Cristina Bacelar: “Eu não sou guitarrista de flamenco, abordo-o à minha maneira mas a sonoridade, alguma técnica e alguns palos estão lá”

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Cristina Bacelar acaba de lançar “Nem Tudo é Fado”, o seu segundo disco a solo. Cristina Bacelar é uma multifacetada intérprete, letrista e compositora. Integrou projectos como “As 3 Marias”, que revela nesta entrevista que acabou, e decidiu agora juntar o Fado e o Flamenco num único disco…mas com alguns ingredientes extra.

 

 

 

Neste disco são revisitados temas conhecidos do repertório fadista, bem como temas da autoria de Cristina Bacelar. O flamenco assume também a sua presença.

 

 

O Infocul entrevistou a artista que nos desvendou um pouco mais sobre este trabalho.

 

 

 

Quando começou a pensar neste disco?

No ano passado começei a pensar neste disco. Eu já há muitos anos atrás, tinha experimentado esta fusão entre o fado e o flamenco com um guitarrista de flamenco e onde eu só cantava. Na altura não gravamos mas fizemos muitos concertos pelo país e era completamente novidade e as pessoas gostavam muito. Passei por outros projectos porque gosto de novidades e experiências e mantive-me até há bem pouco tempo. Tal como disse, no ano passado, senti que estava na altura de pegar neste projecto, agora como guitarrista e como interprete. Sou apologista de que vale a pena esperar… esperei muitos anos, fui tropeçando noutras coisas que me enriqueceram e voltei a sentir vontade. Percebi que se houver verdade e tempo nas coisas, elas fazem mais sentido.

 

 

 

Qual a principal mensagem deste disco?

Os discos contam histórias, independentemente, de serem escritas/compostas por nós ou por outros. Se nos identificamos com uma letra ou uma música, ou até com as duas situações, é porque a mensagem é muito forte, não é só bonita. Este disco, Nem tudo é fado, conta muitas histórias com a qual me identifiquei e aquelas que foram feitas por mim, momentos que vivi, que doeram mas que passaram porque tudo passa… e o que fica é o que temos para contar, seja em música, seja noutra forma de expressão artística. Acho que a principal mensagem deste meu disco, é a verdade e a simplicidade com que o fiz; é assim que eu vejo a música, é assim que eu a sinto e fundamentalmente, é assim, que eu a quero “ler” ou cantar, ou tocar. Gosto muito de música e ponto final. Gosto muito de algumas músicas e por isso é que as canto e e toco com a minha identidade.

 

 

 

O que despertou vontade em fazer este disco?

A minha paixão gigante pelo flamenco. Eu não sou guitarrista de flamenco, abordo-o à minha maneira mas a sonoridade, alguma técnica e alguns palos estão lá, quem ouve a minha música sente-o. Um guitarrista de flamenco para mim, é um virtuoso e eu nunca serei mas é no virtuosismo de outros que tenho a humildade de aprender e evoluir. E sobretudo muita vontade de tocar guitarra flamenca. Fascina-me mesclar géneros musicais, passei parte da minha vida a fazê-lo e curiosamente por mero acaso…aconteceu. No ano passado, aproximei-me do fado e embora já gostasse , passei a gostar ainda mais. Conheci muitos fadistas no Porto, percebi que havia imensa gente a cantar e a tocar maravilhosamente fado. Comecei a frequentar assiduamente casas de fado e fiz amigos e com eles aprendi muito sobre este género musical, tão português. Foi uma aprendizagem muito bonita. Este, foi sem dúvida, o disco que eu sempre quis fazer e tenho a certeza que daqui a muitos anos, vou sentir o que sinto hoje, relativamente a este disco. Poderia mudar, um ou outro apontamento musical mas fazia-o da mesma forma que o fiz, com garra, raça, amor e muita emoção… e fazia-o com estes músicos e o produtor com quem trabalhei.

 

 

 

O Fado e o Flamenco são duas das mais fortes expressões musicais de Portugal e Espanha. Juntar num disco é um risco ou um desafio impossível de rejeitar?

É um risco e um desfio sem “IM”! O desafio é o mais estimulante, é a possibilidade de recriar. Eu sou uma pessoa extremamente inconstante musicalmente porque gosto de muita coisa, tenho um gosto eclético. Tenho sempre vontade de “cockteilizar” tudo. Para  mim, a hipótese de uma junção cultural, tem uma lógica, tem um sentido. Mesmo quando percebo que afinal não é para mostrar mas eu gosto. No caso do fado e do flamenco faz todo o sentido porque os árabes andaram por aqui e deixaram cá muita coisa… Há quem diga e escreva que não mas é um facto que eles estiveram na península … Somos todos parecidos e tão diferentes, é um cliché mas é a realidade. Eu acho que não é só nos opostos que está o equilíbrio das coisas; nas semelhanças também, Quanto ao risco, esse é sempre uma consequência à qual se pode ser indiferente ou não.

 

 

 

Quando começou o seu interesse por estes dois géneros e quais as suas maiores referências?

Desde que me lembro de mim. Eu era miúda e ia muito a Espanha com o meu avô. Lembro-me perfeitamente que a primeira vez que ouvi guitarra flamenca foi numa rádio espanhola no carro do meu avô. Era muito pequena mas lembro-me como se fosse hoje. O flamenco sempre me provocou palpitações, uma química inexplicável. Ainda hoje passo horas a ver vídeos de flamenco, às vezes sempre os mesmos, de flamenco e… nem pestanejo. Gosto de guitarristas de referência, O Paco de Lúcia, Vicente Amigo, Tomatito, Antonio Rey… No fado, eu ouvia a Cidália Moreira , que tem tanto flamenco na voz e Maria da fé de quem gosto muito. Como disse, descobri o fado há relativamente pouco tempo e hoje ouço muito mais. Adoro a Beatriz da Conceição, a Argentina Santos, Hermínia Silva, Hélder Moutinho e tantos outros. Nunca mais saía daqui a referir nomes…

 

 

 

A fusão que faz entre o fado e o flamenco com sonoridades da bossa nova e jazz é algo que pode ser criticada pelos puristas?

Tenho a certeza que vai mas não é algo que me preocupe. Cada um é livre de sentir, pensar e dizer o que lhe apetece. Eu não devo nada ao fado, nem ao flamenco ,nem ao jazz, nem eles me devem a mim. Apenas o encantamento e a aprendizagem. Vou dar um exemplo de um grande mestre da guitarra flamenca que quebrou os cânones tradicionais do flamenco, Paco de Lucia. E era o Paco!!! fez com que o flamenco fosse para outros lados, para outras linguagens musicais, nomeadamente o Jazz. Não se limitou a acrescentar instrumentos como o cajon, a flauta ou o baixo. A sonoridade evoluiu e mudou mas a sua essência está lá sempre. Na minha opinião, acho que falta isso ao fado, somam-se instrumentos mas a sonoridade é sempre a mesma. Não se arrisca, há um medo estranha de desvirtuar…pergunto porquê?! É um facto que hoje se vê fadistas em festivais de fado e flamenco mas cada um canta a sua identidade, o que sabe fazer, digamos que não há fusão mas sim uma sobreposição, ou seja “eu canto o fado” e “tu tocas guitarra flamenca” e sobrepomos as nossas raízes. Eu não tenho a mínima pretensão de nada, gosto de música e faço música. Mesmo quando mexo na música dos outros para fazer versões, tenho o maior cuidado e respeito pelo que estou a refazer. Depois se as pessoas gostam ou não é outro assunto. Tenho tido comentários bastante positivos. Tive uma situação muito curiosa, há dois meses, aqui na cidade do Porto. Fui convidada, juntamente com os meus músicos para ir fazer a inauguração de uma casa de fados. A convidada especial dessa noite , era a Celeste Rodrigues… era uma responsabilidade enorme tocar depois da Diva do fado, ainda por cima num trabalho de fusão e a tocar temas como a Lágrima em Saxofone ou a Perseguição em que abordo diversos palos de flamenco. Estava nervosíssima com o que podia acontecer. Surpreendentemente, A Celeste Rodrigues no final, convidou-me para ir à mesa dela, onde estava acompanhada com outros fadistas e elogiou imenso o trabalho, a minha voz e a minha forma de tocar. Não tinha necessidade de o fazer, afinal ela é a Celeste Rodrigues… Muitas das pessoas que estavam lá para a ouvir, ficaram encantadas com o projeto e aplaudiram de pé. Ás vezes temos preconceitos em relação às coisas e até mesmo aos puristas e na realidade não se passa bem assim.

 

 

 

O disco a solo surge porque motivo. Era necessário mostrar-se a solo?

Porque achei que era agora ou nunca mais. Eu já tinha feito um disco a solo que não divulguei muito. Na verdade, quase ninguém, ouviu falar desse disco. Tal como disse, este Nem tudo é fado era o disco que eu sempre quis fazer. Era preciso encontrar os instrumentos certos para a fusão, entre o fado, o flamenco, o jazz e a balada, porque este disco não é só fado e flamenco. Não adianta cozinhar sem ingredientes certos para o que queremos fazer. Eu tive a sorte de encontrar estes músicos e cada um com o seu cunho,  encaixar-se no que eu queria. Estou muito feliz com o meu disco.

 

 

 

Como ficam as 3 Marias? Continuam?

As 3 Marias acabaram. As pessoas seguiram outros caminhos. Curiosamente, As marias foram sempre um projecto em que muitas pessoas entraram e saíram. Na génese do projecto estava eu e a acordeonista Fátima Santos. Como ela, também é artista plástica, optou por essa vertente. Como mentora do projecto e como compositora e se um dia se acontecer, faço outras Marias ou Manéis… Tudo a seu tempo.

 

 

 

A responsabilidade é maior num projecto a solo ou num grupo?

É igual. Para mim, não faz sentido nenhum ser mais responsável no coletivo ou a solo. Há princípios pelos quais me pauto e a minha maneira de estar na vida é igual à minha maneira de estar na música. Se me estou a expor, tenho responsabilidade para com o público que me vai ouvir.

 

 

 

Este é o seu segundo disco. Quais as grandes diferenças para “Descartabilidade” onde cantou Florbela Espanca?

Passaram doze anos sobre esse disco. Cresci como pessoa, como músico. Evoluí. Vivi muito nestes anos. Esse disco aconteceu num determinado momento da minha vida, este noutra, logicamente. Há uma semelhança entre eles, acho que ambos são intemporais mas há mais diferenças, eu tenho outra forma de estar na vida. Tenho uma capacidade de ver as coisas que não tinha, sobretudo de as assimilar para depois exteriorizar através das minhas músicas, das minhas letras. Em suma, o amadurecimento é diferente neste Nem tudo é fado porque é um disco muito mais meu com tudo que fui recolhendo ao longo da minha vida. Nem tudo é fado é um disco de vivências pessoais e musicais, não se limita às emoções espontâneas apenas.

 

 

 

Pegar em temas celebrizados por Amalia e Beatriz da Conceição… Quais os maiores desafios?

Qualquer versão dos fados que estão neste disco foram desafios que fiz a  mim própria e em absoluto estado de consciência e com muito respeito por cada um. Não foram versões que saíram espontaneamente, foram pensadas, partilhadas. É a minha forma de ver o fado. Não sou fadista de raça mas tenho toda a legitimidade de cantar fado porque sou portuguesa. Eu já tinha abordado o fado noutras canções mas mais como conceito. E quando canto fado acompanhada à viola e à guitarra portuguesa, as pessoas gostam e isso motivou-me.

 

 

 

Quais os músicos que gravaram consigo este disco?

No saxofone, o Armando Ribeiro que além de ser um excelente saxofonista é pianista e faz arranjos maravilhosos. Tenho neste Nem tudo é fado , um tema original meu, Fado de papel com um arranjo de cordas feito por ele, lindíssimo. Na guitarra portuguesa, O Rui Pedro Claro, um guitarrista que não faz só fado, muito eclético. Na percussão, O Pedro Silva, um grande percussionista muito habituado à linguagem do flamenco. Na produção deste disco, esteve o José Lourenço, um extraordinário pianista que se relaciona facilmente com instrumentos acústicos.

 

 

 

Em termos de espectáculos o que está preparado?

A fazer a agenda e a investir em espectáculos mais no estrangeiro. Obviamente, que quero muito tocar em Portugal também.

 

 

 

O Fado e o Flamenco são expressões musicais associadas, muitas vezes à tauromaquia. É aficionada?

O fado Marialva, esse sim, está mais ligado. O flamenco tradicional também está ligado à tauromaquia. Creio que há muito esse imaginário ou essa associação. Mas também conheço muitas pessoas que gostam destes dois géneros musicais e não apreciam de todo uma tourada, às vezes pode ser visto como um preconceito… penso que também se pode associar estes 3 elementos a um bom copo de vinho tinto!

 

 

 

Qual a mensagem que deixa aos leitores do Infocul?

Deixo um pedido em vez de uma mensagem. Que ouçam o meu disco, Nem tudo é fado, que o ouçam várias vezes. Podem estranhar no início mas como dizia o poeta …” primeiro estranha-se e depois entranha-se…”

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Notícia publicada a 26/02/2018


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