Vento Norte: “Assim é o Fado. Sempre antigo. Sempre novo.”

 

A frase que dá título a este quarto Vento Norte não é minha, mas é uma frase que (me) diz muito. Li-a pela primeira vez no segundo disco do André Vaz, “Fado”, e agora que fui ouvir novamente o disco acho que faz todo o sentido que dê nome ao que aqui irei escrever.

Neste meu/nosso espaço já falei daqueles que para mim foram os melhores discos de 2018, em Fevereiro falei da maneira como actualmente ouvimos música e no mês passado tivemos aqui uma agradável conversa entre mim e alguns amigos. Mais uma vez li todos os vossos comentários e inputs o que me ajudou na direcção da rubrica deste mês, direcção essa que encontrou caminho depois de ter sido convidado pela Rádio Amália para gravar dois programas, um que já foi para o ar e onde escolhi os melhores temas do ano passado e outro que ainda será transmitido onde escolho os Fados da minha vida. Portanto tínhamos aqui dois períodos diferentes onde falei de música, 2018 e outro muito mais abrangente. As mensagens entretanto começaram a cair, os comentários também e recebi outro desafio: “Estou sempre a ouvir que o antigamente é que era Fado, tu escolhes os melhores de 2018 mas só tivemos Fado em 2018 e no antigamente?”, sorri na altura e fiquei a pensar na pergunta/provocação. Entretanto o programa na Rádio Amália repete e recebo outro desafio “Tenho muitos discos antigos e poucos recentes, sem ser estes do ano passado o que aconselhas mais?” e de repente o Vento Norte de Abril tomou forma – e se eu falasse de alguns discos que ache fundamentais mas recentes? Recentes pelo menos até uns 5 anos, que (ainda) não seja uma prova de resistência encontrá-los e o mais importante que tenham passado bem a barreira do tempo e continuem actuais. Mergulhei na minha coleção de discos e seleccionei uns 20. Olhei para a pilha de cds à minha frente e disse para comigo mesmo: “Escrever sobre 20 discos? Até eu adormeceria a meio do texto.” Reduzi para dez e mesmo assim, achei muito. Então como costumo dizer fui “afunilando” e cheguei a 6 discos. 3 de senhoras e 3 de senhores. Bingo! Correu bem, exclamei. Os meus gatos miaram como concordando comigo. Entretanto olho para um disco que para mim trouxe um dos projectos mais interessantes que o Fado já teve, e ficaram 7 cds os escolhidos. Olho para os gatinhos à espera da aprovação mas já andavam mais entretidos a brincar um com o outro… bem, ficam estes 7, decido. Portanto aqui vão, 7 cds que acredito que muitos de vocês já conhecem e se é assim podem ir ouvir outra vez porque continuam fantásticos, para quem não conhece e é curioso como eu sou ouçam sem receio. Acreditem que são realmente actuais e intemporais e e algum do melhor Fado dos últimos anos passa por aqui.

Linda Leonardo “Eterno Fado” – um dos discos de Fado mais amados e falados nesta década. Foi lançado em 2007 mas só agora conheceu edição portuguesa. Parto difícil mas sempre a tempo pois continua a ser uma obra importante e obrigatória. Tem pelo menos dois Fados cantados por inúmeros Fadistas – quem não conhece o “Pressentimentos” ou “Na boca de toda a gente”? Pois é, mas é na interpretação da sua criadora que estas obras atingem a plenitude. O “Eterno” no nome faz todo o sentido quando ouvimos o disco todo.

Aldina Duarte “Romance(s)” – um dos projectos mais ambiciosos que o Fado nos trouxe. Maria Rosário Pedreira a pedido de Aldina escreveria um romance em verso cujas letras seriam cantadas em Fados tradicionais. No início seria “apenas” um disco mas quis o destino que saísse em álbum duplo. O primeiro com os poemas acompanhados em formato tradicional – guitarra portuguesa e viola. No segundo disco, os mesmos temas mas com a malha sonora dos Dead Combo. O resultado? Um autêntico murro nos sentidos, tanto poético como musical. Na altura lembro-me que este disco foi presença assídua nas diversas listas de melhores do ano. Para mim todos os anos devia fazer parte das novas listas. Obrigatório.

Tânia Oleiro “Terços de Fado” – O primeiro disco da Tânia foi gravado já ela tinha amadurecido o seu canto e arte, é o disco de estreia de uma alma antiga. E o antiga aqui carrega todos os elogios possíveis de se fazer a uma Fadista. Dividido em 3 partes “Mouraria”, Alfama” e Cercanias” foi gravado também com três parelhas de músicos e o resultado além de coerente e de muito bom gosto traz-nos um disco de afectos para a Fadista (tanto pela escolha de reportório como dos músicos) e de afectos para o ouvinte. E o que é o Fado senão um mundo de afectos?

Gonçalo Salgueiro “Mãe” – Continuamos a falar de afectos, mas agora com saudade à mistura. Continuo a não conseguir ouvir este disco sem chorar, continuo a não conseguir ouvir este disco sem ficar com o coração nas mãos, e no entanto, não consigo parar de o ouvir. Falar deste cd é falar de um disco que carrega a maior dor deste mundo, a saudade forçada, a saudade imposta, aquela saudade que nunca diminuiu, aquela saudade que só aumenta. Um disco de Fado adulto, tão sofrido como belo.

Duarte “Sem dor nem piedade” – Mais um disco temático, dividido em quatro actos que vai retratando o fim de uma relação… sem dor ou piedade. Um disco denso, real… onde apenas a beleza da música e dos poemas nos trazem alguma leveza à alma. Musicalmente rico e eficaz e com Duarte a interpretar melhor que nunca os seus poemas (apenas um dos Fados não é escrito por ele). Cru, verdadeiro e belo como a vida.

André Vaz “Fado” – Ora aqui está o cd que dá nome a este “Vento Norte”, e o primeiro que ouvi para escrever este texto. É o segundo disco do André Vaz que fez uma longa pesquisa e nos trouxe 11 Fados numa viagem de 1961 a 2006 (o belíssimo “Umas quadras de saudade”). Tradicional, bem tocado, bem interpretado e um reportório imaculado com tantos Fados bonitos e antigos que hoje em dia ninguém canta. Um disco de muito bom gosto. Assim é o Fado, sempre antigo mas sempre novo.

Vários “Brincar aos Fados” – Rodrigo Costa Félix idealizou e produziu um disco de Fado para os mais novos. Mas atenção, não pensem que é um trabalho “menor”, muito pelo contrário!! Chamou Tiago Torres da Silva para escrever novos poemas em melodias de Fado tradicional e convidou para interpretar Camané, Cristina Branco, Joana Amendoeira, Ricardo Ribeiro, Maria Ana Bobone, Mafalda Arnauth, Katia Guerreiro, Jorge Fernando, Ana Sofia Varela, Carlos Leitão e Celeste Rodrigues. Um disco delicioso para miúdos dos 6 aos 100 anos. Como canta a Dona Celeste neste cd “Não existe Fado novo/ como não há Fado antigo/ Ele é o grito que um povo/ carrega sempre consigo”.

E aqui estão, 7 discos actuais/intemporais que aconselho todos a ouvir, gostem ou não de Fado. Porque aqui primeiramente temos Música com M grande. E sempre consegui “fugir” a 2018 como fui desafiado.

dav

Até ao próximo Vento Norte sejam felizes, façam alguém feliz e ouçam sempre muito boa música.

4 thoughts on “Vento Norte: “Assim é o Fado. Sempre antigo. Sempre novo.”

  • Avatar

    Que texto maravilhoso caro Jonas Santos.
    É dos poucos críticos que nós temos em Portugal que trata bem o nosso Fado.
    Bem haja

    Reply
  • Avatar

    Que crónica tão bem escrita. Já a tratar de ouvir esses discos que infelizmente pouco ou nada conhecia

    Reply
  • Avatar

    Comprei todos os discos Jonas Santos. Este fim de semana vou ouvir com muito carinho, obrigada pela sugestão e deixo aqui votos de uma Páscoa feliz para si e os seus.

    Reply

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.