Gonçalo Salgueiro: “O público não é estúpido nem surdo , como muitos gostam fazer crer”

CAPA-GS-FADO-MAE CAPA-GS-SOMBRAS_E_FADO

 

 

 

 

Gonçalo Salgueiro é das vozes mais sofisticadas e distintas do Fado, e até mesmo da música em Portugal. Em 2017 lançou dois discos: “Sombras e Fado” e “Mãe”. Distintos, versáteis e com a marca Salgueiro. Dele ou se gosta ou não se gosta. Não há meio termo. Estes dois discos foram o ponto de partida para uma entrevista que Gonçalo Salgueiro concedeu ao Infocul, sendo a mesma conduzida por Rui Lavrador. Mas a entrevista foi às raízes de Gonçalo Salgueiro: ao Coro que integrou no Alentejo, a infância em Montemor-o-Novo, o seu lado mais pessoal, como o facto de adorar chocolate e de dormir, e ainda uma breve e sucinta análise ao actual momento da música em Portugal. Claro, falámos também de fé, de crenças…e de Jesus Cristo Superstar.

 

Montemor-o-Novo foi a localidade que o viu nascer, no meio de uma familia muito ligada à cultura. Os seus pais cantavam Fado. Com tanta música em seu redor, foi sem grande espanto que a sua vida foi feita na música e fez da música a sua vida. Actuou em conceituadas casas de Fado como o Clube de Fado e Velho Pateo de Sant’Ana, e no teatro ficará para sempre recordado como Jesus Cristo, tendo sido cabeça de cartaz no espectáculo encenado por La Féria.

 

Tem dos timbres mais distintos em Portugal e uma linguagem corporal que não deixa ninguém indiferente. “No tempo das cerejas”, “Segue a minha voz” e “Gonçalo Salgueiro” antecederam, em termos de discografia, estes dois discos editados em 2017. Mas o seu percurso artístico foi muito mais que discos. Criou espectáculos, percorreu mundo e no meio e alguma incompreensão foi mostrando o talento e conquistando público. Um público fiel e que nunca o abandonou. Tudo isto para ler na entrevista que transcrevemos, de seguida, na íntegra.

 

“Sombras e Fado” e “Mãe” foram os dois discos que lançou em 2017. Sendo dois discos distintos, ambos são de fado e ambos contam com a personalidade de Salgueiro. “Mãe” é uma homenagem à sua mãe ou é muito mais do que isso?
Em ambos os discos , como em qualquer coisa que faça, a minha “personalidade” está sempre em tudo plasmada , não consigo fazer diferente , nem quero. Ambos são especiais para mim , mas ,  bastante distintos , sendo que o “MÃE” é muito mais que uma homenagem… É uma declaração de Amor que me sobreviverá… Que mesmo quando eu já não “for “, ainda poderá contar a alguém… Algures o Amor que me unirá para sempre a quem me deu o “Ser “! Esse é um dos poderes maiores da Arte e da Música  em particular … é que nos sobrevive e a mensagem nela incutida continuará viva … como este meu Amor pela minha Mãe!

 

 

 

Quando começou a pensar em cada um dos discos?

O “Sombras e Fado “  começou a ser feito em 2014 , como forma de agradecimento ao público que me segue e apoia e que há muito me pedia um novo trabalho discográfico, sendo que todo o alinhamento foi construído a partir de “ pedidos” do público ( o tema “Volta” foi o meu pedido !).  Quis fazer algo diferente do que tinha feito até aqui explorando um pouco as várias sonoridades que o meu percurso me vem trazendo . Gravar num mesmo disco , trio de guitarras tradicional , arranjos menos convencionais com variados outros instrumentos , coros de cante alentejano e uma orquestra sinfónica , para ficar bem feito, demora o seu tempo… E pelo meio ficar sem a pessoa que mais amo no mundo e que tão feliz estava por este disco … atrasou compreensivelmente  todo o processo e foi exactamente durante o seu período de luta contra um cancro que comecei a escrever os temas para o disco “MÃE “ , sem sequer imaginar que teria a oportunidade de os pôr em disco. Devo essa grande bênção à minha alma , à Fundação Manuel Simões , sobretudo à pessoa da senhora Rosa Piegudo. Exactamente por não estar planeado saíram os dois em 2017 , o primeiro no início de Março e o disco “MÃE” no seu dia de aniversário , 14 de Outubro!

No “Sombras e Fado” escolheu “Boca Encarnada” como single, surpreendendo o público mas também colocando logo a música bem memorizada em quem o segue. Surpreendeu a projecção que teve com o tema?

 

Sendo este single uma obra de Amália Rodrigues e Carlos Gonçalves , no meu entender o sucesso seria quase garantido ! Além disso depois de testar alguns temas junto de pessoas de idades e formas de estar variadas , de minha confiança , constatei que a “Joaquina “ era sempre a dileta e que ficava a ser cantarolada por vários dias, mas foi uma escolha muito difícil. Mais um tema ( como tantos outros ) recuperado por mim , esquecido e agora redescoberto por muitos que nem sabiam que existia. Estando o “meu” público acostumado a temas mais intensos e profundos da minha parte , optei então por dar–lhes algo diferente e em boa hora o fiz. É uma alegria a boa recepção que teve por parte das pessoas que já me acompanham  a cantar o tema e o pedem por onde canto.

Além da interpretação, sobre a qual já tive oportunidade de escrever, o Gonçalo destaca-se pela sua escrita. O que o inspira? Prefere escrever sobre amor ou desamor? É mais fácil pegar em algo negativo ou em algo positivo?
O que me inspira é a Vida,  com todos os seus contornos … bons e maus , assumidamente  escrevo sobre as minhas vivências … eu apenas escrevo sobre o que sinto e conheço.

 

Em “Pecados” a certa altura escreve “Querer o amor de alguém/Sem amar a Deus”. A fé é algo de extrema importância na sua vida?

 

A minha Fé em Algo Maior , chamem-lhe o que quiserem, é indubitavelmente importante e parte da minha essência, como creio sobejamente sabido. Quanto à letra referida , “Pecados “, acredito francamente que quem não conhece um Amor Maior … nunca saberá  amar-se a si próprio, nem a ninguém de uma forma pura…

 

Quando tudo falha agarramo-nos à fé ou quem acredita fá-lo sempre?

 

Quem acredita  fá-lo sempre , muito bem dito! Mas mesmo uma pessoa de fé por vezes vacila e ainda bem que tal acontece , faz parte do “sermos humanos” e acredito que ultrapassando uma fase de dúvida , revolta , frustração … se a Fé subsiste … tornamo-nos pessoas mais fortes ! E eu sei do que falo…

Em “Sombras e Fado” escreve que “Meu viver é assombrado/Pelas Lembranças de ti”. Há pessoas que o magoaram tanto que ainda sente essa dor?

 

Há , há apenas uma, para quem todas essas letras do “desamor” foram escritas  e assim continuarão a ser…

 

Como consegue gerir o mal que as pessoas lhe fazem?

 

Prefiro sempre  pensar no bem que me fazem e esse sim, é abundante, graças a Deus ! Mas também já me fizeram muito mal , como creio acontecer a todos nós. Até há bem pouco tempo não sabia fazer essa gestão e confesso muitas vezes fui consumido pela dor que a pura maldade faz, guardava tudo para mim … Depois do “mal” que a Vida me fez  ao levar a minha Mãe , mudei bastante nesse sentido e em vez de me consumir , enfrento , combato, já não me calo… e perdi muitos medos. Isto, obviamente , se eu achar que faz sentido!! Aí sim, tomo acções , senão… ignoro … porque uma coisa é certa … a Vida encarrega-se quase sempre de fazer justiça … (nem que às vezes seja com um pequeno empurrãozinho)!!! (risos )

 

E o Gonçalo já fez mal a alguém? Consegue pedir logo desculpa quando erra ou é uma palavra difícil de executar?

 

Quem já não errou… nem que seja inconscientemente!… Eu, apesar de ter feito o papel de “Cristo” , não sou santo… mas prefiro sempre evitar ferir alguém . Gosto de pensar que a Humildade e a Gratidão são duas das minhas qualidades… e se erro a primeira coisa que faço é pedir desculpa , gosto de ter a minha consciência tranquila . E tenho!

 

Podemos dizer que o disco “Sombras e Fado” é mais leve que o “Mãe”?

 

Acho que pode dizer que todos os meus discos ,apesar de  todos serem intensos , não se comparam em forma alguma ao disco “MÃE” ! É demasiado especial …

 

“Noite Cerrada”, “Amor de Mel, Amor de Fel”, “Trigueirinha”, são alguns clássicos do Fado que colocou no disco. Eram obrigatórios?

 

Como já referi , foram temas pedidos pelo público através das redes sociais e não só, e esses foram dos mais referidos , juntamente com o “Povo que lavas no rio” ou o “Penso sempre em ti “ ! O meu trabalho é sempre para “os outros “,sempre altruísta, portanto num disco em que o público mandava no alinhamento… tornaram–se obrigatórios. Curiosamente, a grande parte das pessoas pediram mais temas inéditos escritos por mim… o que não esperava de todo!

 

 

Quando surge a possibilidade de ter o “Volta”, de Diogo Piçarra, no seu disco? É dedicado a alguém?

 

Era sim … mas não no sentido literal da perda física … infelizmente veio a tornar-se quase “profético “, com a perda da minha Mãe!

 

Passando agora para o “Mãe”. Quando surgiu a possibilidade deste disco?

 

Surge com a admiração que tenho pelo trabalho da Fundação Manuel Simões ,como já referi e com uma certa audácia ,que não teria tido há uns tempos atrás,  propus-lhes realizar este álbum… com esta temática muito particular e especial. Fui recebido de braços abertos por pessoas maravilhosas que em tudo me apoiaram e às quais muito agradeço! É um trabalho do qual muito me orgulho , pois foi feito com todo o meu “Ser” . Bem como agradeço a toda a equipa de músicos, assim como aos  técnicos que comigo fizeram este trabalho .

Podemos dizer que é uma forma de aliviar o luto?

 

Este trabalho é uma declaração de Amor , como já referi , o luto de uma Mãe … não sei se alguma vez é aliviado … !

O tempo aumenta a saudade e a dor? Ou acaba por curar e atenuar?

 

A Dor é como o mar … vai e vem em ondas… ás vezes maiores , às vezes menores , umas vezes calmo outras agitado … isto eu sei ! Quanto ao tempo , pode curar muita coisa e atenuar , neste caso , no meu caso, duvido , pois parte de mim foi com Ela …

Em termos emocionais foi mais difícil este disco, “Mãe”, ou preferiu fazer do amor que tem pela sua mãe uma motivação maior para que o resultado fosse um disco muito bem conseguido, na minha opinião?

 

É um disco cru , honesto , gravado “em directo“ no estúdio , não tem artifícios , é sentimento puro , com muita lágrima misturada na voz , muitos arrepios , meus e de todos os que comigo lá estiveram … pois todos sentimos que “não estávamos sozinhos “…

Posso dizer que uma das coisas que mais lhe custa é não poder “Descansar meu cansaço nos teus braços”, como diz a letra de “Colo de mãe”, da autoria de Jorge Fernando?

 

É uma das muitas, sim …

 

Quais as críticas que mais lhe custam aceitar e porquê?

 

As injustas e parciais , as “compradas” , as desinformadas ,as injustificadas … As críticas negativas construtivas são importantíssimas , fazem-nos  pensar , reflectir… mas no meu caso nunca se referem ao meu trabalho , mas sim ao que pensam ser a minha personalidade e postura , algo que nunca entendi !? Abomino a mesquinhez e a pequenez da pequena vingança. Não tenho pretensões de agradar a todos, nem quero, seria  tolo se pensasse que o poderia fazer , mas se alguém que saiba mais que eu , que já tenha feito mais e melhor que eu e saiba justificar tudo o que diz , me apontar críticas … sou o primeiro a ouvir com atenção e tentar mudar algo que possa não estar correcto ou que pode ser feito de melhor forma.

 

Acha que as pessoas conhecem o verdadeiro Gonçalo: o homem e o artista?

 

Se não tiverem ideias pré-concebidas / distorcidas ( algo que o meu carisma facilita ) é só estarem atentas ao que faço e como faço , ao que escrevo, ao que digo … e creio ser muito fácil ver quem Eu sou … o Homem e o Artista … são exactamente o mesmo!

 

O Gonçalo tem um percurso artístico que já passou por várias artes. É difícil definir-se quando já fez tanta coisa?

 

Não , fazendo seja o que for sou sempre eu … Nasci Artista , e como tal , a minha necessidade de explorar ao máximo a minha versatilidade leva a que os outros , normalmente em Portugal, não me saibam definir … não eu! Eu sei bem quem sou, o que sou e o que não sou enquanto artista. Alguém que acha que já sabe tudo no seu trabalho , é um “artista morto” e nada mais tem para dar … Por isso faço questão de continuar , enquanto puder, a procurar e explorar  todo o tipo de veículo que a Arte nos dá para nos expressarmos , fazer os outros felizes e fazer mim um ser mais completo.

 

Tem muito poucos concertos em Portugal. Porquê?

 

Essa pergunta tem muito que se lhe diga … e mais ainda teria a resposta … Abreviando, 6 meses após começar a cantar em casas de Fado , fui imediatamente para o teatro musical , onde estive de forma quase contínua  até ao início de 2016 , portanto quase todos os dias em palco… durante 16 anos …( nem sei quantos milhões de pessoas daria esta conta !?!? ). Na minha opinião eu ter conseguido alcançar e manter uma carreira a solo , muitos outros projectos e actividades e ainda gravar  discos é que é de espantar! Pois quem fica tanto tempo no Teatro , raramente consegue fazer algo fora dele neste país.

No início de 2016 tinha resolvido fazer uma pausa para ter “um tempo só  para mim” e foi em Março deste ano que a minha Mãe adoeceu e morreu posteriormente em Agosto. Até o final de 2017 tive de cumprir contratos , só Deus sabe a que custo com tudo o que estava a passar…  ( cantar para mim é trabalho … e de imensa responsabilidade pois exijo de mim sempre 150 % em tudo o que faço , não é como oiço muitas vezes … “ é só ir ali cantar uns fadinhos “)… Tenho muito respeito por quem tirou um pouco do seu tempo e dinheiro para me ir ver trabalhar . Pegando na palavra trabalho , leva-me a outro tópico muito importante  , a “ moda “de cantar por cachets ridículos e humilhantes a que tanta gente se sujeita e as famosas “borlas promocionais” em todo o lado , acredite ,se eu não prezasse a minha dignidade (e estupidamente talvez a dos meus colegas) e entrasse neste jogo triste … cantaria todos os dias … Prefiro francamente ir fazer outra coisa qualquer ! E talvez o venha a fazer mesmo …

 

O que falta para que em termos de espectáculo e continuidade possa ter o tão falado ‘boom’ de que se fala?

 

No meu caso o “boom” teria sido muito fácil … Eu vendia a alma (e se calhar algo mais) , tornava-me “fantoche” nas mãos de outras pessoas e fazia o que outros entendessem que devia fazer e seria o maior !! E oportunidades não me faltaram , mas como já referi … prefiro dormir de consciência tranquila e limpa .Sem a máquina do marketing, realmente, nada acontece!! Portanto posso dar me por muito feliz de ter êxitos como o “Jesus Cristo Superstar “ , pelo qual as pessoas ainda anseiam voltar a ver  passados 10 anos , encher os sítios onde canto e vender cds sem manobras de armazém ! Sou respeitado pelos outros e sobretudo por mim próprio e isso não há nada que pague. Sou um felizardo! Tudo o que fiz nestes quase 19 anos foi devido ao que Deus e os meus pais me deram… nada mais .

 

Ainda se lembra do primeiro concerto que deu na carreira? Onde foi e que recordações tem?

 

Sim , sim ! Lembro-me muito bem ! Uma das minhas melhores amigas de sempre, ligada a uma ONG ,  convidou–me para cantar num evento privado no Museu de Marinha , para 800 pessoas de todo o mundo . Não havia microfones , eu tremia por todo o lado  porque o espaço é imenso e estava cheio de gente … Como sempre lá combati os meus medos e o evento acabou com toda a gente de pé a perguntar onde podiam comprar discos e onde me poderiam ir ouvir futuramente  , e eu era um miúdo de escola … graças a Deus nunca nada destas coisas me “subiu à cabeça” , mas olhando para trás , foi um sucesso do qual muito me orgulho e foram muitos os eventos que fiz para a mesma entidade após este primeiro , portanto algo correu bem! ( risos )

 

Sente que criou anticorpos no meio musical pela sua postura arrojada e de dizer tudo o que pensa?

 

Não digo tudo o que penso e muito menos tudo o que sei… mas digo tudo o que entendo deve ser dito , sobretudo se ajudar alguém . A minha postura quando trabalho  é a de um profissional acima de tudo e bom colega , trato toda a gente com respeito e exijo o mesmo respeito e profissionalismo de quem comigo trabalha. Como já referi , quem me conhece respeita e gosta de mim … os restantes se tiverem problemas com a minha postura ou seja lá o que for , façam como eu… e ignorem… com certeza  serão problemas , inseguranças , falhas de carácter, frustrações … que terão de resolver com eles próprios . Aliás, posso cometer uma inconfidência … há certas companhias onde deixei de trabalhar que frequentemente me contactam por sentirem a falta das minhas palhaçadas e brincadeiras… não sou assim tão chato como devo parecer … ( risos )

 

O que mudaria no seu percurso?

 

Não confiaria em praticamente ninguém e muito menos daria segundas / terceiras chances a que não merecia  e pensaria um pouco mais em mim .

 

Qual o momento que mais o marcou em toda a carreira?

 

Resposta impossível … Foram muitos, demasiados momentos  ! Talvez responda de outra forma , não o momento , mas o projecto mais marcante , foi o “Jesus Cristo Superstar” !

 

É um Amaliano confesso. Amália será sempre a maior artista deste país?

 

SIM !

 

Quem são as suas grandes referências?

 

Outra pergunta de resposta impossível … Maria Callas e Amália , são sempre a minha grande inspiração em tudo o que faço . O número de pessoas cujo trabalho respeito é demasiado vasto e variado e se o leitor por esta altura ainda não se cansou ( risos ) se enunciasse todos … desistia de ler aqui mesmo. ( risos )

 

Quem é Gonçalo Salgueiro fora dos palcos e o que gosta de fazer?

 

O mesmo que é em cima dos palcos… não “visto ou dispo personalidades”… esse é um talento que vejo em tanta gente, mas que infelizmente ou felizmente, não possuo. Gosto de estar com quem amo, família, amigos e as minhas “meninas” pequeninas, adoro cinema e teatro, mas nada melhor que um óptimo serão com amigos, a rir e a conversar toda a noite! Adoro descobrir nova musica , novos intérpretes e passo muito tempo no youtube! Ah e o mais importante … gosto de dormir e comer chocolate… (risos )

 

É um homem de afectos?

 

O conceito de “afectos “ hoje em dia está algo confuso , portanto não sei bem o que responder … gosto de ser afável e respeitoso com todos… se é essa a questão…

É Alentejano. Nasceu em Montemor-o-Novo. Que recordações tem do Alentejo? Costuma regressar com frequência?

 

Sou sim , do Alentejo , de Montemor-o-Novo. um local muito particular. Creio que herdei  dele uma certa tristeza que lhe é inerente, mas não costumo visitá-lo , vou sim estar com o meu Pai que muito amo e de quem muito preciso.

 

No Alentejo integrou um grupo coral. Foi uma boa experiência para o artista que hoje é?

 

Sim , o grupo coral de S.Domingos . Recomendo a todos os jovens que gostem de cantar , primeiro porque se aprende logo o que são “egos” e principalmente é fantástico para noção de “grupo” , disciplina e afinação .

 

O Teatro é outra das áreas em que já brilhou. Jesus Cristo SuperStar foi o ponto alto?

 

Sem dúvida ! Fiz inúmeras peças de êxito  enquanto protagonista … mas nada que se compare ao “Cristo “, nada mesmo! Era a cada récita uma experiência transcendental para mim e creio que para todos os que estavam comigo no palco e fora dele … o Teatro é uma paixão visceral  , um vício e deu-me muito muito, devo muito ao Teatro .

 

Para quando o regresso ao Teatro?

 

Quando se proporcionar um  projecto digno , original e que marque a diferença.

 

Como foi a experiência de trabalhar com Filipe La Feria, que muitos intitulam de La Fúria?

 

Eu costumo dizer , que não precisei de ir à tropa , porque trabalhei desde muito cedo com o Sr. Filipe La Féria ! Aprendi muito com ele, muito ! Devo–lhe muito e creio que ele também me está grato por tudo o que fiz nas suas peças. Aprendi também , que o “ La Fúria “ é extremamente necessário para domesticar egos inflamados e desenfreados , ainda bem que de vez em quando o “ La Fúria” aparece , senão não sei o que seria de tanta gente que sem ele ,literalmente, não come … porque o teatro em Portugal sem ele … enfim, nem sei se consigo imaginar !!! E em vez de usarem esse termo de forma pejorativa , melhor o compreendam , percebam o que o rodeia , o que ele tem de enfrentar … e lhe sejam gratos sempre e não só quando precisam de comer ou aparecer para justificar a falta de “existência” fora das suas produções.  O Sr.Filipe La Féria é respeitador e meigo comigo e eu gosto dele como ele é.

 

O amor é o maior combustível da vida? Ou há outros mais importantes?

 

Há ! Não sei se se pode considerar um combustível , mas é sem dúvida, no meu entender , uma condição para o mesmo! O Respeito, sem este … nem o Amor existe!

 

Qual a importância das redes sociais no seu trabalho? Dedica muito tempo às redes sociais?

 

Hoje em dia são incontornáveis e como tal fulcrais para esta área de trabalho . Podemos estar em contacto com quem de nós gosta e com colegas de várias áreas e em qualquer parte do mundo , é , por exemplo , muito gratificante saber que estudam a minha forma de cantar no Japão ou na Argentina ! Dedico o tempo suficiente, creio eu,  para estar o mais possível presente junto de quem me segue.

 

Em termos de espectáculos o que já pode revelar para 2018?

 

Há muita decisão pessoal a tomar antes de poder responder a esta questão.

 

Qual a sua opinião sobre a imprensa em Portugal?

 

É  de extremos e para todos os gostos  , tem de ser o público a escolher como quer ser informado… temos a imprensa isenta , informada e culta … depois há o sensacionalismo, a maldade , a estupidez e a exploração da vida / intimidade / sofrimento alheio … que abomino!

 

Sente que a cultura continua a ser o parente pobre do país?

 

Sim , e enquanto quem nela trabalha não tomar atitudes para se fazer respeitar … assim continuará , e o nosso trabalho continuará a ser visto como hobby. A culpa é de quem trabalha nesta área e se sujeita a tudo.

 

E no Fado. Há muitos fadistas ou muitas pessoas a cantar fado?

 

Essa pergunta será melhor dirigida a alguém com 50 anos ou mais de Fado, que ainda os há e muitos! Como dizem os meus amigos só oiço “ velhas e mortas” ( risos ) , portanto não serei a pessoa indicada para responder da melhor forma a essa questão , no entanto , respeito e sou público de alguns colegas ( e eles sabem quem são , pois faço questão de o dizer aos próprios , que são poucos ) .

 

Sente que o público sabe distinguir o trigo do joio no que se refere ao talento?

 

Sem dúvida ! O público não é estúpido nem surdo , como muitos gostam fazer crer… mas o grande público também só  consome o que lhes é dado a conhecer … muita publicidade e marketing nunca foi nem será sinónimo de talento.

 

Por várias vezes vai usando o seu Facebook para fazer alertas sobre fraudes e pessoas com intenções duvidosas. É um dever que sente enquanto ser humano?

 

Sem dúvida. E continuarei a fazê-lo.  Sei que já serviu para alertar muita gente pouco informada sobre algumas situações . E se um “post “ meu de Facebook pode ajudar alguém a não ser burlado , roubado ou maltratado ,assim o farei , foi assim que me educaram , a fazer ao próximo o que gostaria que me fizessem a mim.

 

É também produtor. Quais os artistas da nova geração a quem augura um futuro promissor no Fado e que conselhos lhes deixa?

 

Sim sou.  É um trabalho altamente gratificante. Há gente de uma nova geração a cantar , tocar , escrever e compor muito bem e se tiverem sorte e juízo poderão fazer uma boa carreira, espero eu ! Conselhos : Pensar bem se é esta a vida que querem ter… pois não será fácil ; Se têm algo a acrescentar, se trazem algo de novo  verdadeiramente; Respeitar o Público acima de tudo ; Respeitar a Arte pela arte e não pelo que ela pode trazer; Manter a personalidade e um discurso coerente ( não dizer que não gostavam de Fado há uns anos atrás , depois dizerem que são fadistas tradicionais e passados anos deixaram totalmente de o ser , é muito confuso e algo bipolar !!!!) , não fazer imitações , pensar sempre além e de forma original ; Não cair na tentação dos “atalhos “ para alcançar seja o que for ; Respeitar os que têm mais tempo de carreira; Nunca deixar o vosso destino/carreira  nas mãos de outros e muito menos confiar cegamente seja em quem for; Guardar religiosamente toda a documentação do vosso trabalho e nunca assinar nada sem ler; Não acreditar em promessas levianas e infundadas; Serem sempre bons colegas e nunca pisar ninguém para alcançar seja o que for ; Se com o vosso trabalho puderem ajudar nem que seja uma só pessoa já vale a pena ! E por fim… retirarem a maior satisfação possível do vosso trabalho, se não forem felizes com o que fazem … não vale a pena .

 

Qual a mensagem que quer deixar aos leitores do Infocul?

 

Obrigado por terem tirado um pouco do vosso tempo para me ficar , talvez , a conhecer um pouco melhor ! Continuem a seguir a Infocul e a apoiar as Artes!

Partilhar
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  

Notícia publicada a 05/04/2018


About the author /


1 comentário

  1. Maria teresa Reuss

    Obrigada à infocul por me ter dado a oportunidade de conhecer melhor um fadista que amo e admiro por tudo, a maneira emotiva como canta, a sua postura e voz única. O melhor fadista de sempre Gonçalo Salgueiro que ouço todos os dias

Post your comments

Your email address will not be published. Required fields are marked *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

_