Entrevista a João Pedro Silva ‘Açoreano’: O Natal, as tradições e a tauromaquia

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Entrevista a João Pedro Silva ‘Açoreano’: O Natal, as tradições e a tauromaquia, com texto de Rui Lavrador e fotografias de Paulo Gil.

João Pedro Silva, conhecido no meio tauromáquico como ‘Açoreano’, é natural da Ilha Terceira, dos Açores, e é nas suas raízes e família que encontra o porto seguro.

Com o Natal a aproximar-se, o bandarilheiro aceitou o repto do Infocul.pt em conceder uma entrevista para falar sobre as suas tradições familiares nesta quadra festiva, mas também sobre a sua temporada que agora findou.

João Pedro começou por nos confidenciar que “o Natal sempre foi vivido em grande união familiar, muito amor e partilha, com os avós, todos os tios e primos juntos à mesa e abrindo presentes” e esta é a sua primeira recordação da quadra festiva que agora se aproxima. Uma recordação que se foi perpetuando no tempo, sendo todos os anos renovada e crescente em união e amor familiar.

O Natal é também sinónimo de farta e boa gastronomia, tendo o bandarilheiro nos explicado que “nos Açores, nomeadamente na Terceira da qual posso falar, dado que varia de ilha para a forma de celebrar o Natal, mas a gastronomia nas ilhas creio que pouco varia, quiçá destaco os licores do Pico“.

Recuando à sua infância, recorda-nos como era o Natal: “Por tradição, a parte da família paterna reunia-se toda, por serem 7 filhos e correspondente família, na casa inicialmente dos meus avós paternos e com os anos ia sendo escolhida a casa diferente de um dos sete filhos a cada ano, onde fazíamos a ceia de Natal e abríamos as prendas relativamente cedo, porque depois dali, íamos cada família, à casa da parte materna também abrir as prendas, ou seja, no meu caso, para dar um exemplo, íamos à ceia de Natal a casa dos meus avós paternos, abríamos as prendas e depois da meia-noite abríamos as prendas em casa dos meus avós maternos“.

Católico, João Pedro encarou sempre o Natal na perspectiva religiosa e nunca na visão comercial.

Sinceramente nunca dei demasiada importância à figura do Pai Natal, dada a minha educação religiosa desde muito novo, foi-me incutido o real sentido do Natal, do advento, do nascimento de Jesus e o que isso significa para o Homem e para o Cristão e não a mera manipulação comercial para o consumismo exacerbado da figura de São Nicolau, que sim teve uma história da qual devíamo-nos rever ou imitar no serviço humilde e anónimo ao pobre e ao desfavorecido, e não ao velho das barbas da Coca-Cola“, fundamentou.

Sobre se algum presente o marcou na sua infância, João Pedro preferiu destacar os afectos: “Não me lembro a ser sincero de um bem material específico, era tão valioso ter a família toda unida, feliz, com alegria, com saúde, que esse para mim era o maior presente. Então depois de vir para o continente, passou a ser quase o único momento que conseguia ver toda a família junta, e por conseguinte mais valor tem, cada ano que passa“.

O Natal reveste-se de especial importância, até porque, como nos explicou, “é a época para mim sagrada do ano, posso não ter a possibilidade de agenda em mais altura nenhuma para ir à Terceira ver a família, mas o Natal impreterivelmente é um marco irrevogável do meu calendário. Onde além de ser Natal, mato saudades de todos os meus familiares“.

Mostra-se crítico para com a ideia de Natal para alguns e a sua evolução ao longo do tempo: “Como anteriormente referi, o Natal passou a ser o espelho da sociedade de consumo imediato, da futilidade e da aparência. É Natal porque Jesus Cristo nasceu, parto da base da minha crença religiosa cristã claro está, e respeitando os demais pilares da sociedade, mas não entendamos o Natal como a época que, pronto, lá temos de partilhar e gastar umas massas em prendas, que temos de nos juntar com a família porque fica bem ou tem de ser, que temos de dar ao próximo para não parecer mal, mas sim como um lembrete de todos aqueles valores da partilha, união, e amor que não deveríamos deixar de praticar todo o resto do ano“.

João Pedro é um fã das tradições e consumidor de música. O que muitos desconhecem é que também tem dotes musicais que vai praticando no seio familiar e dos amigos mais próximos.

Questionámos se o fazia na celebração natalícia, tendo ele nos explicado que “o Natal sempre foi alegre e divertido sempre em família, e tenho a sorte de ter nascido numa família onde todos cantam, tocam, representam, e lógico que num ambiente tão propício, a música nasce em qualquer momento“.

Passando a uma análise à sua temporada, na qual se manteve na quadrilha do cavaleiro Rui Salvador, o bandarilheiro revelou que “foi uma temporada de crescimento interior, de amadurecimento pessoal, técnico e profissional, e esse crescimento, como é natural é inconstante, não se pautando por uma regularidade constante, mas olhando o percurso deste 2021, posso dizer que sem ser visto ou dado nas vistas, porque não é isso que se pretende de um bandarilheiro, foi uma temporada interiormente importante, não em números, mas por uma evolução conseguida e muita outra que virá seguramente“.

João Pedro actuou, este ano, também em Espanha. Nas corridas lá efectuadas foi bastante reconhecido e valorizado pelo seu trabalho. Mas será que Espanha lhe dá mais valor do que Portugal? “‘Santos de casa não fazem milagres’ e é bem verdade. Não por nos verem todos os dias e não darem conta da evolução e do bem fazer, não sei, quiçá “a galinha do vizinho é sempre melhor que a nossa”, e vermos algo que não conhecemos, algo novo, desperta outro interesse. Enfim, podemos analisar de várias formas, mas o importante é eu acreditar naquilo que sou capaz, focar nos meus objectivos e ter claro de onde vim, onde estou e onde quero chegar“, disse.

Nesta temporada, João Pedro estreou um novo traje, de cor azul, e ainda um belíssimo capote de passeio, todo negro e azabache.

Sobre o traje, destacou o que o torna especial: “O traje tem de especial, além de ser em veludo, por ter deixado dar asas à imaginação, toda a elaboração, escolha de cores, bordados, alamares, remates ao bom gosto de três pessoas que quero, admiro e respeito muito, Maestra Nati, Catarina e Verónica, é o traje delas e que sempre me recordarei deste traje por isso, ter um selo próprio de cada uma delas“.

Sobre o capote, contou um pouco da história por detrás dele: “A história do capote de passeio negro é relativamente simples, apesar de se ter complicado porque depois de Joselito El Gallo, esteve em posse de Rafael de Paula e terminou na família Bienvenida, numa história no mínimo caricata. Mas foi mandado fazer ao grande ‘sastre’ da época, Uriarte, (onde a mãe da maestra Nati se iniciou como sua bordadeira), e Joselito El Gallo encomendou um capote negro, bordado a azabache (negro) por luto a sua mãe que havia falecido nesse ano. A ‘maestra’ Nati possuía os moldes e sabia a importância e significado desse capote de passeio, e como enorme admirador de Joselito El Gallo, pedi que me fizessem uma réplica desse mesmo capote por ser tão especial, no centenário da morte de Joselito El Gallo em Talavera de la Reina, para o homenagear“.

Para 2022, no que à tauromaquia se refere, “somente pretendo continuar com a mesma aficion, o mesmo foco, a mesma dedicação. E ter a paciência e humildade para saber esperar pelos resultados“, disse.

Foi recentemente premiado em Espanha, como como melhor peão de brega em Sotillo de la Adrada, tendo-nos revelado que “no dia da apresentação dos prémios, o alcaide de Sotillo de la Adrada fez questão de sublinhar que “pode sair um toiro em Madrid com o mesmo trapio de Sotillo, mas acima não”, isto significa um pouco a que níveis de trapio e seriedade estamos a falar, e ter a capacidade interior de enfrentar essas corridas como um desafio mas sem se dar o passo atrás, aplicar a técnica exacta ao toiro picado em vez do toiro lidado em Portugal, essa capacidade de adaptação a essas circunstâncias sem perder a essência e se em cima se se é reconhecido por isso, mais ainda“, sobre a importância deste troféu.

O convite para ali actuar “surgiu de ter toureado uma corrida em Tomelloso, em Maio, e compartir quadrilha com outro bandarilheiro, Miguel de las Heras, tio de um matador de toiros (Luís Gerpe) e ao mesmo tempo seu apoderado, e dessa corrida de Tomelloso surgiu outra porta que se abriu“.

Em 2022, “vou manter fixo com o maestro Rui Salvador e com o matador de toiros Luis Gerpe, é o que tenho firmado para a próxima época“, revelou.

Caso surgisse uma lamparina que lhe concedesse 3 desejos, a resposta seria pronta: “Que a Covid desapareça e possamos viver como antes, ou melhor, se tivermos capacidade de aprender algo com a pandemia. Que a festa de toiros revigore e possamos ser taurinos livremente. Saúde e sorte para todos os aficionados e para o INFOCUL as maiores felicidades“.

Nota Editorial: As fotografias da autoria de Paulo Gil, um fotógrafo açoriano, pretendem não só demonstrar o ritual do trajar, bem como a presença da fé na tauromaquia. Não menos importante, destacar a qualidade de um fotógrafo ímpar do arquipélago.