Catarina Rôlo Salgueiro: “O mais normal é termos todos segundos e terceiros empregos para conseguirmos ir “fazer uma perninha” à noite aos ensaios e aos espectáculos”

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Catarina Rôlo Salgueiro é actriz e em breve subirá a palco da Culturgest, em Junho, para apresentar O Novo Mundo, da companhia Os Possessos. Nascida em 1991, é diplomada em teatro- Ramo Actores, pela Escola Superior de Teatro e Cinema sendo também co criadora do colectivo artístico Os Possessos.

 

Antes de subir ao palco da Culturgest, concedeu uma entrevista ao Infocul onde falou sobre o seu percurso, o estado do teatro e claro…o corte dos apoios do estado.

 

Como actriz, trabalhou já com várias companhias, sendo que também a televisão faz parte do seu currículo. “Verão danado”, no cinema, consta tabém do percurso da jovem actriz.

 

Quando é que surgiu este gosto pela representação?

Lembro-me de ser pequena, com os meus 5, 6 anos e já adorar participar nos espectáculos de teatro da escola. Decorava os papéis todos, o meu e os dos meus colegas, sabia as músicas e as coreografias todas de trás para a frente e ensaiava sozinha, em frente ao espelho ou no pátio da escola nos intervalos. Adormecia com as peças na cabeça… aquilo era mesmo uma obsessão! Mas prazerosa, claro. Depois na Escola Secundária Leal da Câmara fui para o grupo de teatro Reticências, dirigido pelo Rui Mário, que tem a sua companhia profissional em Sintra (o Teatro TapaFuros) e foi aí que percebi que queria fazer disto vida, não podia ser só um hobbie duas vezes por semana.

 

Enquanto actriz, o teatro é a componente mais desafiante e de maior aprendizagem?

Acho que qualquer área que envolva a representação, seja ela teatro, cinema, televisão, dobragens e por aí fora é sempre desafiante de maneiras diferentes e faz com que estejamos sempre a aprender coisas novas todos os dias. Há por vezes uma certa dose de insegurança aliada ao trabalho do actor que é inevitável e até necessária para não estagnarmos. O teatro tem a particularidade de ser ao vivo, sem hipótese de repetição se a coisa correr menos bem e com o retorno imediato do público, por isso às vezes as aprendizagens são mais duras e em tempo real.

 

Diz-se que é no teatro que se vê, e comprova, a qualidade de um actor. Concorda?

Não, de todo. Não percebo essa afirmação. Porque é que não se pode ver a qualidade de um actor no cinema? Ou na televisão, onde as coisas são gravadas em tempo recorde, os textos são entregues de véspera e têm de filmar muitas vezes sem terem ensaiado? É preciso muito jogo de cintura e qualidade para fazer isso bem feito também. O que muda no teatro é de facto o contacto directo com o público, o momento real, a presentificação, ou seja, a capacidade de repetir todas as noites o mesmo texto mas actualizar o que estamos a dizer e fazer, consoante o que está a acontecer naquele dia em cena. E quando isso acontece é maravilhoso de ver, mas fazer isso em frente de uma câmara para depois ficar imortalizado também não é fácil.
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É Diplomada em Teatro – Ramo Actores, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Como tem sido o seu percurso e o que já fez em termos de trabalho?

O meu percurso começou ainda antes da Escola de Teatro, em Sintra, onde comecei a trabalhar profissionalmente com o Teatro Tapafuros e a Byfurcação, a fazer espectáculos de rua na Quinta da Regaleira. Depois de terminar a Escola, formei a minha companhia – Os Possessos – em conjunto com dois colegas e amigos, o João Pedro Mamede e o Nuno Gonçalo Rodrigues. Começámos a fazer espectáculos na Lx Factory (na Livraria Ler Devagar) e no Teatro da Politécnica, acolhidos pelos Artistas Unidos. Em Junho deste ano vamos estrear o nosso primeiro espectáculo em sala grande, por assim dizer, no Grande Auditório da Culturgest (“O Novo Mundo”, de 27 a 30 de Junho). Para além disso, tenho tido a sorte de trabalhar com muitos outros encenadores que admiro como o Ricardo Neves-Neves, a Maria Duarte, a Maria João Luís e o Tiago Rodrigues. Para além do trabalho de actriz, tenho feito algumas assistências de encenação, que me permitem ter um olhar exterior mais apurado da cena e me têm espicaçado a vontade de encenar.

 

É fácil viver da representação em Portugal?

Sei que apenas uma percentagem muito pequena dos actores o consegue fazer por isso não, obviamente. O mais normal é termos todos segundos e terceiros empregos para conseguirmos ir “fazer uma perninha” à noite aos ensaios e aos espectáculos. Ou mesmo quando estamos a trabalhar na nossa área, temos de nos desdobrar em vários trabalhos diferentes e andar a correr de uns sítios para os outros de manhã à noite. Faz parte de uma profissão onde raramente existem contractos, temos de aproveitar quando há trabalho e juntarmos o mais possível financeiramente porque nunca sabemos como vai ser o dia de amanhã, o mês ou o ano seguinte. E os senhorios não têm nada a ver com isso.

 

Quais as maiores dificuldades, ou desafios, que tem encontrado no seu percurso?

O desafio é constante, quase diário. Quando começo um projecto novo então… Acho sempre que não vou saber fazer. Depois com os ensaios a coisa vai melhorando. Às vezes a maior dificuldade é mesmo a falta de tempo. Com a falta de dinheiro para os projectos, encurtam-se os tempos de ensaio, é tudo muito rápido e às vezes o espectáculo ainda não amadureceu e já acabou! Já para não falar dos desafios de ter uma companhia emergente, não subsidiada, onde é preciso fazer tudo e o retorno económico é quase nulo. O facto de conseguirmos estrear espectáculos todos os anos com as condições que temos é quase um milagre.

 

Enquanto actriz, qual o registo que mais gosta de fazer? E qual o que mais desafios lhe coloca?

O que gosto mais nesta profissão é mesmo a oportunidade de fazer coisas muito diferentes. Não conseguiria escolher apenas um e acho que todos me colocam desafios particulares. Sinto-me muito confortável com o teatro do absurdo, muito brincado e que não se leva demasiado a sério, mas também gosto quando a quarta parede é quebrada e posso falar directamente com o público, ver as pessoas, quase como que numa conversa onde às vezes (quase sempre, até) há a possibilidade real de resposta.

 

Como analisa o actual momento da cultura em Portugal?

Em Portugal o peso da despesa pública em cultura no Orçamento de Estado é inferior a 1%. Acho que isto mostra um total desrespeito e descredibilização do sector cultural e artístico. Não digo com isto que haja um desinvestimento na cultura por parte dos portugueses, pelo contrário, cada vez há mais espectáculos, exposições, iniciativas culturais espalhadas sobretudo pelas grandes cidades, e Lisboa, em particular, parece viver em permanente festival, onde a oferta é constante. Digo é que há uma desresponsabilização por parte do Estado relativamente a esta efervescência cultural da qual os artistas não querem prescindir e sem a qual um povo perde identidade.

 

E do teatro em particular?

No momento em que estou a responder a esta entrevista, acabaram de sair os resultados da DGartes para o Programa de Apoio Sustentado para 2018-2021 e soube-se que várias companhias perderam o apoio e podem deixar de continuar a fazer o seu trabalho. Companhias como o TEC (Teatro Experimental de Cascais), com 52 anos de existência, o TEP (Teatro Experimental  do Porto), o Teatrão (de Coimbra), os Primeiros Sintomas, a Casa Conveniente, o Teatro dos Aloés, o Chão de Oliva, o FITEI, entre muitas outras… Não se pode dizer que seja um bom momento. A burocracia excessiva das candidaturas, os atrasos na divulgação dos resultados, a paralização da produção teatral ou o endividamento das companhias para poderem fazer espectáculos é um cenário muito desolador. Ao mesmo tempo, há muito tempo que não se assistia ao nascimento de tantas companhias novas e de jovens que querem fazer o seu percurso e procuram formas de subsistir sem dependerem destes apoios estatais.

 

Quais os projectos que se avizinham?

Neste momento estou a ensaiar para um espectáculo com encenação da Maria Duarte, a partir da “Ronda da Noite”, da Agustina Bessa-Luís e da “Extinção”, do Thomas Bernhard, a estrear em Maio, em sítio e datas a definir. Em Junho estreio na Culturgest “O Novo Mundo”, escrito por  6 autores e com 16 actores e um músico em palco, produção d’Os Possessos. E futuramente, em Março de 2019 estreio juntamente com o João Pedro Mamede uma criação dos dois, a convite da Fábrica das Artes, no CCB, um espectáculo chamado “A Bolha”, sobre a alienação nas camadas mais jovens da sociedade.

 

Qual o projecto que gostaria mesmo de realizar?

Gostaria um dia de encenar, de estar de fora. E como actriz gostaria de poder continuar a trabalhar sempre com encenadores diferentes e fazer cinema também. Como projecto de vida, gostava um dia de me poder dedicar exclusivamente aos Possessos, sem precisar de trabalhar noutros sítios para sobreviver. Escolhia só aquilo que queria mesmo fazer.

 

Onde pode o público conhecer mais o seu trabalho e estar atento às novidades?

A melhor forma é mesmo ir ver os espectáculos! Em Maio, “A Democracia” em datas e sítio a anunciar. De 27 a 30 de Junho, “O Novo Mundo”, na Culturgest. E em 2019, de 28 a 31 de Março, no CCB. Para além disso, o facebook e site d’Os Possessos também vão sempre actualizando os seguidores.

 

Qual a importância das redes sociais no seu trabalho?

São cada vez um meio de divulgação mais forte e presente, há que dizê-lo. Muitas vezes poupa-se em publicidade física porque a tecnologia acaba por ser mais eficaz. É o espelho dos tempos em que vivemos.

 

Como analisa a imprensa cultural em Portugal?

O facto de ser semanal já não é mau! Mas tenho pena que não existam publicações mais específicas sobre determinadas áreas. Já houve uma revista sobre teatro, por exemplo, a “Sinais de Cena” mas não sobreviveu. Em França existe a “Cahiers du Cinéma” desde 1951, só sobre cinema. Cá temos suplementos culturais dentro de jornais ou revistas, salvo raras excepções, como a revista Gerador, por exemplo.

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A cultura continua a ser o parente pobre do país?

Acho que ter direito a menos de 1% em 100 é ser-se bastante pobre.

 

Qual a mensagem que pretende deixar aos leitores do Infocul?

Vou puxar a brasa à minha sardinha e dizer para irem ao teatro. E para assinarem a Carta aberta ao Senhor Ministro da Cultura, disponível  no site da Petição Pública, onde os espectadores solicitam uma revisão urgente das formas de apoio às artes. Quantos mais formos, melhor!

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Notícia publicada a 13/04/2018


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