Gonçalo Castelbranco e o “Estoril em Camisa”: “Nós não estamos a fazer um concerto nem a abrir uma casa de fados”

 

 

 

O Auditório da Sra. da Boa Nova, no Estoril, acolhe a 4 de Maio o evento “Estoril em Camisa” que promete um serão regado com um bom vinho, muito fado e algumas histórias.

 

 

Ricardo Ribeiro, Rodrigo, Maria João Quadros, Salvador Taborda, Matilde Marçal e Gonçalo Castelbranco integram o elenco que promete um serão de partilha e tradição, a partir das 21:30.

 

 

Gonçalo Castelbranco disponibilizou-se, em entrevista ao Infocul, a explicar o projecto e em que consistirá o evento, que contempla uma causa solidária.

 

Isto começa de uma ideia que nós, os fadistas que acabamos por fazer parte deste elenco  desta noite, começámos a perceber que havia um formato que ainda não tinha sido explorado em termos de espectáculo em si. Um espectáculo aberto ao público, 600 pessoas não é brincadeira. É uma coisa mais ou menos estruturada. E havia um formato que nunca tinha sido explorado. Portanto, nós temos a realidade das casas de fado, que é um ambiente mais intimista, mais escuro, mais tranquilo também, mais imprevisível e onde toda a gente consegue fazer parte com relativa facilidade. Depois tens o outro formato, completamente oposto, que eu lhe chamaria se calhar world music em que o objectivo é agarrar no fado, que nós temos neste nosso cantinho, e levá-lo aos quatro cantos do mundo e isso só se consegue fazer, quer queiramos quer não queiramos, só se consegue fazer com um formato mainstream, comercial, que se calhar tem que levar instrumentos que não nos apetece ou músicas/arranjos que não nos apetecem mas que é a única forma de levar pelo menos um bocado da realidade e da verdade daquilo que é o fado que nós vivemos no dia-a-dia nas nossas casas, nos nossos carros, nos nossos quartos. E havia aqui estes dois formatos mas há um formato muito específico e muito real que acontece naturalmente e onde é que ele acontece naturalmente? Na nossa sala. Na nossa casa, no nosso espaço, no nosso cantinho. Nós vamos a uma casa de fados e já não sentimos a mesma coisa que sentíamos antigamente. Antigamente as pessoas juntavam-se nas casas de fado e faziam realmente encontros e partilhas de poemas, de músicas. Onde é que isso agora se faz? Não é nas casas de fado. Que as casas de fado às 8 da noite já se está a fazer a noite do clube do turista, às 10 da noite faz-se uma voltinha de fado, as 11 canta-se mais três, aparece alguém que canta e está feito ali ate às 4 da manhã. Só das 3 às 4 da manha é que acontece fado nas casas de fado. E, portanto neste formato em nossa casa o que acontece e que quem gosta vem, quem gosta de fado vem viver e vem contar histórias, lembrar-se daquilo que se passou, recordar os momentos que viveu com este ou com aquele fadista. Se houver fado há, se não houver não há” diz-nos.

 

Gonçalo que acrescentou “há muito espaço para a imprevisibilidade e…aliás, o nosso guião é não termos guião”. O espectáculo “parte de uma realidade existente para uma realidade que o público não conhece tão bem”, sendo que em palco estarão “4 gerações, praticamente, de fadistas. Desde fadistas que começaram a cantar há um ano a fadistas que cantam há 10, há 20 e há 50 anos. E nestas noites os fadistas perguntam o que é o fundamental deste momento? É que a conversa puxa o fado. Não é o fado que puxa a conversa. As vezes nós cantamos e depois vamos esmiuçar um poema. Não!

 

Importa ressalvar que durante toda a conversa, em formato entrevista, Gonçalo Castelbranco reagiu com boa disposição e inteligente sentido de humor a algumas provocações da minha parte. A primeira delas, que o Estoril, e a zona de Cascais, está associada a uma determinada elite. Questionei o fadista se nesta noite haverá uma elite rendida a uma tradição do povo ou o povo com a tradição elevada a uma elite? “Vou te dizer uma coisa. Vou tentar fugir a este tópico da forma mais sublime que eu encontro, que eu sei que vou conseguir. Uma das cassetes que eu mais ouvia era a da Lucília do Carmo. A Lucília do Carmo tinha um fado que era “No meu berço de madeira pelas mãos do povo talhado…”. Eu adoro esse fado mas eu não o posso cantar porque o povo não talhou a madeira do meu berço. Eu não nasci no povo. Não tenho culpa. mas o povo…o fado não é só do povo. Se é assim eu sou do povo. Eu cresci a ouvir Lucília do Carmo, Frei Hermano da Câmara, Camané, Katia Guerreiro. Todos e nunca foi por isso que me senti menos parte do fado ou mais parte do fado. A verdade é que no Estoril o que acontecia, independentemente de ser…alias, Cascais e Estoril tinha muita tradição de fado, antigamente. Muitas das histórias que o Rodrigo vai contar são exactamente essas histórias, das casas de fado que ele teve em Cascais, o público que ele tinha em Cascais que era desde pescadores a reis de Espanha e a verdade é que o fado era para eles todos. Mas o foco aqui é que de facto em Cascais e no Estoril, o que nós fizemos em investimento? Nós somos dali, os miúdos que fizeram isto. Isto partiu de uma ideia de ajudar a paróquia para levar muitos paroquianos e também jovens do bairro do Fim do Mundo a uma viagem à Terra Santa, que já se realizou. Entretanto, agora vamos tentar um bocadinho colmatar esses custos mas nesse sentido o Estoril fazia sentido porquê? Porque havia uma grande tradição antigamente, uma enorme tradição que se perdeu e é um escândalo que se tenha perdido. É um escândalo inacreditável e nós vivemos de fado. Como tu sabes, eu canto por todas as maneiras. Já tive uma casa de fados em Cascais, temos os fados do Casino Estoril, temos os fados da feira de artesanato, só no verão, mas não há nada. Não há uma casa onde se possa ouvir. E a casa, neste caso, esta casa que se fala muito concretamente nesta noite é uma casa de um decorador de interiores, que é um grande decorador, que é o Salvador Correia de Sá, nobre. De famílias nobres. De famílias aristocratas. Tudo e mais alguma coisa. Mas que toda a vida abriu as portas a todo o tipo de fadistas e 80% dos fadistas que hoje em dia ouvimos falar aqui já ouviram falar destas noites, já viveram estas noites. Já viveram com este homem. Porque é um homem que abre as portas e que nos recebe de forma extraordinária. É muito nessa lógica. O porquê de ser no Estoril é recuperar essa tradição e não a deixar morrer” explicou.

 

 

Não resisti a uma segunda provocação, saudável claro. Se este espectáculo poderia ser o balão de ensaio para algo mais regular, ou seja termos o “Estoril em Camisa” nu formato constante. O Fadista explicou que “ eu não te queria confessar isso mas essa é de facto a nossa ambição. Esta é de facto a nossa ambição. Acreditamos, não só pela necessidade daquela região, Cascais e Estoril, estarem completamente secas de projectos. O que temos é projectos de grande dimensão, só. E que se calhar muitas vezes não fazem sentido. Coisas regulares. Motivação para ter coisas regulares não existe. E nós se pelo menos conseguirmos despoletar essa inclinação para alguém abrir uma casa de fados ou alguém querer fazer fado nos restaurantes deles em Cascais…porque de facto temos muito público de fado em Cascais e por isso há uma necessidade grande de dar continuidade para os próximos anos. Não só mas também porque achamos que é um formato onde muitos dos fadistas que hoje em dia vivem do fado se enquadram. Portanto nós aqui temos uma amostra de  pessoas que poderiam fazer parte destas noites, porque são de facto muitas, muitas a vir a estas noites”.

 

 

 

Acho que temos uma tendência para nos acharmos mais do que aquilo que somos. Ou seja, não tem tanto a ver com o elitismo, tem a ver com a humildade. Acho que muitas das vezes há falta de humildade naquilo que nós fazemos. Ou nos achamos bons de mais ou maus de mais. Nunca estamos contentes com aquilo que somos verdadeiramente e eu, passando isto na minha vida, na minha carreira como fadista, na minha carreira profissional, eu…quanto mais depressa eu perceber, eu assumir a minha humildade em relação a minha condição, mais longe eu vou. Vou só dar-te um a parte para perceberes o que vai na minha cabeça. Eu trabalho em recursos humanos. Eu recruto consultores de informática, eu sou fadista. Eu acordo no século 23 e deito-me no século 8. Tu achas que um homem, achando que é o maior fadista de Portugal e o maior técnico de recursos humanos do mundo se ia safar nesta realidade? Não se ia safar. Portanto, quanto mais se eu assumir a minha humildade enquanto fadista, conhecer o meu canto e assumir a minha realidade enquanto técnico de recursos humanos, mais depressa eu vou conseguir chegar longe e passar a minha mensagem. Portanto, eu acho que a palavra é humildade” disse-nos quando questionado se éramos u povo elitista.

 

Nós não estamos a fazer um concerto nem a abrir uma casa de fados. Nós estamos a abrir a nossa casa de estar, a nossa sala. Nós estamos a convida-los a beber um copo connosco. A sentarem-se connosco e a viverem connosco histórias do fado. Não vamos para politiquices, não vamos para dramatismos,  não vamos para nada. Vai ser uma noite de festa e espero mesmo que percebam a dimensão do cariz solidário que tem este projecto em concreto” disse, quando incitado a convidar o público a esgotar os 600 lugares do auditório, não sem antes voltar a relembrar que o elenco contará com “Rodrigo, Ricardo Ribeiro, Salvador Taborda, Maria João Quadros, Matilde Cid, Gonçalo Castelbranco, Leonor Lavradio, Carlota e depois os músicos são Bernardo Romão, o Pedro Saltão, o Francisco Zanatti também na guitarra portuguesa e o Francisco Cardoso no baixo”.

 

 

 

Os bilhetes para o espectáculo podem ser adquiridos aqui.

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Notícia publicada a 24/04/2018


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