D.A.M.A., Buba Espinho e Bandidos do Cante: A Magia aconteceu em Lisboa sob o signo do Amor

D.A.M.A., Buba Espinho e Bandidos do Cante: A Magia aconteceu em Lisboa sob o signo do Amor, na noite de ontem.

D.A.M.A., Buba Espinho e Bandidos do Cante: A Magia aconteceu em Lisboa sob o signo do Amor

Texto: Rui Lavrador
Fotografias: Fábio Teixeira

D.A.M.A., Buba Espinho e Amigos do Alentejo (abordados carinhosamente como Bandidos do Cante durante o espectáculo, sendo esse também o nome do projecto que junta algumas das vozes que ali estiveram) actuaram no Coliseu dos Recreios, este sábado – 3 de Junho, no primeiro de dois concertos que marca a estreia dos D.A.M.A. na mítica, e mais importante, sala lisboeta.

Num ano de desenfreado anúncio de espectáculos, festivais e similares, há a tendência do consumo ‘chiclete’, imediato e de pouca durabilidade. Isso não é possível fazer com o concerto que ontem se realizou em Lisboa.

Profundo, estético, emocionante e de uma leveza arrebatadora, exemplo máximo de como o melhor da vida está na simplicidade dos actos e na intensidade com que os vivemos. É sobre Amor, as linhas que se seguem.

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2023 tem-se revelado um ano com uma grande carga de eventos musicais, muitos deles sobrepostos, e, talvez, devido a tamanha oferta, nem sempre se consegue saborear os concertos com a densidade emocional que eles merecem.

Os D.A.M.A. (Com Buba Espinho e os Amigos do Cante) fizeram tudo ao contrário da maioria e em boa hora o decidiram.

Trouxeram para a mítica sala lisboeta o “Monte da Saudade”. Uma mesa corrida, todos os artistas actuantes em redor dela, decoração com alma do Alentejo e toda a restante cenografia de um bom gosto assinalável.

O nome dado a este espaço cénico é uma homenagem a Saudade, a Chef da Taberna A Pipa, sita em Beja, onde nasceu a canção ‘Casa’, de D.A.M.A. com Buba Espinho, em que os artistas foram recebidos com “muita comida e abafadinhos”, mas “acima de tudo com muito amor”, como revelou Miguel Cristovinho a dada altura do concerto.

No palco do Coliseu de Lisboa, esteve raiz, história, vidas de trabalho e uma magia que raramente acontece. Ali foi Amor e Energia que a qualidade dos actuantes transformaram em Arte.

E a Arte tem nome(s): Francisco Pereira (Kasha), Miguel Coimbra, Miguel Cristovinho, Buba Espinho, Eduardo Espinho, Luís Aleixo, Francisco Pestana, Duarte Farias, Francisco Raposo, Miguel Morais Costa e Francesco Meoli. A dada altura do espectáculo juntaram-se Vitorino e Los Romeros.

Não há pólvora por inventar, há criatividade, renovação da tradição, respeito pelas raízes e a necessária contemporaneidade para que o público de agora consiga perceber a mensagem que é transmitida. Ontem o que ali fora oferecido atingiu o patamar de magnânimo.

A mescla entre as canções dos D.A.M.A. (Deixa-me Aclarar-te a Mente Amigo) e o cancioneiro tradicional alentejano resultou. A construção do alinhamento foi extraordinária. As interpretações e distintas vozes estiveram numa noite a roçar a perfeição. Foi “bagunça” emocional, “viagem” num limbo entre passado, presente e futuro e “Casa” em que todos, artistas e público, saíram melhores do que ali entraram.

Estamos cá pela primeira vez no Coliseu dos Recreios, na nossa cidade. Vamos celebrar as nossas músicas, mas ainda mais a vida. Vão sair daqui com mais do que trouxeram”, disse Miguel Cristovinho.

Sejam bem-vindos ao monte da saudade. Decidimos trazer este bocadinho de Alentejo aqui. Queríamos muito simular o dia em que conhecemos maioria das pessoas que estão aqui hoje, à excepção do Buba, que já conhecíamos há mais tempo”, acrescentou.

Miguel explicou depois como surgiu a criação do tema ‘Casa’, numa chamada com Buba Espainho: “Queremos ir para o Alentejo, respirar o cheio da rua terra, ver campos de girassóis, comer secretos e migas. Vamos jantar e depois vamos para estúdio, ver o que sai. Montamos o estúdio numa casinha aí. Leva amigos teus que cantem bem”, contou.

Os meus amigos cantam todos bem”, disse Buba na altura.

O resto é história e a música um verdadeiro sucesso.

Nesse dia, os artistas foram jantar à Taberna A Pipa, que anteriormente referimos, em que foram recebidos pela Saudade e pelo Jorge (que ali têm o seu negócio, servido com história e temperado com afectos). E foi em homenagem à Chef desse espaço, que surgiu “O Monte da Saudade” no palco dos coliseus (Porto e Lisboa) que estes artistas esgotaram.

A Saudade e o Jorge encheram-nos de comida e abafadinhos. Mais do que isso, encheram-nos de amor”, reforçou Miguel Cristovinho.

Em outro momento do concerto, foi ainda destacado o trabalho que estes jovens cantadores alentejanos desenvolvem diariamente, levando o Cante Alentejano às escolas, para o ensinar à geração mais nova.

Isto acontece [o tema Casa e tudo o que daí surgiu] porque há aqui pessoas, o Buba e os Bandidos do Cante, que cantam desde pequenos o cante alentejano. Essa é a verdadeira riqueza que encontramos lá. Raiz. Pessoas orgulhosas das suas raízes. Qualquer pessoa se sente portuguesa a ouvir cante alentejano. Estão a ensinar os miúdos. A criar a futura geração. Fomos as escolas e vimos isso. Quando vemos 20 a 30 miúdos a cantarem e rendidos ao Cante, é porque aquilo lhes toca”, reforçou o elemento dos D.A.M.A.

A noite terminou com Luís Palha, que em conjunto com os D.A.M.A e Meoli, criou a música e a letra do tema ‘Casa’, junto de todos os artistas (o tema inicialmente era para chamar-se ‘Descanso’). Foi ainda entregue uma oferta a todos os elementos que participaram no tema que assinala a obtenção do galardão de ‘Dupla Platina’, que a canção já atingiu.

O que estes rapazes fizeram em palco foi demonstrarem através da música, que devemos despir a alma sem receios e entregar o coração a tudo o que nos propomos. Mesmo que o resultado não seja o esperado, está sempre tudo certo. Porque o Amor (nas suas diferentes formas e vertentes) não tem de ser perfeito. Basta que seja verdadeiro.

A música portuguesa deve proteger, cuidar, exigir e acarinhar estes rapazes. Eles são futuro que respeita o passado.

Particularmente, olharei sempre para os D.A.M.A. com a mesma surpresa que há muitos anos os vi nas Festas do Mar, em Cascais, a actuarem numa primeira parte de um cabeça de cartaz, na altura. Cresceram, amadureceram e estão numa fase de profunda beleza artística. É a vida a acontecer e o tempo a colocar tudo no seu devido lugar.

[Best_Wordpress_Gallery id=”5792″ gal_title=”D.A.M.A. – Coliseu dos Recreios- 2023″]

Alinhamento:

MANHÃ:

Verão, Alentejo e os Homens
Não Dá
Os guardas bateram
Às vezes
Casa

TARDE:

Luísa
Roubei-te um beijo
Balada do Desajeitado
Pelo Toque da Viola
Oquelávai
Menina Estás à Janela (Com Vitorino)

NOITE:

Um dia hei de voltar (com Vitorino) – Novo single de Buba Espinho a sair em breve
Era eu
É o que é
Pensa bem
Não é tarde nem é cedo
Sozinhos à chuva

Encore:

Loucamente (com Los Romeros)
Não me importo (Los Romeros)
Casa (com todos em palco)

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