No terceiro Vento Norte não “sopro” sozinho, os Fadistas Maria Mendes, Jorge Nunes, Cristina Batista, Duarte, Maria do Sameiro, Liliana Martins, João Loy e Mariana Correia juntaram-se ao Poeta e Fadista José Fernandes Castro, ao proprietário de Casas de Fado Jorge Couto e à profissional de rádio Ana Meixedo para “soprarem” comigo… carta branca para me perguntarem o que quiserem. Uma conversa entre Lisboa e Porto com o Fado como primeira pessoa.

Maria Mendes – O que leva um angolano, criado e vivido no Porto a mudar a sua vida para Lisboa?

Bem, sempre tive um fascínio muito grande por Lisboa. O sol aqui é deslumbrante, a beleza da cidade e a sua dinâmica dizem-me muito. Acreditas que apesar de amar o Porto sempre achei que o meu coração estava aqui? Depois claro, a nível de cultura Lisboa é imbatível. E o mais importante, os amigos que fui fazendo cá. Tenho aqui um lado afectivo muito forte. Um destes dias a Linda Leonardo dedicou-me um Fado dizendo “Para o Jonas que veio viver para perto de nós, para perto do Fado”. Disse tudo numa só frase.

Jorge Nunes – Sabendo que és muito acarinhado aqui em Lisboa, o que te facilitou a mudança de “vida”, o que ainda assim te falta trazer do Porto para teu maior conforto, tua felicidade?

Os amigos e a admiração que tenho por vocês em primeiro lugar. Isso afastou logo o medo e fez com que fosse uma mudança brusca mas com “porto de abrigo“. A única coisa que me falta é o lado afectivo e familiar que ficou no Porto. Era o que trazia para perto de mim.

Ana Meixedo – Acabas por ter agora duas cidades-casa. Do que sentes mais falta quando estás longe de cada uma delas?

Das pessoas, sinto sempre saudades das minhas pessoas. Vivia no Porto e morria de saudades vossas, agora vivo a morrer de saudades de quem lá está. E eu que até acho a saudade bonita começo a achar que a saudade não gosta lá muito de mim.

Mariana Correia – Além da tua paixão pelo fado que outra(as) paixões tens? Qual o filme e livro que te marcaram?

A música é a minha maior paixão. Houve uma altura na minha vida em que a música foi a única companhia, não tinha muitos amigos, não saía muito mas a música trazia-me felicidade e afastava a solidão e a tristeza. Um filme? Qualquer um do Pedro Almodóvar. Livro? Sem dúvidas “Morcegos libertinos, borboletas nocturnas” de Nelson Sacramento. O livro tem uma passagem maravilhosa: “…o importante é que no final, quando se deitarem para dormir ou para morrer, olhem para as horas passadas e constatem que viver aquelas horas foi suficiente para viver uma vida”. Esta frase trago-a sempre comigo.

Jorge Nunes – Como surgiu o convite para te juntares à família infocul? O que te levou a aceitar o desafio? Já fazias as tuas crónicas?

O convite partiu mesmo do Editor, o Rui Lavrador. Já nos conhecíamos, partilhávamos muitas opiniões e ele estava atento ao que eu ia escrevendo. Quando me convidou dando carta branca para o que quisesse escrever, aceitei logo, nunca aceitaria um desafio com liberdade condicionada. Eu comecei a escrever sobre música a convite da Eugénia Melo e Castro, a grande responsável por eu gostar de música cantada em português. Ajudava a gerir o seu blog, e mais tarde, de 2006 a 2011 tive o meu próprio blog (A luz do meu caminho) onde durante 5 anos e quase diariamente escrevi sobre quase toda a música cantada em português. Parei quando comecei a analisar discos em vez de os ouvir, em ir a concertos para escrever, não para os “viver”. Senti a paixão a ficar mecânica, e isso vai contra tudo o que acredito. Parei de escrever publicamente, mas acho que ganhei sensibilidade. Não me arrependi.

Maria do Sameiro – Falando de música e da actualidade, na tua opinião, o que achas que está por trás da eleição do actual representante de Portugal na Eurovisão? Consideras que há corrupção no mundo artístico?

Tive conhecimento do “fenómeno” Conan pelas redes sociais. Não vejo televisão desde 1998 e o Festival da Canção para mim foi Festival até 1996, depois só as música defendidas pela Rita Guerra e pela Vânia Fernandes me disseram algo, entretanto deixamos de ter canções e passamos a ter “produtos”. E no meio disto tudo já ganhamos a Eurovisão e já ficamos em último lugar logo a seguir. Porque não conseguimos realmente distinguir ruído de canção, não sabemos a diferença entre poema e frases. Parece que o mais importante é marcar a diferença. E esquecemos o mais importante: saber respeitar os nossos intérpretes, compositores e letristas. Quando o público vota numa “canção” em que um bailarino é parte importante da mesma e a afinação do cantor não é fundamental já está num patamar que me ultrapassa largamente. Corrupção na música? Eu diria que vivem muito das amizades, dos interesses, infelizmente quase nunca do lado de quem tem talento.

Liliana Martins – Sendo tu um amante de boa música, e num panorama musical com tantos artistas e grupos de boa qualidade, porquê tanto interesse no fado?

O Fado é a canção de quem vive com o coração e deixa a razão em casa, esta frase é minha e diz tudo. E viver com o coração é como o Fado, nem se consegue explicar muito bem. Para quem gosta de música como eu, também é o género musical com mais verdade. Aqui não há distracções, ou se ama ou se odeia.

Ana Meixedo – Se pudesses sonorizar a tua vida com um fado, qual seria a tua escolha?

“Valeu a pena” do Professor Moniz Pereira na voz da enorme Maria da Fé. É o Fado da minha vida.

Duarte – Pensando no processo de elevação do fado a património imaterial da humanidade, como avalias o mesmo passados alguns anos?

Mais uma vez estragamos tudo, parece a história do Festival da canção. Ficamos em primeiro, organizamos tudo e ficamos em último lugar logo a seguir. O Fado mereceu e merece essa distinção. Deve ser tratado com respeito e dignidade, porque é bom que não se esqueçam, tivemos muito boa gente a lutar por ele. Fadistas, Poetas e Músicos sem comparação com cantores, poetas e músicos de outra parte do mundo. E o que fizemos nós? Vulgarizamos. É Fado na churrasqueira e na padaria. É Fado na hora do lanche e com palminhas. A distinção não era para vulgarizar, era para valorizar. Há uma estranha confusão entre as duas palavras.

José Fernandes Castro – Existe quem defenda que o Fado, em Lisboa, é tratado de forma diferente em relação ao resto do país (ilhas incluídas). Existe alguma verdade nisto, ou tal deve-se apenas ao facto de existirem mais locais de culto (entenda-se, casa de Fado) na capital do que noutras localidades?

Vou ser mauzinho e dizer que em Lisboa há mais casas a dar Fado, não propriamente a acontecer Fado. A grande diferença é que aqui temos muitos mais excelentes profissionais. Músicos geniais e Fadistas intemporais, com estilo próprio. A cidade ainda respira a Fado, mesmo contra quem o tenta estragar. É esse o trato diferenciado que vejo.

Jorge Couto – Tendo em conta que o público-alvo é maioritariamente estrangeiro e raramente regressa faz sentido a uma casa de fados manter um elenco fixo ou variar em prol do estímulo artístico e cultural e tendo em atenção a faixa de clientes não nativos que ainda frequentam as casas.

Para mim faz sentido ter um pequeno núcleo com elenco fixo mas manter margem de manobra para variar de elenco. Um elenco fixo dá nome à Casa, pode ser sinónimo de qualidade. De Fado. Por outro lado é sempre estimulante para o público e também para o elenco fixo um ou outro convidado diário. E há tanta gente boa em casa que deveria cantar/tocar todos os dias…

Liliana Martins – Achas que o fado se está a tornar cada mais comercial?

Sim, sem dúvida. É a tal banalização que falamos há pouco. Se queres dar Fado num brunch às 16h não pode ser Fado/Fado. Não há sequer ambiente. E as Fadistas que querem ser a nova Ana Moura vão sempre pelo caminho mais fácil e pop, esquecem é que não têm nem metade do talento e elegância da Ana. Portanto o caminho mais fácil é sempre o mais comercial e “popularucho”.

João Loy – Já te perguntaram o porquê de se dizer fado “novo” e fado “velho”? Ou é fado ou não é, certo?

Na minha opinião o “novo Fado” é aquele que tem poemas novos. Escritos agora. Ou novas músicas. Tanto me faz se é cantado por alguém de 20 ou 80 anos. Tem é de ser Fado. Música, Poema, interpretação Fadista. Com alma. Tudo o resto nem é Fado novo nem é Fado antigo… é música.

Cristina Batista – E de que forma “ouves” o passado e o presente Fado? Tens algum desejo relativamente aos teus “anseios” fadistas para um futuro próximo.

A minha emoção e aprendizagem é realmente com o Fado dos mestres, e esses não são os atuais. Por outro lado temos muita gente contemporânea com talento e foi com eles que “aprendi” a gostar de Fado. Ouço com igual respeito e atenção, tendo o cuidado de separar o trigo do joio. Anseio? Mais o desejo de ver o Fado como Património Imaterial da Humanidade na plenitude, ou seja com a dignidade que merece.

Jorge Couto – Estilar o fado até que ponto? Tendo em conta que tirando algumas excepções tentam estilar tanto que até alteram as melodias…este é outro ponto, luta-se imenso pelo respeito aos poemas mas alteram-se melodias a torto e a direito.

Nunca se deveria alterar seja o que for. Pode-se dar um cunho próprio, mas sem adulterar. Se alguém criou, escreveu, compôs primeiro não se altera. Respeita-se. E a melodia é tão importante como o poema. Estilar sim. Inventar não sff. O Fado não é para cientistas, é para Fadistas.

José Fernandes Castro – A introdução de outros instrumentos no Fado veio valorizar ou descaracterizar esta expressão musical que sempre teve como base a Guitarra Portuguesa, a Guitarra Clássica e o Baixo Acústico?

A Mísia tem um Fado Miguel lindo, o “Paixões diagonais” que tem um acordeão maravilhoso. Bem tocado, com alma, sem “ferir”. Costumo dar sempre este exemplo, é apenas uma questão de bom gosto e respeito pela intenção do Fado. Se assim for valoriza. Infelizmente, nem todos são a “Mísia”.

Maria Mendes – Para ti o que é ser-se Fadista?

Aqui está A “pergunta”. O que é ser-se Fadista? Maria, não sei explicar. Não sei mesmo. Apenas sei que o ser Fadista para mim, pode não ser para A ou B. Um destes dias um amigo meu disse-me que a Dona Maria Teresa de Noronha não era Fadista, era cantora! Guardei o que disse, cheguei a casa, ouvi a sra. e passou-me tanto Fado. Tanto. Enviei-lhe dois Fados dela e ele continuou: “É realmente uma excelente cantora”. Há dois casos indiscutíveis de Fadistas: Amália e Marceneiro. Todos os restantes deixo na opinião de cada um.

Duarte – Se tivesses que pedir três desejos ao génio da lâmpada, quais seriam?

1 – Mais Amor

2 – Mais saúde

3 – Menos saudade

3 thoughts on “Vento(s) Norte(s)

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    Sou uma leitora atenta das suas opiniões, já cantei fado mas nunca me considerei fadista. Não sei se canta mas é um grande fadista. E é um prazer ler o que escreve, é uma pena ser só uma vez por mês.
    Joana Alves

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    Tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto é fado.
    Muito interessante esta coluna

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    “…o importante é que no final, quando se deitarem para dormir ou para morrer, olhem para as horas passadas e constatem que viver aquelas horas foi suficiente para viver uma vida”
    <3

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