Lisboa, 05 de Fevereiro de 2019. Faltam 10 dias para o segundo “Vento Norte” do Infocul e decidi falar-vos de algo que ultimamente, ou já há algum tempo, me inquieta: a surdez generalizada em que vivemos.

 

As salas de espectáculo esgotam com subprodutos musicais que se dizem Músicos, as Casas de Fado contratam cantores que se dizem Fadistas e o que nos dão é na melhor das hipóteses folclore, as multinacionais tirando raras excepções só editam clones do que já andamos fartos de ouvir, nos escaparates das lojas de discos vale tudo – desde que a editora pague o espaço são todos o novo Bowie ou a nova Amália, publicações especializadas em música transformam-se em revistas cor-de-rosa onde o importante é saber onde a Madonna lanchou ontem e já agora onde lanchou hoje também… e quem tem verdadeiramente talento e algo a dizer onde fica? Num limbo. Na incerteza. Na esperança que a sua Música saia da esfera do seu círculo de amigos e familiares e seja ouvida, mas ouvida mesmo.

A culpa é da Indústria Musical, é desta sociedade” – estou fartinho de ouvir. Eu vou mais longe: a culpa é nossa. É nossa porque deixamos de ser intelectualmente curiosos. É nossa porque permitimos que nos moldem o gosto. É culpa dos cantores e músicos que preferem vender a alma ao diabo do que serem fiéis a si próprios, é culpa das rádios com as playlists sabotadas, é culpa de todos aqueles que por preguiça ou falta de interesse nem se dão ao trabalho de ouvir… mas ouvir mesmo! Com sentido crítico, com interesse, com vontade de aprender, apenas com vontade de se permitir emocionar (ou não). Não é “antigamente é que era bom”, ou “antigamente havia mais tempo e menos stress”. Antigamente não tínhamos era tantas distracções que nos afastassem do verdadeiramente importante.

O tempo de agora é o público querer música que não os faça pensar muito, são os músicos e cantores não ouvirem os colegas, é o tempo em que dar dinheiro por um disco é financeiramente impossível mas até “tenho um telemóvel topo de gama que será trocado mal saia outro superior”, é o tempo em que nem sei quem é mas agora que morreu estou tão triste que até vou postar uma música dele/a no Facebook. E no meio disto tudo tenho saudades do Jonas que sem dinheiro gravava cassetes da rádio (rezando para que o locutor não interrompesse), do Jonas que com o primeiro ordenado foi a correr para a Valentim de Carvalho comprar 1 LP, do Jonas que desempregado foi obrigado a vender alguns dos discos que tinha e que pareceu estar a despedir-se de alguém, principalmente saudades de tantos “Jonas” que conheci nessa altura. Agora vivo num mundo de surdos, um mundo que não é feliz, porque um mundo sem Música nunca pode ser feliz. Agora vivo num mundo em que numa Fnac peço bilhetes para a Gal Costa e o vendedor me diz “já que gosta de música brasileira não quer comprar também bilhetes para a Pablo Vittar?”, vivo num mundo em que sabendo que gosto de Fado me convidam para ouvir folclore sem alma, vivo num mundo em que vou ver um concerto e a primeira pergunta que me fazem é se “estava cheio?”, vivo num mundo em que por vezes a única música audível é o som do silêncio. Infelizmente não foi a música que mudou, foram as pessoas que mudaram… e não foi para melhor. Só os “surdos” ainda não perceberam isso…

3 thoughts on ““Diz-me como ouves e eu digo-te como és…”

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    Precisamente.
    Vamos resistindo alguns, ligados a um “armazenamento externo” a todo esse barulho que nos tentam impingir…

    Forte abraço!

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    Caro Jonas Santos é cada vez mais prazeroso ler o que escreve.
    Bem haja

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