Incompetência, é a melhor palavra para definir o processo de classificação do Concurso das Marchas Populares de Lisboa deste ano. Incompetência da EGEAC e talvez da tutela também.

Numa muito abreviada resenha, vou tentar explicar como são encontradas as classificações finais do Concurso das Marchas Populares. Em primeiro lugar é escolhido um júri (daria espaço para um artigo, se fosse falar das escolhas do elementos do júri e questionar o porquê dessas escolhas, mas não vou entrar por essa questão agora), que avalia as várias categorias como, cenografia, coreografia, figurinos, letra, música, entre outros itens (conferir página da EGEAC), classificando de 0 a 20 e justificando a nota atribuída. Em segundo lugar as penalizações de carácter administrativo, decorrentes do incumprimento dos prazo de entrega de documentação, ou seja, quanto se inicia o processo do concurso, existem várias fases, que obrigam entrega de documentação variada, que vai deste as declarações de não dívidas fiscais, entrega do projecto de cada Marcha (memória descritiva, projecto de cenografia e figurinos, materiais a usar, entre outros elementos), calendarização dos ensaios, composição das equipas, só como exemplo. Em terceiro lugar as penalizações decorrentes das actuações, quer no Pavilhão (Altice Arena), quer na Avenida (da Liberdade), ou seja, existe uma equipa da EGEAC, os verificadores, que confere tudo, desde a execução da coreografia, ao tempo de actuação, se cada elemento da equipa está no seu sítio que deve estar, entre muitos outros detalhes, que se não forem executados de acordo com o regulamento estão sujeito a uma penalização. Após a conferência de todos estes dados são encontrados os vencedores. Sim vencedores. Há o vencedor do Concurso das Marchas Populares e depois há os vencedores por categorias.

Mas agora vamos ao que interessa. No dia 13 de Junho, pelas 6:00 da manhã era anunciado o vencedor do Concurso das Marchas Populares de Lisboa 2019, bem como, as classificações de todas as Marchas. Era publicado (no momento em que escrevo ainda está online) na página da EGEAC os resultados com as respectivas pontuações. Entretanto, os mesmos já foram alterados duas vezes, mas a página oficial da EGEAC mantém a informação da primeira classificação. Como é do conhecimento de todos, até porque escrevi sobre isso, faço parte da Comissão da Marcha da Bica de 2019, para além disso, sou membro eleito da Assembleia de Freguesia da Misericórdia, Freguesia que tem duas Marchas, a Marcha do Bairro Alto e a Marcha da Bica, por isso mesmo, vou falar só do exemplo destas duas Marchas, sendo que, na dança de lugares até à data, houve subidas e descidas mais gritantes.

No dia 13 de Junho a Marcha do Bairro Alto estava em 5º lugar com 171,5 pontos e a Marcha da Bica estava em 8º lugar com 170 pontos. Passados vinte dias, no dia 3 de Julho, a EGEAC divulga uma nova classificação, resultado de um erro nos cálculos de entre os pontos do júri e as penalizações. Com esta actualização o que é que aconteceu às duas marchas que eu estou a usar como exemplo: a Marcha do Bairro Alto passou para o 9º lugar, com 97 pontos, e a Marcha da Bica passou para o 6º lugar, com 99 pontos. Entretanto os pontos passaram a ser arredondados. Nem tinham passado 24 horas e havia uma nova actualização. Sim, ainda não tinham acertado com as somas e as subtracções. Algo que qualquer formula básica no Excel consegue resolver, digo eu. Então, no dia 4 de Julho, a Marcha do Bairro Alto passou para o 6º lugar, mas agora com 172,5 pontos (voltamos a ter pontos com casas decimais), e a Marcha da Bica passou para 7º lugar, desta feita, com 171 pontos. Na verdade, cada uma destas Marchas tem mais 1 ponto do que a pontuação inicial, mantendo entre as duas uma diferença de 1,5 pontos, mas em vez de terem 3 lugares a separá-las na classificação, passaram a estar seguidas. Posto isto, podem imaginar a dança de lugares entre as restantes Marchas.

Mas a culpa não é só das contas. A responsabilidade é em primeira instância das equipas de verificadores, que a EGEAC coloca no terreno. Das duas uma, ou estão mal preparados, ou então sou levado a pensar que não levam a sério o seu trabalho. Como é possível existir tantas falhas? Como é possível explicar que os verificadores não tenham visto tantas falhas sujeitas a penalização? Será que as pessoas responsáveis na EGEAC, e em última instância na Vereação da Cultura, querem terminar com o Concurso das Marchas Populares? Como pode haver tanta falta de respeito e consideração pelo trabalho dos milhares de pessoas, que ao longo de meses preparam as Marchas Populares?

A palhaçada, desculpem-me a terminologia, é total. Parece que ninguém sabe de nada e que ninguém quer saber. Será que toda esta situação, porque na verdade ainda não sabemos qual será a classificação final do Concurso das Marchas Populares de Lisboa 2019, passará por entre os pingos de chuva e ninguém será responsabilizado, desde a EGEAC à Vereação da Cultura? Será que mais uma vez, como tem sido demonstrado nos últimos anos, ser uma tradição socialista na Cultura, que começa no governo, em que as coisas acontecem e a culpa morre solteira. Será que a oposição, na Câmara Municipal de Lisboa e na Assembleia Municipal de Lisboa anda distraída ou tal como o PS não dá a devida importância a esta tradição que está inscrita nas Festas de Lisboa, e que muito diz à população que vive nos vários bairros da cidade. Por favor, não matem a Cultura Popular, não matem a Cultura de Bairro, que tanto caracteriza a nossa capital.

Vale a pena pensar nisto!

P.S. – Peço desculpa pela falta de artigo a 8 de Junho, que até gostaria de ter publicado, por era o dia do meu aniversário, mas toda a preparação do desfile da Marcha da Bica no pavilhão e na avenida, deixaram-me curto de tempo; este mês não podia deixar em branco “o palco do mundo”, peço desculpa pelo atraso. Obrigado pela compreensão de todos.

Duarte Nuno Vasconcellos

Licenciado em História pela Universidade Autónoma de Lisboa, fez alguns trabalhos na sua área de formação mas cedo começou a trabalhar em produção. Iniciou o seu percurso profissional pelas mãos de Simone de Oliveira, como assistente de produção para o programa de entrevista da RTP Internacional Café Lisboa, em 1998. Entre 1999 e 2002, exerceu funções como produtor de locais, produtor de exteriores e responsável de elenco adicional e figuração no grupo NBP, hoje Plural Enterteinement. A sua ligação ao teatro começa em 2003 quando assume funções de produção e responsável de bilheteira da Companhia Teatral do Chiado. Função que ocupou até 2007, voltando a ocupá-la entre 2009 e 2011. Entre 2007 e 2009 fui produtor na Mandala e booker de actores e gestor de backoffice na Elite Portugal. Fundou, em 2011, a Buzico! damos palco às suas paixões, inicialmente actuado como produtora de espectáculo, Buzico! Produções Artísticas, em 2014 lançou a área de agenciamento de actores, a Buzico! Actores, e no início de 2018 lançou a B! Motion, vocacionada para o desenvolvimento de conteúdos audiovisuais, bem como, a gestão e programação do Canal de Youtube com o mesmo nome. Em 2017, foi convidado pelo CDS Lisboa a integrar as listas da candidatura Nossa Lisboa à Assembleia de Freguesia da Misericórdia, para qual foi eleito a 1 de Outubro. Em Maio de 2018, foi convidado pelo Presidente da Concelhia de Lisboa do CDS, Diogo Moura, para ser Coordenador da Área da Cultura do Conselho Consultivo de Lisboa.

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