho, e começa no Brasil, com 10 concertos em 4 ou 5 estados do Brasil, vou começar por Maceió no estado de Alagoas, sei que venho a Pernambuco, onde o Recife está contemplado além de outros, depois vou a São Paulo, Rio de Janeiro e volto a Cabo Verde”.

Em termos de alinhamento para esses espectáculos, revela que “é evidente que eu não vou cantar só estes temas, eu vou fazer uma viagem por todo o meu percurso, claro que vou passar pelos Fados do Rock, pelos Sons Ibéricos, pelos Sonidos Ibéricos e vou acabar no EnCanto, portanto é um concerto todo ele muito eclético e faço todo o possível para que os meus concertos não sejam cansativos, ou seja que tenha muitas cores, muito ritmo, que tenha tudo aquilo que o público gosta”, antes de deixar uma novidade: “posso adiantar que o próximo trabalho está sediado na América Latina”.

Um dos compositores deste disco é Dino D’Santiago, nome em grane destaque na cena musical lusófona, e Zé Perdigão revela-nos que “Cabo Verde é a ligação com o Dino D’Santiago, ele que é por excelência um grande interprete, compositor e autor, que merece tudo o que está a ter e que já devia ter tido, as pessoas é que às vezes andam distraídas com algumas grandes vozes e grandes compositores que estão na praça. Ele é de facto uma pedra com mais valia para este trabalho, que escreveu um tema lindíssimo que é o ‘Santa’, e que foi dedicado à sua avó”.

Explicou-nos, um a um, cada tema, pois “quase todos eles, os temas dos compositores, revelam qualquer coisa do quotidiano ou qualquer coisa de real que aconteceu, portanto aqui não há fantasia. Portanto, ‘Cabo Verde Encanto’ foi dedicado à minha ida para Cabo Verde, da autoria de Jorge Tavares, portanto é um tema que retrata muito aquilo que sou em Cabo Verde e a forma como Cabo Verde me acolheu e daí também o ‘Cabo Verde Encanto’ dar nome ao álbum, o ‘Tristi Notícia’ é um tema de Fany, que fala sobre a morte do primeiro presidente em democracia de Angola, Agostinho Neto e a forma como Bia, a sua mãe, recebe a noticia da morte de mais um filho, com resiliência, com calma e paz. ‘Nha Terra’ é o tema single deste álbum, é também da autoria de Jorge Tavares, é um tema que fala sobre ele próprio porque ele nasceu na ilha do Maio, portanto para que não conhece Cabo Verde, são 10 ilhas, uma delas não é habitada que é Santa Luzia, as outras são todas habitadas e Jorge Tavares é natural da ilha do Maio e é um tema que retrata a emigração dentro do próprio país, as pessoas vêm das ilhas mais remotas geralmente para a ilha de Santiago e para a Cidade da Praia onde é a capital à procura de melhor vida, e portanto é um tema que retrata precisamente esse problema que existe dentro do próprio país. ‘Santa’ já disse que era de Dino D’Santiago. ‘Emigração’ é um tema que é comum tanto a Portugal como a Cabo Verde, somos um povo que emigra à procura de uma vida melhor e emigração está-nos no sangue, porque se as coisas estivessem bem em ambos os países, as pessoas não saíam. ‘Maravilhosa’ é um tema dedicado a Cabo Verde, na sua essência, portanto podem julgar que é uma mulher, mas não é, essa mulher chama-se Cabo Verde, são as ilhas e retrata o encanto, que é Cabo Verde como sol, como praias, como tudo. ‘Flor di polon’, é de Silvio Brito, é o único tema que ele assina aqui e retrata a escravidão vinda da costa ocidental da África passando por Cabo Verde e seguindo depois para a América do Norte e América do Sul. ‘Nós encontru’ é uma morna lindíssima de Zérui di Pina que é um encontro com a terra, foi escrita para mim e é o meu encontro com Cabo Verde, é uma morna lindíssima e muito simples. ‘Angola’ é também de Zérui di Pina e retrata um dos tios que ele tinha aquando da guerra civil em Angola e que vivía em Angola e que era a preocupação dele e de todos os outros que não pertenciam a Angola, e a única preocupação era sair de Angola com a esposa e com os filhos e salvar a sua pele. ‘Amor Cretcheu’ é também uma morna lindíssima de Fany, é uma declaração de amor dentro dessa morna. São dez temas, ou autobiográficos ou escritos para mim, que retratam muito bem o que é Cabo Verde e a sua gente no seu todo”.

 

“por vezes sofro muito porque tenho o lado emocional mais elevado que o lado rácio”

 

Zé Perdigão confidenciou-nos depois um lado mais pessoal, no qual agrega a emoção e a razão, revelando que “por vezes sofro muito porque tenho o lado emocional mais elevado que o lado rácio. Para te ser sincero as coisas matérias nunca me foram muito pegajosas, eu não vivo para o material, eu vivo mais para o espiritual e eu sei que isto aqui é tudo uma passagem, portanto nós um dia num segundo já cá não estamos e eu tenho muito presente esse lado e a única preocupação que eu tenho é fazer as coisas muito bem feitas e deixar obra, e estou marimbando para o iate, para o carro, para a casa, para tudo isso, porque isso não é meu, fica aqui, e a minha filosofia de vida é a simplicidade, tem tudo sido a pulso, eu não tenho um banco em casa, o meu suor e o meu trabalho que depois vou poupando para depois construir um novo trabalho como este EnCanto. Eu não vivo afortunado, vivo do meu trabalho. Vivo para estar vivo e para fazer o que mais gosto que é cantar”.

Actualmente a viver em Cabo Verde, questionei-o se Portugal lhe devia algo, disse-nos que “Portugal não me deve absolutamente nada e eu não devo nada a Portugal, é recíproco, sou português, falo português sempre que posso, mas não me obriguem a cantar sempre português porque eu sou uma voz do mundo”, disse de pronto.

 

“Portugal tem sido pouco solícito para com Zé Perdigão”

 

Em termos de espectáculo disse que “começa no Brasil, mês de Junho completo, depois tenho o Canadá a apelar para Setembro, em Outubro o Brasil grita outra vez e a Argentina também”, dizendo que “Portugal tem sido pouco solícito para com Zé Perdigão”, quando questionado se o poderíamos ver actuar em Portugal no decorrer de 2019.

Além da música, a fé ocupa grande parte da vida de Zé Perdigão, até porque “eu sou um homem que vivo a maior parte do tempo solitário e sinto-me muito bem com a solidão e todas as amizades que vem incomodar a minha solidão e não se entregarem como amizade só estão a estorvar, sou um homem meditativo, que contempla, pensa e sofre com tudo o que sente e vê”, expressando um desejo ao povo português para que este “fosse mais feliz e quem governa deixasse que o povo fosse feliz”.

Aos leitores do Infocul, “quero somente agradecer, estou eternamente grato por tudo, por este tempo, por esta entrevista. Quero deixar um alerta, que eu acho que é humano, nem tem nada de político. A comunidade dos países língua portuguesa, só poderá funcionar, quando houver mobilidade de pessoas e bens dentro dos países da CPLP e lusofonia só vai acontecer quando essa mobilidade for possível, eu só apelo a quem de direito que resolva isso rapidamente possível, eu não me revejo como cidadão da CPLP tendo de ter visto para entrar em Cabo Verde ou Angola, ou num outro pais de língua oficial portuguesa e pertencendo a esta organização da CPLP, se o organismo existe só pelo nome, então não existe. É necessário que Zé Perdigão seja acompanhado por músicos africanos e que esses músicos tenham as mesmas condições que o Zé Perdigão tem com o passaporte português para entrar em qualquer pais do mundo, nós corremos o risco de ir ao Canadá e os músicos africanos ficarem no aeroporto, o mesmo risco trazê-los para Portugal e eles ficarem retidos no aeroporto e este disco é também uma chamada de atenção para isto”.

Deixou ainda agradecimento à “Editora Ovação que decidiu apostar neste trabalho e agradeço à Ana e ao Pedro, por isso”.

 

 

 

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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