Duarte: “Uma vida diurna de cante, uma vida nocturna de fado”

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Duarte é um dos mais carismáticos fadistas da actualidade. De talento reconhecido e bom gosto no repertório acaba de lançar novo disco, “Só a cantar”.

 

 

Um disco que vira completamente a página ao conceito apresentado em “Sem dor nem piedade”, um disco que tivemos oportunidade de aqui o analisar. Neste novo trabalho discográfico, produzido por João Gil e com orientação artística de Aldina Duarte, somos transportados pela voz viciante de Duarte que dá vida a letras de extremo bom gosto acompanhadas de complementares melodias.

 

 

Um disco, não surpreendente, mas que ainda assim volta a deixar claro a qualidade de Duarte. Um disco que marca o panorama fadista em 2018! Mesmo estando, ainda, em Fevereiro!

 

 

Duarte em entrevista ao Infocul, aborda o disco, os espectáculos de apresentação, as redes sociais, o Alentejo…a vida.

 

 

Quando é que começaste a pensar neste disco?

Quando terminei o “Sem Dor nem Piedade”. Começou a fazer-me sentido a ideia de poder fazer um disco novo, sobre as ruínas que ficaram. Embora tenham passado três anos desde o último disco, comecei nessa altura a organizar o guião e a arrumar os cadernos de escrita, com um sentido inicial deste “Só a Cantar”.

 

 

 

Depois do “Sem dor nem piedade”, quais as grandes diferenças que encontramos neste disco?

Se “Sem Dor nem Piedade” era um disco que assentava num conceito de luto e perda, este “Só a Cantar” assenta na ideia de sermos capazes de partir sozinhos, de conseguirmos ser sozinhos e de inclusivamente podermos vencer a solidão com essa nossa capacidade. É um disco de histórias que venceram a solidão. E, desta forma, é para mim, um disco com uma carga de esperança que o anterior não tinha.

 

 

 

Quais foram os maiores desafios neste disco?

Senti-me desafiado pelo positivismo do conceito. Senti-me desafiado pela ideia de escrever quase na sua totalidade o disco. Senti-me desafiado pelos amigos que fui encontrando pelo caminho. Músicos, produtores e colegas que de alguma forma me fizeram baralhar e voltar a dar algumas vezes.

 

 

 

Porquê a escolha de Aldina Duarte para a orientação artística e de João Gil na produção?

Não sinto que tenham sido escolhas, mas antes oportunidades de relação que este caminho me ofereceu.

Eu andava a trabalhar com os músicos (Rogério Ferreira e Paulo Parreira) no Sr. Vinho alguns dos temas e as conversas com a Aldina Duarte sobre o disco foram surgindo naturalmente. Daí até ela “casar” as minhas letras com músicas do Fado Tradicional foi um instantinho e um privilégio para mim, uma vez que a Aldina tem, para mim, um trabalho marcante e muito significativo no universo dos fados tradicionais.

Quanto ao João Gil, depois dum concerto dele onde fui convidado a cantar alguns temas, partilhei com o João a necessidade que tinha de alguém que pudesse estar fora do objecto que gostaria de criar, com uma lente de análise que não fosse marcadamente tradicional e/ou fadista. Ele ouviu alguns dos temas que eu tinha composto, leu o guião que eu já tinha escrito, agradou-lhe a ideia da viagem e fez-se comigo ao caminho.

 

 

 

 

“Dizem” conta com palavras como “gay” ou expressões como “bon vivant”. Dizem mesmo isto de ti? Qual a inspiração para esta letra?

Não sei se dizem isso… ou se até não dizem mais… mas mais do que cantar o que dizem ou não sobre mim, procurei cantar aqueles que dizem e que julgam sem saber ou conhecer, de forma a diminuir-lhes a importância.

Ninguém controla o que os outros dizem (e ainda bem que assim é), mas podemos todos tentar gerir mais assertivamente a forma como isso nos afecta e a ressonância emocional dos outros em nós.

 

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A tua ligação à psicologia deixa-nos sempre num limbo entre a ficção e a realidade no que  escreves. Inspiraste mais na ficção ou a realidade é sempre melhor conselheira na escrita?

Mais que verdades ou mentiras, ficção ou realidade, interessam-me as narrativas de vida. Interessam-me os conteúdos de vida das pessoas e a forma como essas mesmas pessoas me contam a sua história, independentemente dos factos mais ou menos verdadeiros.

Há sempre uma linha factual na nossa vida, mas paralela a esta, temos também uma linha emocional, onde ficam marcadas as memórias dos factos. A subjectividade das relações tem destas coisas e são estas coisas que de alguma forma me inspiram.

 

 

 

“Sem dor nem piedade” foi uma obra prima, quiçá incompreendida. Comercial e não comercial ninguém se entendeu na adjectivação. Este é um disco mais leve. O que mudou no Duarte de um disco para outro?

Obrigado desde já pela adjectivação da obra!

Como provavelmente sabes, não estou preocupado com as questões que dizem respeito à compreensão ou comercialização do que tenho para dar. Tenho a sorte de poder fazer, pelo prazer de fazer, e, não pelo objectivo de vender.

Também não sei se este é um disco mais leve, não me cabe a mim saber… embora sinta que é um disco menos melancólico. Mas se a ideia era uma ideia de esperança, poderia ser por aqui, não achas?

 

 

 

 

Outro dos temas deste disco chama-se “Covers”. Existem muitos ‘covers’  no fado?

Que fique desde já registado que nada tenho contra Covers (aliás há uns quantos que eu prefiro aos originais) e como deves imaginar, muito menos contra os fados, embora não me agrade a ideia de servirem estes dois conceitos como se fossem o mesmo. Se quiseres, como se ficasse adjacente a ideia de te servirem gato por lebre. Se são Covers não podem ser Fados, se são Fados não podem ser Covers. Quando pensei neste tema, propus-me assim a revisitar um Fado Pechincha no meu tempo e com a minha linguagem.

 

 

 

Como analisas o actual momento do fado?

Não sou analista, nem pretendo sê-lo, mas também não vou ser hipócrita e dizer que me agrada tudo o que se faz, não nos fados, mas sobre a ideia do fado. As coisas não passam a ser só porque dizemos que elas são. Nos fados também.

Se quiseres, sinto alguma estranheza quando me dizem que o fado está na moda mas nas rádios, nas televisões e nos discos que podemos comprar acabamos por verificar que cada vez há menos fados. Tantos fadistas para tão poucos fados.

 

 

 

Contas com Mara, a tua irmã, neste disco. Relembro-me de um espectáculo vosso em Évora. Para quando um disco em conjunto?

A minha irmã surge neste disco pela ideia de que as pessoas significativas também nos ajudam na guerra da solidão. Ela é sem duvida uma pessoa muito significativa na minha vida.

Nunca pensámos no entanto na hipótese de gravar um disco conjunto. Ela tem o caminho dela, eu tenho o meu, às vezes estes cruzam-se e nós cantamos… mas, quem sabe um dia!

 

 

 

“Mordi a tua mão” tem das letras mais profundas deste disco. Há muita gente a morder a mão que lhes dá de comer?

Em “Mordi a Tua Mão” propus-me a cantar um orgasmo simultâneo num fado tradicional. Acho que é só isso e só isso já me parece tanto!

 

 

 

“Que Fado é esse afinal?”. Qual a história deste tema e quando surge a parceria entre ti e o José Mário Branco?

Não pretendi com este tema julgar, criticar ou dizer mal de fados ou fadistas. Limitei-me a questionar o que nos é servido, muito ao jeito do que sempre se fez nos fados. Questionar nos fados o próprio fado, portanto.

Participei num filme onde o José Mario Branco fazia a direcção musical e numa conversa com ele sobre Efeitos versus Conteúdos, falei-lhe desta letra e da dificuldade que estava a ter para a musicar. Enviei-lhe a letra e ele retribuiu com uma musica para a mesma. Sinto-me honrado. O José Mario Branco é sem dúvida uma daquelas figuras do meu Olimpo musical!

 

 

 

 

Quais os músicos que te acompanharam na gravação deste disco?

Paulo Parreira e Pedro Amendoeira nas Guitarras Portuguesas. Rogério Ferreira na Viola. Daniel Pinto no Baixo. O João Gil acabou também a tocar Viola no tema da Maria da Rocha.

 

 

És considerado um dos maiores talentos do fado. O que te falta para explodires em termos mediáticos?

Sou?! Talvez agradeça, mas ainda não sei bem se isso me agrada!

Falas de talento e mediatismo. Talento e mediatismo não são, a meu ver, correlacionáveis. Um dos restaurantes mais mediáticos em todo o mundo serve hambúrgueres, conheço outros restaurantes muito menos mediáticos, mas que, a meu ver, tão mais talentosos.

Também sinto que há uma diferença significativa entre o Universo dos Fados e o Universo da Industria Musical. Por outro lado, convém também não esquecer que o explodir de qualquer coisa causa, por norma, alguns estragos e os estragos são sempre uma chatice.

 

 

 

 

O Alentejo está em ti e tu tens tanto do Alentejo. O que colocas do  Alentejo no teu fado?

Vivo no Alentejo, logo no que canto tem que estar o meu tempo e o lugar onde vivo. “Branca dolência tardia, terra da melancolia do cante e da minha casa”. A banca dolência. É sempre esta branca dolência.

 

 

 

O Alentejo continua a ser esquecido por quem governa o país?

Apetece-me perguntar quem é que governa este pais? Ou quem é que governa esta Europa? Ou quem é que governa este Mundo?

Somos pequenos e às vezes é fácil esquecermos as coisas pequenas… já pequenas coisas podem ser lembradas eternamente.

 

 

 

Se tivesses que apresentar o Alentejo a alguém, como o farias?

Cantava-lhe a “Terra da Melancolia” e esperava que esse alguém tivesse vontade de se fazer ao caminho devagar… assim como quem saboreia um vinho!

 

 

 

Se a tua vida fosse música seria uma moda alentejana ou um Fado?

Uma vida diurna de cante, uma vida nocturna de fado.

 

 

 

Quem é Duarte fora dos palcos e o que gosta de fazer?

Gosto de pensar que não sou mais nem menos que os outros. Gosto de viver a minha casa e os meus amigos. Gosto de tentar não fazer. Tentar ser, portanto.

 

 

 

Olha como é a tua gestão de redes sociais? Dedicas muito tempo?

Dou, digamos que um salto diário, ao “Fuças” e ao Instagram, mas nada que me faça perder coisa boas que tenha que fazer. Faço assim algumas coisas nesta gestão das redes sociais, daquelas que parecem ser as mais básicas, mas tenho a sorte de ter pessoas que trabalham comigo e que trabalham também algumas dessas ferramentas.

 

 

 

Em termos de espectáculos para apresentação deste disco o que podes já revelar?

Vamos estar por Portugal nos meses de Fevereiro e Março para promover o disco (Sintra, Évora, Tomar, Montemor-o-Novo). Depois seguimos viagem para França e Bélgica a partir de Abril. Se visitarem a minha página, www.duartefado.com datas e lugares estão todos lá!

 

 

 

Qual a mensagem que queres deixar aos leitores do Infocul?

Fica o meu desejo de leituras e dias felizes!

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Notícia publicada a 22/02/2018


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1 comentário

  1. Verde Pino

    Esta entrevista evidencia bem quão inteligente é este espantoso fadista, poeta e músico. Um disco que não desaponta na continuidade de uma carreira que merecia mais palco em Portugal, e certamente o terá além-fronteiras. Parabéns absolutos para Duarte!

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