Claudio Hochman: “Acho que os artistas têm também a obrigação de fazer produtos que mexam, que estimulem, que façam o espectador ter vontade de voltar ao teatro!”

Cartaz (1)

 

 

O Teatro da Trindade recebe, entre 15 de Fevereiro e 04 de Março a peça “O Abraço”,  na qual “Esmeralda (mãe), Ana (filha mais velha) e Maria (filha mais nova) contam-nos pedaços das suas vidas, dando a conhecer ao público, na primeira pessoa, o quão complexo pode ser a criação de laços de afetividade entre os diferentes membros de uma família. Um espetáculo profundo a não perder, que nos transporta para o universo das nossas relações pessoais e familiares. Um espelho da vida real, onde desfilam todos os estados emocionais”.

 

 

 

Com encenação e Claudio Hochman, que assina também o texto, em palco estarão três actrizes: Esmeralda Pereira, Maria Carolina Sousa e Isabel Sousa.

 

 

O Infocul entrevistou Claudio Hochman sobre este espectáculo, abordando também o actual panorama teatral em Portugal e as relações entre as pessoas.
Claudio Hochman

Cláudio, começo por lhe questionar quando surgiu a possibilidade de levar esta peça ao Trindade?

A minha história com este teatro é longa. Há 20 anos, a primeira sala onde estreei um espetáculo foi ali, uma versão do Cyrano. E foi por causa dele que acabo por ficar em Portugal. Depois foram muitos anos e muitas peças que fiz neste fantástico teatro. Quando comecei a ensaiar “O Abraço” senti que fazia sentido fazê-la na Sala Estúdio do Trindade, pedi, e lá vamos nós!

 

 

 

Como encenador quais foram os maiores desafios?

Primeiro escolher e explorar as histórias da Esmeralda, da Ana e da Maria de modo a conseguir o resultado mais interessante teatralmente. Depois poetizar as histórias sem que perdessem verdade. O limite entre realidade e ficção é o desafio mais importante deste projeto.

 

 

 

O que retrata esta peça?

Esta peça fala de relações. Relações familiares. É a historia de uma mãe e duas filhas. Suas vivencias, seus conflitos, seus afetos, o que se dizem e o que não dizem. Acho que funciona como um espelho onde o espectador se verá refletido e não terá escapatória para fugir de pensar sobre suas relações.

 

Podemos afirmar que esta peça tem como objetivo colocar o público a refletir sobre as relações humanas?

Exatamente. Sobre todos os familiares. Nas relações com os pais, com os irmãos, com os filhos. É mesmo muito bonito ver uma mãe e duas filhas em cena!

 

 

 

Qual a opinião do Cláudio sobre as relações humanas na atualidade?

É demasiado ampla e não gosto de generalizar. Cada família é um mundo. Claro que a alta ocupação laboral, as tecnologias, as imposições socias, condicionam as relações, mas cada um vai fazendo o que pode.

 

 

 

Acha que estamos mais humanos ou demasiado digitais?

Eu abandonei a internet móvel. No Metro escrevo, leio ou ouço as pessoas e imagino histórias. Uso a tecnologia para trabalhar, tenho os alunos em grupos fechados para partilhar informação, para podermos divulgar os espetáculos etc, mas rapidamente se pode converter num vício e por isso fiz essa escolha. Eu gosto de olhar nos olhos, gosto da palavra dita, gosto dos abraços.

 

 

 

Esta peça conta com três atrizes em palco. Quem são e como foi a escolha do elenco?

Na verdade, elas é que me escolheram a mim. Esmeralda é minha aluna há muito tempo. Ela queria fazer um espetáculo com as suas filhas e propôs “A Casa de Bernarda Alba de Garcia Lorca”, mas eu disse-lhe que essa peça em português não fazia e que se quisesse fazíamos uma peça sobre elas, a partir de histórias reais. E as três aceitaram o desafio. O caminho não foi fácil porque é um espetáculo de muita exposição emocional, mas acho que vai a ser muito gratificante para elas e para o público. A Maria, a filha mais nova também já conhecia porque forma parte de Guerberoff, o Grupo de Teatro Jovem que dirijo e a Ana foi uma agradável revelação!

 

 

 

O teatro documental é algo que tem ainda pouco hábito no público português. Teatro documental no Trindade não é um risco?

É sempre um risco, para os atores e para o público que foge muito deste confronto com as emoções. Os portugueses, em geral, são muito reservados em relação aos seus sentimentos, acho que também por isso não gostam muito de ir ao teatro. No teatro os atores sofrem, choram, riem, passam-lhes emoções e isso mexe. Mas acho que vale a pena tentar abrir o peito e a alma. É tao bom quando podemos falar das nossas coisas abertamente. Eu venho de uma cultura, a argentina, onde duas pessoas que apenas se conhecem podem, em cinco minutos, estar a falar da sua relação com suas mães abertamente. Talvez possa parecer um pouco exagerado, mas eu acho que é bom abrirmo-nos. Não há que ter medo do que sentimos.

 

 

 

Como convida o público a assistir a este espetáculo?

É um espetáculo lindo de morrer, de verdade. Vão divertir-se e emocionar-se no melhor sentido destas palavras. Vão ver três atrizes muito talentosas e sair de lá a sentir uma série de coisas muito fortes e muito boas.

 

 

 

Qual a sua opinião acerca do atual momento do Teatro em Portugal?

Eu fui convidado a vir a trabalhar aqui pelo Carlos Fragateiro, que era o Diretor do Trindade. Ele dizia que aqui havia um teatro experimental muito hermético, um teatro comercial de duvidosa qualidade. Acho que ultimamente se foi abrindo a brecha, o teatro experimental está mais popular e o teatro comercial, por vezes, está mais interessante. Mas o que mais me chama a atenção e de certa forma entristece é que as pessoas vão pouco ao teatro! Na Argentina, por exemplo, fala-se de futebol, de politica e de teatro! Senão foste a ver a última estreia estás fora das conversas… gostava que aqui começasse a ser assim!    

 

 

 

O que urge mudar?

A educação. Teatro nas escolas como disciplina. E que os miúdos e jovens vão ver peças de qualidade, ainda que não estejam no plano nacional de leitura! Há que estimular os jovens! Eu tenho um grupo de cerca de trinta jovens que fazem teatro lindamente! O futuro está neles.

 

 

 

A cultura continua a ser o parente pobre de Portugal?

Desgraçadamente, sim. Doí-me dizer isto, mas é assim. Eu vou continuar a tentar. Acho que os artistas têm também a obrigação de fazer produtos que mexam, que estimulem, que façam o espectador ter vontade de voltar ao teatro!

 

Os bilhetes para este espectáculo têm um custo de 10 euros, sendo que cada sessão tem aproximadamente 60 minutos de duração.

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Notícia publicada a 05/02/2018


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