Se atentarmos à historicidade, o ser humano sempre manifestou interesse na interpretação de si próprio!

O conceito de “Si” é e sempre foi uma linha de atenção primordial para filósofos (Sócrates, Platão, Aristóteles e Kant), religiosos (Santo Agostinho e São Tomás de Aquino), pensadores, políticos e, mais recentemente na história do pensamento, para os psicólogos (John Locke, David Hume e John Stuart Mill).

Com algumas diferenças, estes filósofos e cristãos igualaram o self ao “si mesmo” e ao “espírito”. Não obstante, o conceito de “self” surge apenas com as correntes do pensamento filosófico e psicológico do século XVII, com Descartes.

Em 1890, William James define o “self” como a soma de tudo o que a pessoa pode chamar de seu (Não apenas corpo e mente, mas as suas roupas, casa, esposa, filhos, antepassados e amigos, reputação, trabalho, terras, entre outras coisas) e deve ser observado através dos seus constituintes, dos sentimentos que estes despertam — self-feelings — e das acções que eles originam — auto-preservação, ou seja, o Auto-conceito. Este reflecte o sentido individual de valor pessoal, os sentimentos de adequação enquanto pessoa e a auto-avaliação da personalidade. “É o entendimento que uma pessoa tem de si mesma, baseada na experiência passada, nos dados presentes e nas expecctativas futuras.” (Carl Rogers ).

Definido assim como a percepção que o sujeito tem de si mesmo, sob vários pontos de vista, quer pessoais, quer sociais, quer espirituais ou morais, o auto-conceito depende na sua formação das avaliações feitas pelos outros, da comparação do comportamento do indivíduo com as normas dos grupos de referência, das atribuições pessoais feitas ao comportamento observável e, ainda, de outras influências socio-culturais (Bruges, 2006). O auto-conceito está, desta forma, intimamente associado à formação da identidade – “(…) usado para se referir à consciência que cada sujeito tem de existir como algo separado de outras entidades e objectos, implicando o conhecimento sobre si próprio e a capacidade de reflectir sobre esse conhecimento, que se combinam para criar o sentido de identidade .” (Aronson, Wilson &Akert, 2005).

Sendo assim, a identidade do ser humano poderia ser comparada ao moldar de um pequeno pedaço de barro pelas mãos do oleiro, na sua aprendizagem social – os valores culturalmente determinados, os papeis sociais representados (expectativas ou padrões de comportamento aceites pela família, comunidade e cultura) e a adaptação desses valores às exigências do papel social na temporalidade em que se desenrolam (época). Em que a ética do indivíduo (o seu comportamento ou agir) depende assim da identidade que o sujeito assume.

Essa moldagem da auto-percepção do indivíduo, como sentimento de uniformidade de ser ele mesmo perante uma sociedade, é feita pelo reconhecimento dos pares, das pessoas significativas e da consistência dessa percepção, por parte das mesmas, levando o indivíduo a inibir ou desenvolver determinados comportamentos ou emoções que surgem em diferentes contextos, no seu ambiente próprio. “E a moldagem é feita a quente” (Vaz Serra, 1986) – despertando emoções positivas nos comportamentos que gratificam e emoções negativas, nos comportamentos que punem.

As identidades do indivíduo são, desta forma, temporais e formadas face à sociedade de cada época, que valoriza ou não as mesmas quando estas estão ou não desenquadradas da sociedade. Sendo uma aprendizagem social, as identidades são uma expressão cultural do ser e segundo Potter (1997), o seu comportamento é baseado nos padrões estabelecidos pela socialização na medida em que os papéis sociais são normativos e dependem do valor cultural que lhes são dados, motivando o agir do sujeito para o social.

A identidade compreende assim, o sentido interno da individualidade, totalidade e consistência de uma pessoa ao longo do tempo, incluindo a constância e a continuidade, implicando ser distinto e separado de outros, sendo ainda um eu total e único. Este sentido de identidade coerente e consistente, evolui progressivamente e é influenciado pelas circunstâncias da vida.

O auto-conceito depende, assim, do valor que a sociedade lhe atribui consoante a época, variando consoante o meio socio-cultural ou subcultura deste. O sujeito adquire princípios de auto-segurança em certas fases da vida através de modelos significativos, mas tende a estabilizar com o tempo, procurando descobrir quem realmente é.

Nesta linha de pensamento, percebe-se o construto da identidade concomitantemente como individualidade e como globalidade, falando-se assim de um auto-conceito social, dimensão do auto-conceito global, e do seu construto identitário singular e colectivo, em que o indivíduo é auto-percepcionado em relação aos outros, pelo sue sentido de adequação pessoal e de mérito interacional – o outro eu! A identidade social do indivíduo não é apenas estática e pessoal, mas um construto dinâmico em relação à sociedade dos seus pares. É o sentido de pertença, de enquadramento num grupo que partilha características, desejos e objectivos semelhantes. Assim, o contributo social é uma das formas pela qual muitas pessoas dão sentido à sua razão de viver, influindo directamente sobre a maturidade emocional das mesmas (Altschul, 1977), uma vez que o sentido de pertença não está desligado da componente afectiva: identidade Social é “that part of individual self-concept which derives from his knowledge of his membership in a social group together with the value and emotional significance attached to that membership.”(Tajfel, 1978, p.63).

A maturidade social compreende o modo como nos interligamos com os diferentes círculos sociais com os quais interagimos, quer sejam família chegada, amigos íntimos ou simplesmente conhecidos, por essa ordem, podendo ser avaliada pelo nível de interesse expresso pelos membros dos diferentes círculos, cada vez mais distantes do nosso campo social íntimo e que se manifesta normalmente crescente.

O auto-conceito social atenta assim à nossa honra, aos nossos amigos, aos laços humanos, e a tudo o que diz respeito à pessoa, ou seja, é o reconhecimento ou percepção do sujeito pelos amigos ou pessoas significantes, a que Sullivant (cit. in Bruges, 2006, p. 72) designou de “significant others”.

Em sinopse, o conceito de identidade social remete-nos para a conjugação do auto-conceito pessoal e social, integrando características do carácter individual e de um determinado grupo social com o qual o indivíduo se relaciona e se insere. Esses diferentes contextos em que o indivíduo está inserido promovem as interacções que moldam a sua identidade, conduzindo à reflexão de que a identidade social não seria uma, mas um conjunto de identidades, uma vez que resulta ou resultam das relações sociais do individuo em concretos contextos de vivência.

Assim, o entendimento da identidade social seria o conjunto dos significados que definem um indivíduo enquanto desempenha um papel em particular numa sociedade – profissional, irmão, pai, marido, artista – possuindo múltiplas identidades por pertencerem a múltiplos lugares, desempenharem diferentes papéis e sendo caracteristicamente complexos.

As características próprias do indivíduo são assim, um complexo formado pelas influências da sociedade e pelas suas escolhas individuais, em que simultaneamente essa mesma sociedade não é uma construção abstracta incausável, mas sim fruto do conjunto de acções do indivíduo sobre ela. Indivíduo e sociedade, percepcionam-se como mutuamente influenciáveis, e “a pessoa com um sólido sentido de identidade, sentir-se-á integrada em vez de fragmentada” (Eriksson, cit. in Potter, 1997).

 

Podem enviar as perguntas sobre este tema. Serão seleccionadas aleatoriamente e respondidas, aqui no Infocul, a 20 de Outubro. Poderá deixar as suas perguntas na caixa de comentários ou enviar para geral.infocul@gmail.com com o título ‘O Psiquiatra’.

Rogério Vieira

Médico de Psiquiatria desde 1 de Janeiro de 2017 no HESE, HSM e Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa - CHPL; Médico Interno de Ano Comum no HSEIT, Ilha Terceira, Açores em 2015/2016; Mestre em Educação e em Cidadania pela Universidade dos Açores - UAC; Membro da Associação Portuguesa de Internos de Psiquiatria - APIP, desde 2015; Representante dos Internos de Psiquiatria do HESE em 2017/2018; Presidente do Conselho Fiscal da Associação Portuguesa de Internos de Psiquiatria - APIP; Representante da Associação Portuguesa de Internos de Psiquiatria - APIP, na Federação Europeia de Internos de Psiquiatria - EFPT, em 2019; Colaborador no Congresso anual da Associação Psiquiátrica Alentejana - APA, desde 2017 ; Mestrado Integrado em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa - FMUL; Licenciatura em Enfermagem, pela Universidade dos Açores - UAC; Formação Pedagógica Inicial para Formadores pela Santa Casa da Misericórdia de Angra do Heroísmo - SCMAH; Colaborador no Jornal Diário Insular, a União e Sinais Vitais, com vários artigos publicados; Curso de Tripulante de Ambulância de transporte - TAT pela Cruz Vermelha Portuguesa da Ilha Terceira; Curso de Traumatologia e Resgate Em Altura - Salvamento em Grande Ângulo, pela Cruz Vermelha Portuguesa da Ilha Terceira; Curso de Pré Hospital Trauma Life Suport - PHTLS, pela Sociedade Portuguesa de Cardiologia; Curso de Socorrismo Básico, pela Cruz Vermelha Portuguesa da Ilha Terceira; Oficial de Ambulância na Cruz Vermelha Portuguesa da Ilha Terceira em 2005; Membro Fundador e Vogal da Secção da Assistência Médica Internacional - AMI, da Ilha Terceira de 2003 a 2006; Locutor na Radio Horizonte Açores de 2000 a 2004; Dirigente Desportivo e antigo atleta da Associação de Karaté dos Açores - AKA;

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