Hoje, é o dia em que foi decretado o Estado de Emergência, devido à pandemia que enfrentamos.

O Infocul ficou sem qualquer rendimento garantido, a curto e médio prazo. Toda a publicidade que estava acordada foi (obviamente) cancelada, devido ao cancelamento do eventos que seriam promovidos. Mas continuaremos aqui, a informar e a ter opinião. Mas separando a notícia da opinião. Este texto é apenas a opinião do Rui Lavrador, não uma notícia do Infocul.pt .

O que me traz aqui é a inversão de valores que a cultura em Portugal está a revelar, numa situação de emergência.

No sector da música, passaram ao esquecimento os músicos que ganhavam 20/30 euros por noite e em que esse dinheiro era essencial para a sua sobrevivência. Destaque para os fadistas (os que actuam na maioria das casas de fado, cujo rendimento é muito baixo) e para músicos de áreas como o jazz (quase sem expressão mediática em Portugal, mas que existem) e a música clássica.

Posto isto, foi organizado um festival (que decorrerá durante mais alguns dias…) no qual apenas participam artistas das editoras responsáveis por este ‘evento’. Nem entrando pela escolha dos artistas, podemos abordar a transmissão através, apenas, do Instagram. Não seria melhor apostar, também, no Facebook?

Aliás, houve até vários artistas que fizeram isso (fora do dito evento) e outros que apostarem em passar actuações antigas (algo também válido, obviamente). Artistas sozinhos, e que sozinhos continuarão!

Se o objectivo era incentivar a que as pessoas ficassem em casa, bastaria ver que são os idosos quem mais resistência têm demonstrado em cumprir este isolamento social. Logo, transmitir via Instagram (uma rede social que maioria dos idosos não usa ou não sabe como usar) é algo que contraria toda a lógica.

Não está em causa que os maiores artistas (ou mais mediáticos como preferirem…) não estejam em dificuldade. Claro que estão! Mas os não-mediáticos e os que apenas cantavam em bares ou em espaços de restauração, estão com as suas necessidades básicas em causa. Se o objectivo é mesmo dar destaque à cultura, então comecemos por quem menos tem e que mais precisam.

Mais, usem estes artistas para fazerem a mensagem chegar aos idosos. Muitos dos fadistas mais velhos têm influência no seu bairro, na sua cidade. Vários artistas, destes, a agirem em conformidade em várias localidades (seja através de vídeos no Facebook ou até mesmo através da televisão, por videoconferência) seria muito mais efectivo na mensagem e na coerência, de algumas entidades que se escudam na cultura para se promoverem a si próprias.

O momento é de união, mas também de coerência e verdade! Não me parece que seja difícil criar algo universal e que possa englobar todos, sem criar divisões desnecessárias. A pandemia vai demorar…

Respeito todas as editoras, promotoras e agências da área musical, mas neste momento quero declarar o meu apoio àqueles que ganhavam 20/30 euros por dia, com condições de vida bastante frágeis e que hoje apenas têm na fé e esperança os seus suportes para o futuro (pelo menos imediato).

Apoio extensivo aos artistas independentes que, sem qualquer suporte, resistem!

Não podemos ainda esquecer os cantores da intitulada ‘música pimba’. Ganhavam a vida em espectáculos maioritariamente ao ar livre, com destaque nas comunidades portuguesas no estrangeiro. Ficaram sem sustento!

Mais do que explicar se o género A é mais válido ou melhor que o género B, trata-se de colocar todos no mesmo grau de importância numa situação de emergência. Porque não há vidas mais importantes do que outras. Há pessoas! Umas com mais e outras com menos meios financeiros disponíveis…

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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