Na primeira rubrica ‘O Psiquiatra’ dar-me-ei a conhecer a vós, com quem espero poder contar ao longo dos próximos meses. Para que possam saber quem sou e o que este espaço de informação/opinião pretende, respondo a algumas perguntas, realizadas pelo director do Infocul.

1 – Quem é Rogério Vieira, o que faz e o que abordará no Infocul?

Boa tarde, antes de mais. Chamo-me Rogério Vieira e sou Médico Interno de Psiquiatria, de momento a exercer na zona da grande Lisboa.

Ao longo das rubricas do Infocul, irei abordar o tema da Psiquiatria e Saúde Mental, focando os transtornos mais prementes da actualidade e que assolam o quotidiano da nossa sociedade, nomeadamente em Portugal.

2 – Sempre quiseste ser psiquiatra?

Sempre me intrigou o mistério da mente humana. Durante a universidade houve alguns momentos de indecisão entre duas áreas que sempre me fascinaram: Cirurgia e Psiquiatria, pelo que durante algum tempo andaram as duas de mãos dadas. Contudo, com o avançar para a recta final do curso de medicina, foi a Psiquiatria que ganhou e cá estou eu nesta área aliciante do conhecimento humano.

3 – O que é a psiquiatria e porque assusta tanto as pessoas?

A medicina é a ciência e a arte de curar pessoas! A psiquiatria é a arte de curar a alma! A Psiquiatria é assim, a especialidade da Medicina  que lida com a prevenção, atendimento, diagnóstico, tratamento e reabilitação dos problemas ou transtornos mentais, nas suas formas mais diversas de sofrimento, quer sejam de origem orgânica ou funcional. A meta principal é o alívio do sofrimento e o bem-estar psíquico.

Como exemplo, temos  a depressão, a doença bipolar, a esquizofrenia, a demência e a perturbação de ansiedade.

Creio que uma das razões pelas quais as pessoas se sentem intimidadas em relação à Psiquiatria, prende-se com o facto da sua ligação milenar à doença mental interpretada pelas pessoas como “os malucos”. Essa é uma reacção eu recebo com alguma frequência quando observo um doente em urgência “psiquiatria? Mas eu não sou doido!”.

4 – Existe um tabu relativamente à psiquiatria?

Sim. Infelizmente ainda existe. Muitas pessoas veem as doenças mentais como verdadeiros estigmas e não como doenças que devem ser tratadas.  Essa atitude afasta o paciente do seu devido tratamento, em que ele tenta esconder o seu problema da família e da sociedade, levando a maior isolamento e a um ciclo vicioso no qual a doença tende a agravar.

Esta atitude prende-se muito com o preconceito injustificável que ainda existe na nossa sociedade, relativamente a admitir a si mesmo ou ao núcleo de proximidade social, problemas graves, como a doença mental, perturbações do comportamento alimentar como a anorexia, e outras situações como a auto-lesão e o abuso de substâncias, como o álcool e outras drogas.

5 – Para que serve a psiquiatria?

Tal como qualquer especialidade médica, a Psiquiatria serve para tratar pessoas que padecem de doença ou da falta de saúde, neste caso, de saúde mental. O principal objectivo do Psiquiatra é aliviar o sofrimento da pessoa afectada por algum ou alguns dos mais variados tipos de distúrbios mentais, sejam eles de origem orgânica ou funcional, trazendo bem-estar psíquico, e por contiguidade, bem estar físico, aos seus pacientes – “mens sana in corpore sano”.

6 – Para que as pessoas percebam esta rubrica. Chamar-se-á ‘O Psiquiatra’, irás abordar um tema e depois responderás a 3 perguntas, escolhidas aleatoriamente, por mês, certo?

Sim! O objectivo desta rubrica é levar às pessoas um pouco do que é a Psiquiatria e a Saúde Mental, tocar, se possível, nos pontos essenciais da mesma e desatarraxar duma vez por todas o “nó górdio” da mente humana em relação à Psiquiatria, ou seja, desmistificar a Psiquiatria.

Nesta linha de pensamento será abordado, em cada rubrica, um tema actual e de impacto considerável na saúde mental da pessoa, da família e da sociedade em que se insere. Afectas a cada tema abordado, os leitores poderão lançar as suas dúvidas e questões, às quais tentarei responder dentro das minhas capacidades e da forma mais clara possível. Serão respondidas três questões aleatoriamente escolhidas, como supracitado.

7 – As perguntas serão apenas obre o tema abordado, certo?

Certo. Uma vez que irão ser abordados os mais diversos temas em cada rubrica, a lógica remete para que as questões se cinjam ao tema da mesma. Em caso de dúvidas ou questões chegarem em cascata, as mesmas serão guardadas e respondidas internamente a cada pessoa, sempre que possível. (vê se concordas, claro). Sim, parece-me interessante

8 – Não ‘substituem’ uma consulta. São apenas uma informação adicional relativamente ao assunto abordado, certo?

Certo. O que aqui é focado, é apenas a título informativo e não poderá nunca substituir uma consulta de Psiquiatria, desde já que a mesma é dotada de muito maior complexidade, objectividade e análise extensa da pessoa e do seu estado mental, entre muitas outras nuances de diversas ordens que não podem ser aqui todas mencionadas, e que requer um acompanhamento contínuo e progressivo do doente.

9 – Como surgiu esta parceria entre o Infocul e o Médico Interno de Psiquiatria, Rogério Vieira?

Esta parceria surgiu de ideias e interesses em comum, de ambas as partes – o Infocul e a minha pessoa – visando alertar a sociedade para a ideia errónea que assenta sobre a Psiquiatria e o doente Psiquiátrico.

Vivendo numa sociedade tão desafiadora, tão incauta, a Psiquiatria surge como o “brado às armas” da humanidade, tentando restaurar o desequilíbrio imposto pela pressão social, quer a nível laboral, escolar, pessoal, familiar, de lazer, em todos os níveis e em todas as idades, tentando assim aproximar-se da definição de saúde da OMS (Organização Mundial de Saúde) como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não somente ausência doença”.

Devo realçar que esta definição tem vindo a ser escrutinada e modificada em muitas outras vertentes de cariz social e de cidadania.

10 – Qual a mensagem que deixas aos leitores?

A Psiquiatria é uma especialidade médica como outra qualquer, procurando tratar os doentes dentro do seu melhor. Contudo, embora a pessoa que padeça de um distúrbio mental, seja ele de que ordem for – problemas de vida, pessoal, conjugal ou social, situações de stress, de desespero, de perda de ente-queridos, de mobbing, de bulling, preocupação, perda de sentido da vida ou do prazer pelas coisas, de ansiedade ou de depressão, etc, etc, etc – esteja ciente dos seus problemas e queira buscar ajuda junto do seu Psiquiatra, o efeito nocivo das superstições e atitudes anti-científicas que cercam o universo da Psiquiatria e da saúde mental, faz com que a busca por auxílio nessa área não seja feita da forma correta e com a necessária urgência, conduzindo a pessoa a um sentimento de solidão e desamparo, no qual se vê desprotegida e “diferente”, chegando-nos muitas vezes em fazes muito deterioradas de doença que poderiam ser evitadas se detectadas precocemente.

A saúde é um direito social, inerente à condição de cidadania, que deve ser assegurado sem distinção de raça, de religião, ideologia política ou condição socioeconómica, a saúde é assim apresentada como um valor colectivo, um bem de todos. E a saúde mental não é excepção.

Sendo esta a primeira rubrica, podem enviar as perguntas sobre o tema que mais curiosidade vos possa despertar. Serão seleccionadas aleatoriamente e respondidas, aqui no Infocul, a 20 de Setembro. Poderá deixar as suas perguntas na caixa de comentários ou enviar para geral.infocul@gmail.com com o título ‘O Psiquiatra’.

Rogério Vieira

Médico de Psiquiatria desde 1 de Janeiro de 2017 no HESE, HSM e Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa - CHPL; Médico Interno de Ano Comum no HSEIT, Ilha Terceira, Açores em 2015/2016; Mestre em Educação e em Cidadania pela Universidade dos Açores - UAC; Membro da Associação Portuguesa de Internos de Psiquiatria - APIP, desde 2015; Representante dos Internos de Psiquiatria do HESE em 2017/2018; Presidente do Conselho Fiscal da Associação Portuguesa de Internos de Psiquiatria - APIP; Representante da Associação Portuguesa de Internos de Psiquiatria - APIP, na Federação Europeia de Internos de Psiquiatria - EFPT, em 2019; Colaborador no Congresso anual da Associação Psiquiátrica Alentejana - APA, desde 2017 ; Mestrado Integrado em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa - FMUL; Licenciatura em Enfermagem, pela Universidade dos Açores - UAC; Formação Pedagógica Inicial para Formadores pela Santa Casa da Misericórdia de Angra do Heroísmo - SCMAH; Colaborador no Jornal Diário Insular, a União e Sinais Vitais, com vários artigos publicados; Curso de Tripulante de Ambulância de transporte - TAT pela Cruz Vermelha Portuguesa da Ilha Terceira; Curso de Traumatologia e Resgate Em Altura - Salvamento em Grande Ângulo, pela Cruz Vermelha Portuguesa da Ilha Terceira; Curso de Pré Hospital Trauma Life Suport - PHTLS, pela Sociedade Portuguesa de Cardiologia; Curso de Socorrismo Básico, pela Cruz Vermelha Portuguesa da Ilha Terceira; Oficial de Ambulância na Cruz Vermelha Portuguesa da Ilha Terceira em 2005; Membro Fundador e Vogal da Secção da Assistência Médica Internacional - AMI, da Ilha Terceira de 2003 a 2006; Locutor na Radio Horizonte Açores de 2000 a 2004; Dirigente Desportivo e antigo atleta da Associação de Karaté dos Açores - AKA;

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One thought on “O Psiquiatra

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    A minha primeira abordagem é sobre a bipolaridade. Gostaria de aprofundar este tema, tenho um filho com esta doença e tenho grande dificuldade de perceber até onde vai a doença . Para poder ajudá-lo de forma assertiva quero perceber melhor.

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