Mês de Junho, mês dos Santos Populares e também altura para começarmos a ‘arrumar’ as edições discográficas de 2019. Para este Vento Norte, os meus convidados são os discos desta primeira parte do ano que mais me captaram a atenção e claro a audição, uma espécie de inventário do primeiro semestre.

Vamos então viajar por 2019:

Mísia “Pura Vida (banda sonora)” – diz-se que depois da tempestade vem a bonança e este disco pode bem ser a prova disso. Depois de dois anos particularmente difíceis, Mísia traz-nos um dos seus mais corajosos trabalhos – a banda sonora que idealizou para esses que diz terem sido os piores anos da sua vida. Uma espécie de viagem musical por variados sentimentos com uma só certeza: podemos ir sempre buscar a inspiração, mesmo nos momentos mais tensos. Esta banda sonora bem pode ser a banda sonora de tantas outras vidas.

Cláudia Picado “Reflexo” – apresentado pelo lindíssimo “Fragilidade” há muito mais a descobrir por aqui. Cláudia Picado reuniu uma série de inéditos, juntou alguns Fados tradicionais e o resultado é um disco coeso e de muito bom gosto. Excelente produção, excelentes músicos e a Fadista a brilhar na interpretação. O disco de mudança para Cláudia Picado.

Pedro Moutinho “Um Fado ao contrário” – Não se deixem enganar pelo título, não temos aqui nenhuma modernização ou tentativa de fugir ao Fado. Pedro Moutinho continua é a levar ao Fado a sua sensibilidade musical, sem nunca adulterar o seu estilo e personalidade. Ouçam por exemplo a lindíssima “Força do mar”, escrita por Márcia e embalada pelo piano de Filipe Raposo e percebem logo que a alma do Fadista continua a crescer de disco para disco.

Patrícia Costa “EP” – a ideia não era fazer um disco e esperar que alguns temas chegassem ao público. A ideia era pegar numa mão cheia de inéditos e fazer com que cada tema tivesse o seu protagonismo… pela música, pelo poema, pela interpretação, principalmente pela intenção musical. São seis Fados lançados em formato digital que vão do tradicional ao mais contemporâneo mantendo a identidade e o cunho pessoal da Fadista.

Lenita Gentil “Lenita” – este é o disco que antecipa os 50 anos de carreira de Lenita Gentil, produzido por Jorge Fernando. Lenita escolheu o reportório que vai dos Fados tradicionais a uma ranchera (“Gracias a la vida”). Excelente escolha de reportório interpretado com a garra que Lenita sempre nos habituou. “Rasga o passado” com um brilhante arranjo, encerra o disco que não ‘rasga’ o passado de Lenita mas dá pistas para o futuro.

Stereossauro “Bairro da ponte” – Amália Rodrigues e Carlos Paredes chegam ao hip hop com a modernidade que lhes foi sempre reconhecida. Mas não pensem que este é um disco de laboratório, Stereossauro entrou nos arquivos da Valentim de Carvalho, chamou uma mão cheia de convidados – de Carlos do Carmo a Dino d’Santiago – e faz uma sentida e genial homenagem à nossa música e cultura.

Maria da Nazaré e António Passão “Regressos” – Individualmente já não gravavam há mais de 20 anos e o ‘regresso’ fazem-no em dupla, motivados pela amizade e admiração mútua. Mas não se pense que é um disco de duetos, aqui cada fadista tem espaço para brilhar devidamente e o único dueto é o tema que encerra o disco. Reportório muito bem escolhido, excelente acompanhamento musical e claro, duas vozes que com o tempo ficaram (ainda) mais fadistas. Um ‘regresso’ há muito esperado.

Mara Pedro “Tic-tac” – uma das vozes mais bonitas do nosso panorama musical lançou um disco que faz a ponte entre os seus dois países de coração – Portugal e França. Com produção de Custódio Castelo, Mara Pedro percorre o seu ‘tempo’ artístico e pessoal com várias composições suas, Fados tradicionais e duas homenagens a Amália e a Alberto Janes (em francês). Um disco adulto, de muito bom gosto e que mostra que Mara Pedro está no seu próprio caminho e com todo o tempo do mundo.

Fernanda Moreira “ComTradição” – este é um disco de Fado puro e duro. Só tradicionais, acompanhados à viola, guitarra e baixo. Fernanda Moreira fez uma longa pesquisa em poemas inéditos, juntou tradicionais como o Fado José António ou o Fado Freira e dá-nos um dos grandes discos de 2019, um dos grandes discos de Fado dos últimos anos. Para ouvir com muita atenção.

Lena d’Água “Desalmadamente” – o grande disco pop deste primeiro semestre, talvez o grande disco pop do ano! Após um interregno de vários anos sem gravar, Lena d’Água junta-se a Pedro da Silva Martins e apresenta uma ‘grande festa’ em 10 temas absolutamente viciantes e deliciosos. Para dançar e cantar bem alto do princípio ao fim. Seja muito bem vinda menina Lena d’Água.

Bruno Chaveiro “Desatino” – doze anos passou desde que pegou numa guitarra portuguesa pela primeira vez, entretanto tornou-se um dos mais promissores músicos de Fado e ao primeiro álbum temos uma pequena amostra do seu enorme talento e versatilidade. Um disco que não chega aos 40 minutos de duração mas que encerra um mundo inteiro lá dentro. Desatinadamente obrigatório.

E aqui estão os meus fiéis companheiros musicais destes primeiros 6 meses do ano. Venham muitos mais e até ao próximo Vento Norte ouçam sempre e muito boa música… em português !!

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